No princípio era o Verbo e o Verbo
estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, Ele estava com Deus. Tudo se
fez por meio d’Ele e sem Ele nada foi feito. N’Ele estava a vida e a vida era a
luz dos homens. (Jo 1, 1-4)
O Verbo é o princípio que nos franqueia o
espaço para nascer. Nascer carrega intensamente o dinamismo da vida,
pois aponta para uma rutura constante com a morte. Celebrar o Natal de Jesus é
um convite a nascer. É maravilhoso poder ainda hoje nascer, qualquer que seja a
nossa idade. Uns capítulos mais à frente, o Evangelista João conta-nos como
Nicodemos ficou abalado com esta revelação (cf. Jo 3, 9).
Jesus
liberta-nos do pacto com uma “vida” viciada, que adormece na rotina e na
insensibilidade, uma vida que se alimenta apenas na carne e no sangue... no
imediato, na caducidade. É também um convite a ver, porque o Verbo é a Luz.
Sendo Deus, e fazendo-Se nosso irmão, Ele escreve nos nossos olhos o
reconfortante rosto de Deus que é Pai. Ele ilumina a penumbra dos nossos critérios
e revela-nos a consumação da nossa humanidade peregrina: Ele mesmo, que é a
plenitude.
A luz brilha nas trevas, mas as
trevas não a receberam. (Jo 1, 5)
Este é o contundente
drama da nossa humanidade! A habituação às sombras da arbitrariedade, torna-nos insensíveis ao
esplendor da Verdade. O discípulo amado explica-nos que a Palavra Criadora
entra nas entranhas da sua própria criação. É um movimento de humildade o deste Deus que desce... até
nós, a ponto de assumir a nossa carne, como um inefável dom e, incrivelmente, é obsequiado com a
rejeição.
Como é possível que seja encarado como um estranho Aquele que conhece a
composição orgânica das nossas células e o arcano dos nossos pensamentos? Como
é possível que o contraste da Luz não intimide as trevas?
É só possível porque em cada um de nós existe essa cega obstinação que nos
encerra num nocturno eu, que tende a defender-se da denúncia da Luz, da
Verdade.
Porém,
Deus não usa os nossos métodos drásticos, antes detém-se junto do nosso ser,
com a paciência e a perseverança de um apaixonado.
Celebrar
o Natal de Jesus é escutar de novo, desde os antros da noite, uma
serenata amorosa por parte deste Deus pedinte que pede licença para entrar no
que é seu, que suplica o que lhe pertence. Este delicado Deus que não conquista
pela força mas investe em nos ganhar através do poder do amor.
E o Verbo fez-se carne e habitou
entre nós! (Jo 1, 14)
Habitou. Mas ainda habita. A Palavra
Criadora pode ser exalada na nossa própria carne quando deixamos que Ele a
assuma, que Ele encarne de novo no âmago da nossa vida. Desde o alfabeto das
nossas possibilidades, na ortografia dos nossos gestos, nos fonemas das nossas
obras, pode Deus manifestar a eloquência da salvação. Todo o meu ser pode falar
(de) Deus; Ele tem, em mim, uma mensagem a proclamar!
Celebrar o Natal de Jesus é deixar que a
nossa carne se torne numa manifestação do Verbo, é possibilitar que Jesus
anuncie, hoje na minha vida, o vigor e a beleza do seu Evangelho!
Irmã Maria José Oliveira,
sfrjs
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