JONAS, O PROFETA CONTRARIADO

 


“1A palavra do SENHOR foi dirigida a Jonas, filho de Amitai, dizendo: 2«Levanta-te! Vai a Nínive, a grande cidade, e proclama contra ela que a maldade deles subiu até à minha presença». 3Porém, Jonas levantou-se para fugir para Társis, longe da presença do SENHOR. Desceu a Jafa, onde encontrou um navio que ia para Társis; pagou a passagem e embarcou para ir com eles para Társis, longe da presença do SENHOR.”

 O percurso de Jonas apresenta as fases de metamorfose de um homem, desde o chamamento de Deus até chegar ao ponto de profeta. O profeta é muito mais do que um agente da profecia; é um homem/mulher de quem a profecia se apoderou. A profecia quer tomar conta dele. Ele resiste. É provável que se escuse, que fuja. Mas a profecia vai procurá-lo, e vai remover dele aquelas arestas que se formam pelo efeito da contrariedade. Para desbastar essas arestas nada melhor do que uma tempestade. A contrariedade está ao rubro, mas aquele que será profeta começa a definir-se. Apesar de contrariado, a verdade vai calibrar a sua pertença, mesmo que seja contra ele mesmo. E ele assume: «Eu sou hebreu, e temo o SENHOR, Deus dos céus, que fez o mar e a terra seca» (Jn 1, 9). É a partir desta autenticidade que a Profecia o toma.

O único instrumento de funcionamento da profecia é a verdade. Se formos verdadeiros a profecia vai continuar a apostar em nós. Ela leva o homem, ainda em bruto, até ao fundo das entranhas. O profeta precisa de perceber a forma de "digestão" da Palavra. Tantas vezes a Bíblia usa esta imagem do metabolismo da Palavra. A palavra come-se. A palavra digere-se. A palavra há-de entrar na composição orgânica do nosso corpo. O profeta faz esse estágio de observação do percurso de palavra até ao estômago, até ao metabolismo. A Palavra faz-se carne... no profeta. Também em nós.

O profeta tem de passar pelo silêncio. As cordas vocais não são o mais importante instrumento de trabalho do Profeta. Elas estão apenas na ponta do processo. A água onde vivem os peixes simboliza o silêncio. O estágio do profeta deixa de lado as cordas vocais, e passa pelas guelras, um modo de absorver o oxigénio da respiração a partir da água, ou seja do silêncio. O profeta aprende como se vive (d)o silêncio.

O profeta tem de estagiar a rejeição, ser lançado fora. A rejeição é, segundo S. Francisco de Assis, a aprendizagem da verdadeira e perfeita alegria. O profeta não vive de euforia, de aplauso ou de aprovação alheia, mas do desígnio de Deus. Não vive de pão, mas da palavra, quando esta já o habita.

O profeta prega. Mas a pregação é ambulante, não é feita num púlpito. Jonas não deve esperar que os Ninivitas se juntem em Assembleia para ouvir a mensagem que ele tem para lhes dizer. Ela deve ser dita e repetida quantas vezes as que foram necessárias, até que todos o saibam. Faz lembrar a catequese ambulante de Jesus com os discípulos de Emaús. Faz lembrar a desinstalação que a mensagem provoca, faz lembrar até como a provação e a dispersão faz com que a Palavra se espalhe. O importante é que o profeta esteja cheio da Palavra, de tal modo que ela lhe saia não apenas pelos lábios mas por todo o corpo, por todo seu ser. Pelo olhar quando olha, pelo caminhar, quando caminha, pelos gestos quando decide tecer relações. Três dias, 72 horas, 4 320 minutos… todos. A Palavra do Senhor deve preencher o nosso tempo e todas as nossas palavras.

Em Jonas podemos encontrar a personificação de muitas das nossas atitudes céticas perante o pecado dos irmãos e a infantilidade de “repreender” Deus por esse pecado não ser castigado à nossa medida. Não queremos consentir que a misericórdia de Deus possa atuar. Não compreendemos a dinâmica da sua justiça, damos-lhe conselhos e até cometemos a loucura de maquinar estratégias para fugir à responsabilidade de fazer o que Ele nos manda. Mesmo assim, Ele continua a apostar em nós.

Conhecemos bem a atitude derrotista que dita não valer a pena, que ninguém aparece, que não há gente, que desapareceu a juventude, aquela fora de nós, mas também a que nos feneceu na alma. Conhecemos bem a atitude temerosa de achar que tudo nos engole... as palavras. E Deus envia-nos, às vezes por caminhos enviesados. Quando menos pensamos, a profecia, ela própria, nos lavra a alma! Ela tomou conta de nós. E os milagres nascem à nossa frente.

Precisamos de ser sempre calibrados pela Verdade. E ver, para além da areia, as pegadas ainda quentes dos que procuram peixes... e pão. Deus envia-nos para dentro de bocas. Mas se formos íntegros não temeremos nenhum mal porque Deus está connosco (cf. Sl 23). A verdade está connosco, a verdade nos liberta (cf. Jo 8, 32).

 

Senhor Jesus, se quiseres, podes enviar-me!

Se quiseres, podes fazer-me passar pela rejeição e pelo medo, mas faz-me sentir a tua presença que me aconchega e protege;

Se quiseres podes privar-me de tantas seguranças que me parecem ser oxigénio para a minha sobrevivência, mas faz-me sentir permanentemente a água viva do teu Espírito que me irriga de amor;

Se quiseres podes fazer-me estagiar o silêncio, mas não afastes de mim o alimento da tua Palavra e o pão da Eucaristia, que me nutrem nas noites longas da alma;

Se quiseres podes fazer-me atravessar o deserto, a secura, a prova e a impotência, mas usa comigo da misericórdia da qual me queres fazer instrumento e sentinela.

Confirma em mim a tua obra de amor.

Amén.

 

Irmã Maria José Oliveira, sfrjs

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