O Céu da boca
A minha boca proclamará a tua justiça, e todo o dia anunciarei a tua salvação. (Salmo 70(71), 15)
Ao palato denominamos, comummente,
"céu da boca". Trata-se daquele teto, que encaixa em cima da língua,
como tampa de um cofre, e faz a divisão entre a cavidade nasal e a cavidade bucal.
O palato duro progride para mole até chegar à tribuna da úvula, esse músculo
que, como um cortinado, se despenha na faringe.
Por aqui passam os sons e os alimentos.
Entra e sai o ar que nos vivifica e nos purifica. A boca é a primeira câmara da
palavra e do canto. Também do gemido e do suspiro. É a sede da palavra. Na
minha infância dedicava-me a escrever previamente com a língua no céu da boca
as palavras que ia pronunciar ou pensamentos em que matutava. E perguntava-me
porque se chamaria céu a esta região tão oculta? Seria só por estar por cima? Ali
não há sol, nem lua, nem estrelas; não é uma parte da boca que tenha grande
paladar, mas talvez o amplifique. É um terreno irrigado e húmido que se mantem
na discrição, encerrado atrás da cortina dos dentes. Que céu poderá ser este?
Será por ser uma caixa de ressonância? Ou por ter umas nervuras engraçadas que
eu tateava com a língua?
Eis que, recentemente, achei que tal
denominação não podia ser mais apropriada, ao considerar que, na sagrada
comunhão, esta parte da boca ganha a incomensurável honra de ser teto ao Rei
dos reis. No momento em que recebo o Pão dos Anjos, o alimento da vida eterna,
considero: Ah! Agora é que há céu na minha boca. É o céu da minha boca, do meu
corpo, da minha existência. É o céu somente! Aqui está Deus e com Ele o seu
séquito de glória. E prostro-me intimamente para O adorar com todos os Anjos e
Santos da corte celestial.
A minha língua não é apenas um trono,
mas um ambiente imenso, infinito que o Todo Poderoso elegeu para habitar! Ter
esta consciência é literalmente uma delícia. Eis que posso saborear como o
Senhor é bom (Salmo 33/34)! Se ali O tenho presente, há verdadeiramente um céu
na minha boca. E daí para diante este espaço deveria ser uma abobada onde apenas
ressoassem louvores, bendições, palavras de bondade e de beleza. Depois de ali
ter entrado o Santo dos santos, como é possível que dali possam sair palavras
de maldição, de ofensa ou de mentira?
Pensamentos, detende-vos! Neurónios e
sinapses cerebrais tende cuidado antes de fazer ressoar a caixa vocal, não seja
que qualquer vibração inconveniente possa manchar este trono de Deus. Não é
bonito que apresente ao Senhor um assento sujo, enodoado. Tenha eu o cuidado em
conservá-lo não apenas limpo e asseado, mas adornado com as melhores palavras e
cantos. Talvez tenha de começar sempre pelo pavilhão auditivo. A escuta. Só
deveria deixar sair a palavra que me tenha sido insuflada pelo sopro de Deus.
Agora até tenho para mim que foi dado este
nome ao palato em algum momento assim: em que Jesus, em todo o seu esplendor
habitava na boca de alguém. O Céu da boca é Ele. Ele é o Céu de todo o nosso
corpo de todo o nosso entendimento. Por isso quero seguir a oração do Salmista:
A minha boca proclamará a tua justiça, e
todo o dia anunciarei a tua salvação (Salmo 70/71, 15).
Irmã Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs
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