Dá-o aos pobres
Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me.» (Mt 20, 21)
Muitas
vezes tomo estas palavras como dirigidas a um hipotético "jovem rico"
que não tem coragem de arrancar para o seguimento de Jesus e depois se
entristece, irremediavelmente; tomo-as para aqueles que devem dar provas de
despojamento, antes de avançarem para uma vocação de especial consagração, ou
aceitarem uma missão difícil. Talvez pense que estas palavras provavelmente não
são para mim, que fiz um voto de pobreza, que estou a dar duro na austeridade
da vida consagrada, que faço sacrifícios e renúncias todos os dias...
Em
todas as quaresmas tenho como certo o propósito de me despojar do supérfluo e talvez
até me alivie o pretexto que me liberte de vestes e “tarecos” que já estorvam
no armário, quinquilharias que me infestam os espaços, ou guloseimas que são a
desgraça da balança e do colesterol.
Mas
eis que dou comigo a comprazer-me em certos outros "bens", a
regozijar-me pelo facto de os possuir, tal qual um fariseu no templo, a ufanar-se
por tantas obras de piedade que o publicano não pode ostentar ante um
senhor. A comparação: o terrível demónio da comparação, que sempre divide
e confunde! Sim, mesmo as coisas "santas" podem ser constituídas como
propriedades privadas que recolho e uso para proveito próprio. Quantas vezes delas
tento fazer feira! Nem que só seja uma cumplicidade que exclui, uma atenção que
ufana, um desabafo que obriga, um prestar qualquer apoio que onera…
Penso
em certos dons que Deus me deu e dos quais me aproprio. Posso tomar dois
caminhos:
1. guardo-os
no meu pecúlio e com eles angario fama e amigos… e até os posso ostentar com
desdém, ou usá-los como “arma de arremesso”;
Com
os meus “bens” é fácil cair no perigo de colecionar fãs em vez de fomentar ouvintes
do Evangelho; obter partidários em vez de inspirar pensantes sinodais;
distribuir lembranças minhas em vez de estender caminhos para que o Evangelho
chegue mais longe.
Com
os meus “bens” posso inchar de tal forma o espaço que ocupo acabando por estorvar
os outros de existir. E nisto é bom receber, de vez em quando, uma (mesmo pequenina)
"alfinetada" que me faça reduzir e chegar ao tamanho normal de ser,
aquele tamanho que precisa do sopro do Divino Espírito Santo para obter o
volume adequado a um filho de Deus.
2.
posso humildemente colocá-los ao
serviço dos outros, com a descrição de quem sabe que tudo recebe de Deus, pois
“tudo é nosso, mas nós somos de Cristo e Cristo é de Deus (cf. 1Cor 3,22-23).
Escuto a bem aventurança do monte, que soa de
uma elevação para fazer-se ouvir, mas que nunca vem de cima; vem do Homem que
desce da sua condição divina para me fixar os pés nos caminhos e elevar-me os olhos
para o céu; vem do Deus imenso e imutável que se faz pão, que se faz coisa
para me alimentar e se incrustar na organicidade do meu corpo, e me
segredar por dentro que só vivo quando Ele vive em mim.
Dá-o
aos pobres! Dá-te ao Pobre. Dá-te aos que vivem ao teu lado, aos teus pares,
aos que caminham contigo. Dá-te a ti própria, o teu tempo, as tuas energias, a
tua vida à maneira de Jesus. Dá o tesouro maior que tens que é o próprio Jesus.
É
preciso saber quem são os pobres para perceber o que se deve dar. É graça o
saber empobrecer para aprender a enriquecer com a pobreza de Cristo.
O
voto de pobreza pode ser sempre muito bem justificado. Tenho “coisas” por causa
das minhas necessidades, por causa do meu serviço, por causa de tornar mais
eficaz a evangelização... A pobreza não é uma questão de uso, mas de liberdade.
É uma candidatura à liberdade. É uma caminhada da vida inteira.
Assim
percebo que um candidato à vida eterna é um candidato a pobre. Aquele que
mendiga ao Pobre que o enriqueça com a Sua pobreza. O discípulo de Cristo é um
jardim que, tendo legitimidade para se guardar de ser espezinhado, franqueia generosamente
as portas para partilhar a beleza e o odor que não podem gradear-se. O coração
do discípulo de Cristo procura tornar-se magnânimo e bom, generoso e doce,
arejado e humilde.
No
recolhimento do meu exame de consciência, e confiante na misericórdia do Pobre,
rezo:
Meu Jesus, não consintas
que eu te peça uma saciedade mesquinha e comodista como “uma água” que me
apague a sede de ti e dos irmãos e me isente de esforços futuros (cf. Jo 4, 15).
Bem sei que, como os mundanos, gosto de acumular, temo ver-me “em falta”,
horroriza-me ter de “pedir” e comprazo-me em “(de)monstrar” o que tenho. Que eu
te peça sempre uma esmola peregrina, para cada dia, um pão que não pode ser
acumulado, ou corre o risco de (se) estragar.
Não deixes que eu te
solicite uma sabedoria para superar os outros, mas a luz da fé que me vá
guiando de encontro aos teus desígnios. Não permitas que te suplique mesmo uma
santidade do tipo “progressão na carreira” que considera os outros como piores,
mas uma perseverança fiel na minha fraqueza. Não consintas que jamais me
refugie numa piedade sectária de “eleitos” que se arroga em propaganda pessoal,
que toca trombetas e se arvora em fiscal, em juiz e até em carcereiro, mas concede-me
a capacidade de caminhar com todos, sustentando as diferenças e sobretudo
confiando na tua misericórdia que não se cansa de me perdoar.
Recordo que o Papa
Francisco uma vez, citando Santo Inácio de Loyola, disse que “a pobreza é a
mãe, o muro de contenção da vida consagrada”. Sim, a pobreza é um luzeiro, um
sinal, a profecia de um mundo preparado para receber o seu Deus.
Dá-me, Senhor “a humilde
profecia da pequenez habitada por Deus!" (Irmã S. Brambilla)
Ir. Maria José Diegues de
Oliveira, sfrjs



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