JONAS, O PROFETA CONTRARIADO
“1A palavra do SENHOR foi dirigida a Jonas, filho de Amitai, dizendo: 2«Levanta-te! Vai a Nínive, a grande cidade, e proclama contra ela que a maldade deles subiu até à minha presença». 3Porém, Jonas levantou-se para fugir para Társis, longe da presença do SENHOR. Desceu a Jafa, onde encontrou um navio que ia para Társis; pagou a passagem e embarcou para ir com eles para Társis, longe da presença do SENHOR.”
O
único instrumento de funcionamento da profecia é a verdade. Se formos
verdadeiros a profecia vai continuar a apostar em nós. Ela leva o homem, ainda
em bruto, até ao fundo das entranhas. O profeta precisa de perceber a forma de
"digestão" da Palavra. Tantas vezes a Bíblia usa esta imagem do
metabolismo da Palavra. A palavra come-se. A palavra digere-se. A palavra há-de
entrar na composição orgânica do nosso corpo. O profeta faz esse estágio de
observação do percurso de palavra até ao estômago, até ao metabolismo. A Palavra
faz-se carne... no profeta. Também em nós.
O
profeta tem de passar pelo silêncio. As cordas vocais não são o mais importante
instrumento de trabalho do Profeta. Elas estão apenas na ponta do processo. A
água onde vivem os peixes simboliza o silêncio. O estágio do profeta deixa de
lado as cordas vocais, e passa pelas guelras, um modo de absorver o oxigénio da
respiração a partir da água, ou seja do silêncio. O profeta aprende como se
vive (d)o silêncio.
O
profeta tem de estagiar a rejeição, ser lançado fora. A rejeição é, segundo S.
Francisco de Assis, a aprendizagem da verdadeira e perfeita alegria. O profeta
não vive de euforia, de aplauso ou de aprovação alheia, mas do desígnio de
Deus. Não vive de pão, mas da palavra, quando esta já o habita.
O
profeta prega. Mas a pregação é ambulante, não é feita num púlpito. Jonas não
deve esperar que os Ninivitas se juntem em Assembleia para ouvir a mensagem que
ele tem para lhes dizer. Ela deve ser dita e repetida quantas vezes as que
foram necessárias, até que todos o saibam. Faz lembrar a catequese ambulante de
Jesus com os discípulos de Emaús. Faz lembrar a desinstalação que a mensagem
provoca, faz lembrar até como a provação e a dispersão faz com que a Palavra se
espalhe. O importante é que o profeta esteja cheio da Palavra, de tal modo que
ela lhe saia não apenas pelos lábios mas por todo o corpo, por todo seu ser.
Pelo olhar quando olha, pelo caminhar, quando caminha, pelos gestos quando
decide tecer relações. Três dias, 72 horas, 4 320 minutos… todos. A Palavra do
Senhor deve preencher o nosso tempo e todas as nossas palavras.
Em
Jonas podemos encontrar a personificação de muitas das nossas atitudes céticas
perante o pecado dos irmãos e a infantilidade de “repreender” Deus por esse
pecado não ser castigado à nossa medida. Não queremos consentir que a
misericórdia de Deus possa atuar. Não compreendemos a dinâmica da sua justiça,
damos-lhe conselhos e até cometemos a loucura de maquinar estratégias para
fugir à responsabilidade de fazer o que Ele nos manda. Mesmo assim, Ele
continua a apostar em nós.
Conhecemos
bem a atitude derrotista que dita não valer a pena, que ninguém aparece, que
não há gente, que desapareceu a juventude, aquela fora de nós, mas também a que
nos feneceu na alma. Conhecemos bem a atitude temerosa de achar que tudo nos
engole... as palavras. E Deus envia-nos, às vezes por caminhos enviesados. Quando
menos pensamos, a profecia, ela própria, nos lavra a alma! Ela tomou conta de
nós. E os milagres nascem à nossa frente.
Precisamos
de ser sempre calibrados pela Verdade. E ver, para além da areia, as pegadas
ainda quentes dos que procuram peixes... e pão. Deus envia-nos para dentro de
bocas. Mas se formos íntegros não temeremos nenhum mal porque Deus está connosco
(cf. Sl 23). A verdade está connosco, a verdade nos liberta (cf. Jo 8, 32).
Senhor Jesus, se
quiseres, podes enviar-me!
Se quiseres, podes
fazer-me passar pela rejeição e pelo medo, mas faz-me sentir a tua presença que
me aconchega e protege;
Se quiseres podes privar-me
de tantas seguranças que me parecem ser oxigénio para a minha sobrevivência,
mas faz-me sentir permanentemente a água viva do teu Espírito que me irriga de
amor;
Se quiseres podes
fazer-me estagiar o silêncio, mas não afastes de mim o alimento da tua Palavra
e o pão da Eucaristia, que me nutrem nas noites longas da alma;
Se quiseres podes
fazer-me atravessar o deserto, a secura, a prova e a impotência, mas usa comigo
da misericórdia da qual me queres fazer instrumento e sentinela.
Confirma em mim a tua
obra de amor.
Amén.
Irmã Maria José Oliveira,
sfrjs



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