O Anjo perfumista
Veio um Anjo com um turíbulo de ouro na mão e colocou-se junto do altar. Foram-lhe dadas muitas espécies de aromas, para que os oferecesse com as orações de todos os santos, sobre o altar de ouro que está diante do trono. E das mãos do Anjo subiu à presença de Deus o fumo dos aromas com as orações dos santos.
Ap 8, 3-4
Deus
tem sentidos apurados. Em várias passagens da Bíblia, Ele vê e escuta. Em Jesus
apreciamos o toque, mas talvez passemos muitas vezes inadvertidamente pelo
olfato. No entanto a bíblia é um harpejo de aromas, começando no jardim do
Éden. Os perfumes percorrem toda a bíblia, muito particularmente ligados à
oração e à adoração. O livro dos salmos sugere uma analogia entre a oração que
sobe e o fumo do incenso que honra a Deus: «Suba até Vós a minha oração como incenso»
(Salmo 140 [141],2). O Livro do Cântico dos Cânticos é um livro perfumadíssimo,
tal como o livro do Apocalipse.
Desde
a minha juventude, quando me iniciei na oração da Liturgia das Horas, levei
esta imagem de Santa Teresa do Menino Jesus: cada intervenção de um coro assemelhava-se-lhe
a um jato de flores lançado à majestade divina.
Nos
Evangelhos, são significativos dois episódios em que Jesus é honrado com
perfume, nos seus pés (Cf. Lc 7, 37-38 e Cf. Jo 12, 3), ficando em destaque a
sensibilidade feminina. E também aquele outro, em projeto, rumo ao sepulcro,
quando as mulheres levavam aromas para ungir o corpo morto de Jesus e o perfume
da Vida falou mais alto. Aliás a paixão, morte e ressurreição de Jesus desenvolve-se
em cinco jardins. A multidão constrói um jardim à entrada de Jerusalém, para
enfeitar a passagem d'Aquele que vem em nome do Senhor; Jesus passa pelo jardim
das oliveiras, regando-o com o seu suor e sangue e depois pelo jardim de
Pilatos onde os guardas vão buscar a coroa de espinhos. A cruz de Jesus flore
no monte Calvário, como um jardim que perfuma o mundo e finalmente o corpo de
Jesus semeia-se no jardim onde, do sepulcro de José de Arimateia, brotará o
perfume da Vida que não tem fim, o jardim onde são dispensados os aromas que as
mulheres trazem.
Na
liturgia da Igreja todos os sentidos são convocados para a manifestação da fé.
Também o olfato. O perfume que é derramado no óleo do crisma, o perfume das
flores que ornam os altares, e sobretudo o incenso com que são honrados os
lugares, os símbolos litúrgicos, os oficiantes e a própria assembleia. Gestos
que nos podem ajudar a entrar mais profundamente no mistério!
Santo
Agostinho ao referir-se à audição de Deus, fala numa perfeição que não deve
admitir desafinações. Assim deveria ser o perfume que oferecemos a Deus. Como quando
fazemos visitas de amizade ou cortesia, assim a nossa entrada no templo se deve
revestir de solenidade e arranjo. Não se trata de vaidade, mas a nossa boa
apresentação é uma honra para quem nos recebe. O próprio Jesus nos diz que quando
jejuamos devemos lavar o rosto e perfumar a cabeça (Cf. Mt 6, 17). Deus gosta
de nos ver limpos, ataviados, belos e perfumados!
A
oração é um jardim de delícias, um diálogo de amor. A esposa do Cântico dos
cânticos deixa a porta perfumada de aromas. “Levantei-me para abrir ao meu
amado; as minhas mãos gotejavam mirra, os meus dedos eram mirra escorrendo nos
trincos da fechadura” (Cant 5, 5). Há um cântico que proclama: "Fica
sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas." Mas aqui é
mais. São as próprias mãos a
desfazerem-se em perfume. Este perfume destranca portas, é chave na fechadura.
Desfazem-se as mãos, mas abrem-se as portas.
A
passagem que encabeça esta reflexão fala de um Anjo perfumista que recebe os
vários aromas e como que os escrutina, proporciona e harmoniza até os levar ao
trono de Deus. Que imagem tão bela para falar de oração! O Anjo procede à
distinção dos perfumes. As orações não são todas iguais, porque todos somos
diferentes. Mas cada um dos nossos matizes toca o olfato de Deus. Como
poderíamos, pois, enviar para Deus orações mal cheirosas? A autêntica oração é
um suave aroma em que o Rei eterno se deleita.
As
nossas capelas e igrejas, os santuários de onde o louvor se desprende, são jardins,
espaços onde aromas delicados se respiram. As flores engrandecem-nos, mas são sobretudo
as orações perfumadas, num louvor ungido de amor, que lhe criam a atmosfera mais
prazerosa.
Hoje
quero ser o Anjo perfumista e deixar emanar do meu coração um louvor que
exclama diante de Deus: “És fonte de jardim, nascente de água viva que jorra
desde o Líbano” (Cant 4, 15).
Santo,
Santo, Santo, Senhor Deus do Universo! A ti a glória, a honra e toda a bênção!
Ó
Deus de Quem recebo a vida, Tu és a glória de um coração que arde pelo amor. E da
combustão da minha alegria, da minha festa há de brotar o meu próprio odor para
te honrar. Em vez de pedir e até de agradecer, hoje quero simplesmente estar,
para saborear a tua presença e te entregar o palpitar do meu coração, que vive
por ti e para ti.
Seja
a minha oração um salmo perfumado; seja o meu silêncio apenas nuvem onde tu
possas falar, epifania da tua glória.
Trindade
Santíssima cobre-me com a tua sombra (Cfr. Lc 1, 35), que é o Espírito de Deus
consolador. O que fecunda e fortalece.
Tu
és o Rei de cujas vestes se desprendem as fragrâncias de mirra, aloés e Cássia!
(Cf. Sl 45, 8); quero contrair o teu perfume, ó Deus, desejo ser para todos “o
bom odor de Cristo” (2 Cor, 2, 15). Desejo ser espaço e tenda de reunião.



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