Pedro a caminhar no mar
Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28. Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29. «Vem» – disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30. Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!»
Mt
14,27-30
Pedro, questiono-me porque pediste a Jesus para caminhar no mar, quando O reconheceste na noite tormentosa. Precisavas disso? Podias muito bem esperar por Ele, na tranquilidade do barco, ou então pedir uma prova menos complicada, tal como: "Se és tu, Senhor, diz ao vento que nos seja favorável." Afinal, pelo que sabemos, era essa a grande dificuldade pela qual estáveis a atravessar. Mas não! Resolveste pedir para caminhar no mar. Até parece que te querias divertir; que era um passeio turístico o que pretendias. Quererias tu demonstrar perante os outros discípulos que podias ter acesso a uns truques extra de dominação do mar? Se foi isso, saíste-te muito mal. Até diria mais: foste mesmo ridículo!
Talvez deslumbrado ou
ofendido por Jesus estar a conseguir algo que sempre tu desejaras fazer? Tinhas
razões para te comprazer na certeza de que sabias mais do mar do que Jesus, em
cujo curriculum de carpinteiro, só conhecias o manejo de tábuas, pregos e
martelo (e aqui viste, até ao fim, como Ele foi exímio artista!). Compreendo-te
alguma frustração: tantos anos a lidar com aquele tumulto de água e nunca
havias logrado arrancar qualquer trégua daquele monstro líquido. E Jesus
conseguira!
A tua ideia era testar
Jesus, ou era testar-te a ti próprio?
Vem-me ao pensamento que avançaste para o mar com uma leviandade
displicente. Teria sido contrariedade por Ele vos ter mandado ir adiante,
enquanto se quedava em contemplação? Lembra-te que também foste chamado para a
glória do Tabor...
Oh, Pedro, como me revejo
nesta tua atitude primária, irrefletida, talvez ingénua. A tua imagem a
caminhar no mar faz-me lembrar a minha loucura de, às vezes, querer caminhar
sobre as minhas fragilidades como se tivesse absoluto domínio sobre elas, como
se as conseguisse ultrapassar. E, de repente, dou comigo a soçobrar, se não
quando olho para Jesus e grito, de braço levantado: "salva-me,
Senhor!"
Saberias já nessa altura
que as coisas de Deus prescindem da astúcia, e não se dão bem com a maldade e a
corrupção? Todos os empreendimentos humanos apenas sustentados pela perícia,
pela intelectualidade, pelas capacidades humanas, não logram alcançar a Deus. O
que as fará alcançar Deus, será o próprio Deus. Bem ouviste Jesus a advertir:
“Ninguém vai ao Pai senão por mim!” (Jo 14,6), mas também a garantir: “Anunciei-vos
estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações;
mas, tende confiança: Eu já venci o mundo!» (Jo 16, 33).
Parece que ouço o teu
pensamento a martelar na minha cabeça com este rol de perguntas dirigidas a
Jesus: "Porque mostras esse poder tão incrível? Para onde foi o teu peso?
Porque vens perturbar ainda mais o nosso medo?"
O medo. Tiveste medo,
Pedro. Parece que o medo depressa ocupa o lugar da fé. Entre a prudência e o
medo parece haver uma fronteira tão ténue. Jesus encoraja-nos a ter a primeira,
mas a escorraçar a segunda. Como encontrar o equilíbrio?
Tenho para mim que, se tu
não tivesses acolhido o medo, terias conseguido ir até ao fim. E qual era o
fim? Era Jesus. É aqui que encontro o
teu falhanço: tu deixaste de olhar Jesus para te centrar no mar e no vento… e
em ti próprio, no instinto de sobrevivência. Sim, para te centrar em ti
próprio. Não te condeno. Talvez fosse automático: tantos anos a receber
agressões do mar, era natural que estivesses marcado, traumatizado! E algo
disparou de dentro de ti. Isto é de grande alerta para mim. Olhar para Jesus,
mais: ambicionar o abraço de Jesus há de ser o segredo para não me afundar. Se,
naquele instante, tu O tivesses como mira, a grande meta, tu não caminharias
sobre o mar: tu voarias, e nunca te poderias afundar. Mas o teu futuro caminho
de fidelidade diz-me que tão bem o aprendeste!
Tu aprendeste que o poder
de Jesus, que te deslumbrou inicialmente desde uma perspetiva humana, é só o
poder do amor que não subjuga… é um poder que penetra as coisas, e até enamora
o mar, acaricia o vento e comove a noite. O poder do amor é um poder que
conhece. Jesus conhece o mar, o vento e a noite e conhece os seus discípulos,
por isso pode pacificar os elementos, e pode pacificar os seus amados.
E contigo rezo:
“Salva-me,
Senhor! Orienta o meu olhar para que possa encontrar o teu olhar. É este o mar
de paz onde conseguirei encontrar o meu equilíbrio, a minha sustentação, o meu
caminhar seguro.
Senhor,
não me deixes afundar. Ou então resgata o meu peso para a leveza da tua
misericórdia, essa boia do teu abraço, onde se pode repousar.
Meu
Jesus, eu te agradeço porque sempre te apresentas como o Deus próximo, atento e
misericordioso. Ensina-me o poder do amor, esse poder, desarmado e desarmante,
que é a fonte da paz!
Irmã Maria José Oliveira, sfrjs



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