Jesus viu um cego

 

Jesus viu um homem cego de nascença. (Jo 9, 1)

 

Fico prostrada nesta palavra de encanto, porque Deus acolhe o ser na sua incapacidade, no seu “menos ser”. O cego não vê, mas Jesus vê-o. É como se, de novo, o tomasse nas mãos para nele completar a criação. O que Deus toma nas mãos?! Barro. Unge os olhos do cego usando a sua saliva amassada com terra. O Senhor cria o não criado, aquele que, por si próprio, não se poderia criar. Então há esperança!

Um outro cego, ao ser visto por Jesus, atira fora a capa. A capa é tudo quando tem para se abrigar... ou para se esconder. Esconder-se é uma forma de autonomia, é um ato de escolha para não aceitar o contacto, a interação, o diálogo. É uma forma de não aceitar ser visto. Se não vê, também não sabe como é visto. Mas o cego agora escolhe ser visto e retoma o caminho rumo ao diálogo: atira fora a sua cegueira, pois mesmo que não veja, aceita a visão do Outro. E isto é um ato forte de confiança. Já não se esconde. Para o cego agora interessa mais ser visto do que ver, ser conhecido do que conhecer. Não lhe interessa tanto a visão banal das coisas que passam à sua frente, mas interessa-lhe a visão cabal, o conhecimento integral. Interessa-lhe conhecer a partir de Quem o conhece.

O Senhor ama o não amante, o que nem de si próprio pode ter amor a não ser na liberdade que lhe é dada de amar. O Senhor busca e encontra aquele que se havia tresmalhado, que se havia escondido. E acolhe-o quando ele regressa ao caminho, ao diálogo, à visão.

 

Lembro-me das vezes em que me constrange o não atingir a compreensão dos acontecimentos e a incapacidade de “controlar” o devir, mas tal é resolvido com a fé e a confiança n'Aquele que tudo conhece e tudo vê. Confiar que Ele tem o conhecimento inteiro é a paz. É esta a atitude que vejo em Maria quando, não compreendendo, guarda todas as coisas, meditando-as no seu coração. É aqui que se situa a atitude do abandono filial, da confiança perante toda a desesperança, da humildade como estado de vida, da serenidade na impotência…

Se o Senhor vê o cego, este ficará em si próprio com a visão do Senhor. Ele é visto, por isso existe.  Já o salmista o afirmou: “Mas Tu vês a angústia e o pesar, observas tudo e tomas essa causa nas tuas mãos. A ti se abandona confiadamente o pobre.” (salmo 10, 7). Sim, cada um de nós pode dizer: sou visto, logo existo. Sou visto, sou conhecido, logo sou amado.

Acreditar na visão de Deus é a fé. Deus pede-me para crer na sua visão que me faz existir, mesmo que eu não veja, mesmo que eu não me sinta ser (frágil). A fé é uma lâmpada, pois “quem acredita vê” (Lumen Fidei, 1).

O nosso Deus é um Deus que vê. Não é como os ídolos dos gentios que "têm olhos e não veem" (Sls 115, 5 e 135, 16). Ele vê quando a sua criação sofre. Este ver não é um assistir passivo; não é também um policiamento controlador, mas cuidado e ternura. O ver de Deus traz a consequência da aproximação e do socorro. Ele próprio o afirma a Moisés desde a sarça ardente:  "observei-vos com atenção e vi o que vos tem sido feito no Egipto” (Ex 3,16).

No episódio da criação, Deus viu a sua obra depois de criada, “Deus viu que tudo era bom”. O ver de Deus traz a bondade. É contemplação pura. Deus compraz-se na sua obra, porque é obra do amor.

É tão belo quando ficamos diante de Jesus exposto na Santíssima Eucaristia e nos expomos à sua visão amorosa!

E rezo:

Jesus, eu creio que tu me contemplas na minha fragilidade e vulnerabilidade. É tão bom que, diante de ti, Jesus, eu não tenha necessidade de usar carapaças e maquilhagens, mas tenha o à vontade para te abrir o coração e me oferecer novamente à tua obra criadora. Não é que tu o precises para me ver, mas eu o preciso para melhor te acolher, para aprender a confiar, a esperar tudo de ti. Para deixar que me recries. Preciso de saber que só Tu me abrigas e embelezas; que só tu me amas num nível muito mais alto do que o que eu por vezes espero de uma criatura humana. Não quero iludir-me sobre o que as criaturas humanas me podem dar, mas quero abandonar-me à tua admirável providência, à tua insuperável bondade, ternura e misericórdia, mesmo se às vezes pelas criaturas humanas te manifestas. Pois as tuas "promessas, excedem todo o desejo." (Cf. Oração coleta XX Domingo do Tempo Comum).

 Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

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