Um cardo na estepe
Assemelha-se ao cardo do deserto; mesmo que lhe venha algum bem, não o sente, pois habita na secura do deserto, numa terra salobra, onde ninguém mora.
Jeremias 17:6
Olhemos o cardo,
na estepe! Uma imagem da secura. Está só, na amplidão do espaço, tem de dar
duro para garantir a sobrevivência. O local onde vive é inóspito, chove
raramente e tem de defender a água que vai acumulando. Quando chove, engorda.
Tem um celeiro íntimo. E, quando vêm os dias de estiagem, vai bebendo intimamente
da água que conserva dentro dele, farpada pelos acúleos ameaçadores. Reparemos
atentamente naquela imagem que desencoraja uma aproximação. O cardo mete medo!
Até poderíamos
entender a sua luta pela sobrevivência. Todas os seres vivos o fazem. Mas aqui é
mais do que isso. A maior desgraça deste cardo é não perceber quando lhe chega
a felicidade! Trata-se mesmo de infortúnio a insensibilidade que não o deixa
distinguir o bem do mal, que não lhe permite distinguir a alegria da tristeza.
A sua vida é pura monotonia, coloração opaca, onde todas as realidades morrem
na mesma gradação de cor. A tibieza, a temperatura morna, intemperada não o
deixam reagir à formulação da verdade. O seu padrão de comportamento é a
desconfiança. Tudo o que apareça junto dele é percebido como ameaça. Por isso
vive em estado de beligerância crónico. Este cardo não tem mesa, come no
próprio quarto onde dorme. Nada partilha, nada concede. Será que vê?! Será que
ouve? É porventura como os ídolos dos gentios! (Cf. Sl 115, 5-7)
Foi esta
planta intratável, calculista, avara e egoísta que o salmista escolheu para nos
dar a imagem do homem que não teme o Senhor, que apenas confia nas suas
seguranças.
O ser
humano cardo é a pessoa enrijecida pelas tribulações, que fica cristalizada na
sua solidão. A sua solidão não é senão um estado de incapacidade para receber o
outro dentro da vida e de interagir com ele. E este interagir não se refere apenas
a celebrar contratos, a obter contrapartidas. É a deixar a vida dele viver
na sua, é um estado de interdependência mútua; é a forma que se encontra
para dizer: "entra!"
O facto
de viver envolvido por todas as ferramentas da beleza e da bondade, e não ter a
capacidade de os transformar em felicidade, o facto de não se dispor a elevar
os padrões da alma até à verdade e à justiça, até à alegria e o bem… é
verdadeira desgraça para o ser humano! Quando nada o satisfaz, quando tudo
o angustia, quando tudo lhe causa náuseas, quando tudo o lança em
depressão. Que estado doentio da alma!
Ai, Senhor Jesus, livra-me de assim me
calcificar!
Da avareza íntima, livra-me, Senhor!
Da desconfiança crónica, defende-me, Senhor!
Do olhar enclausurado, liberta-me, Senhor!
Da cegueira obstinada, cura-me, Senhor!
Da rivalidade que guerreia, recupera-me,
Senhor!
Da insensibilidade que ignora, converte-me,
Senhor!
A ter uma alma magnânima, ensina-me, Senhor!
Numa humildade que em ti confia, guia-me,
Senhor!
A um olhar maravilhado, abre-me, Senhor!
Para conservar em mim a alegria, seduz-me,
Senhor!
A uma atitude sinodal, recupera-me, Senhor!
A uma disponibilidade generosa e livre, conduz-me,
Senhor!
Ir. Maria José Oliveira, sfrjs



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