Os Magos correm às Bodas

 


Os Magos, com presentes, correm às festas das núpcias reais; e os convivas alegram-se com a água transformada em vinho.

(Antífona do Cântico Evangélico de Laudes, Epifania do Senhor)

 

Ao ler esta Antífona, na Solenidade da Epifania do Senhor, de repente fico estarrecida com uma ideia perversa que me ocorre! Uma espécie de traição que se me afigura: eu a pensar, piedosamente, nos Magos em caminhada dura, ascética e os glutões ao que foram? À pandega, ao comes e bebes! Afinal o que motivou a viagem dos Magos foi a festa das núpcias reais. O motivo é tão forte que os faz correr. E descobrem um manancial inesgotável de vinho bom! Ai se todos soubessem!

Apercebo-me de que, se a caravana teve a capacidade de perturbar um rei como Herodes, é porque a sua apresentação foi aparatosa. E credível. Se os Magos lograram promover uma investigação é porque o desejo de chegar era grande! E as motivações para empreenderem uma deslocação desta envergadura teriam de ser muito fortes. Não apenas para vencer a fragilidade dos sinais, mas também para o reconhecimento do Rei que acabava de nascer.

Como foi suficiente o brilho de uma estrela?! Como distinguiram a meta numa cabana de animais e reconheceram os anfitriões neste pobre agregado familiar? Como foi possível numa criança, adorarem o Homem, o Rei e o Deus? Qual teria sido a surpresa do que encontraram, face às expectativas sobre o que vinham esperando? Será que não se arrependeram de ter trazido presentes tão sofisticados quando se aperceberam de que aquele casal, com o seu filhinho, o que precisaria com urgência era de pão, de um teto digno e de segurança?

O Evangelho não nos dá nota de qualquer deceção da parte deles, nem que se tivessem sentido defraudados depois de tão grandes esforços. Ajoelharam e ofereceram, com toda a naturalidade e verdade, os presentes trazidos.

A peregrinação dos Magos não foi uma viagem turística para um qualquer resort da Palestina; não fez parte do tipo de férias da atualidade que se consomem, cansam e deixam (em) ansiedade. A viagem dos Magos foi aquela folia, urgente e feliz, que só o Evangelho pode proporcionar. Não apenas a interior, principalmente a interior, mas também aquela que acolhe, em tudo o que rodeia, notas de requinte e glamour, onde nenhum detalhe é desprezado.

Que mais deleite podem ter os cofres de um rei, pejados de entulho metálico (mesmo que sejam diamantes ou ouro), do que um pão de cada dia, conscientemente recebido de Deus, comido na companhia dos que se amam, ao poente, sob uma estrela reveladora? A festa dos Magos certamente começou muito antes e não se esgotou no momento seguinte. Regressaram por outro caminho. O banquete foi encetado, consumido, deixou saciedade e beleza para o porvir.

Estes Magos, também denominados reis, mais os comparo às crianças de que Jesus fala, a quem Deus revelou os mistérios do Reino. Eles não são decerto uns reis com aquele poder que os mundanos prezam, mas reinam com o poder dos mais pequenos, o dos poetas que se deixam fascinar pelo brilho de uma estrela e nela encontram revelações inesperadas. Se o Mago é um sábio segundo Deus, é preciso ser Mago para almejar a meta maior!

“Sim, sou Rei!”(Cf. Jo 18, 37) diz Jesus naquele estado lastimoso no pretório de Pilatos. Será na cruz que o seu distintivo se coloca! É também aqui que se faz a festa das Bodas Reais e mana o vinho delicioso, inebriante e inesgotável. Dizei a todos este segredo. Que venham. Ensinemos que é no Presépio e no Calvário a festa das Bodas: Vinde, porque aqui há festa, há manjar, há folia, há a maior riqueza!

 

Senhor, eu te dou graças por estes mestres da peregrinação. Vou aproveitar a companhia da sua caravana para chegar a ti. Quero preparar os meus presentes com a maior sofisticação possível, apesar da fragilidade dos sinais, mas sobretudo por causa deles. À festa das tuas Bodas não é bom chegar com presentes medíocres ou miseráveis. Vou ter presente que a tua marca de estilo é a pequenez e a simplicidade. Percebo que a simplicidade é uma arte à qual não se chega automaticamente sem procura, como à porta estreita, a humildade de coração... Mas pensar na tua festa de núpcias faz-me correr!

 Peço ao Espírito Santo que me ajude a atinar com toda a logística de caminho: a meta nos olhos, carga leve, vestes práticas, provisões mínimas, observação apurada e assídua das estrelas, comunhão e confiança nos companheiros de caminho.

Talvez me seja útil responder a algumas perguntas: para onde?, como? com quem?

 

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

 

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