A VESTE

 

10Os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos aqueles que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados. 11Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não trazia o traje nupcial. 12E disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele emudeceu. 13O rei disse, então, aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’ 14Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.»

(Mateus 22, 10-14)

 As vestes eram um bem pouco abundante no tempo de Jesus. Atendendo ao facto de que o recrutamento dos convidados obedeceu a uma espécie de imposição, como é possível que o Senhor do banquete não tivesse condescendência para com a negligência do indivíduo que assim foi vistoriado? Os comensais foram convocados à pressa para um banquete rejeitado pelos que primeiro tinham sido escolhidos e o castigo, para tão “leve” falta, parece-nos desproporcionado! Porque não lhe permitiu uma rápida saída, ao “pronto a vestir” mais próximo para se ressarcir da veste adequada? Ou talvez deixá-lo correr até uma mãe capaz de lhe urdir uma túnica, enquanto o banquete ainda entretinha com as “entradas”? Mas vamos que o hóspede fosse indigente: a prodigalidade do Senhor, além do repasto, não poderia financiar também a sua toilet? Havia ainda o recurso de rapidamente coser a veste de um qualquer dignitário, rasgada num momento de aborrecimento, ou alugar a de um fantoche que acabasse de assombrar um evento…

Uma veste, naquele tempo, era algo de muito sério. Vejamos a voracidade dos soldados a “repartir entre si” as vestes de Jesus e a lançar sortes sobre a sua túnica (Cf. Salmo 22,18; Mt 27, 35; Mc 15, 24; Lc 23, 34; Jo 19, 24)! Parece que a túnica de Jesus era rara e, por isso, tão apetecível. E aqui detenho-me sobre as mãos que a teceram e que urdiram tal preciosidade. Naquele tempo, a comparação “mudar de ideias como quem muda de camisa”, decerto só poderia ser usada para o sentido contrário ao que hoje lhe damos, porque uma veste era uma vida!  

Creio que muito teria sido censurado o profeta Eliseu ao desdenhar das dez mudas de roupa que o Sírio Naaman lhe queria oferecer (Cf. 2Rs 5, 5). Se equipararmos o seu valor ao de uma cura… não há preço!

Não é só porque a veste cobre a nudez, agasalha do frio e protege do calor – socorrer esta necessidade é uma das obras de misericórdia corporais – mas porque a nossa veste é a morada mais imediata. A veste é a pele que nos guarda a intimidade, a primeira linguagem que nos apresenta aos estranhos. A veste é quase como um nome.

Podemos envergar roupagens para impressionar ou para nos disfarçar. Iludidos, enganadores, bajuladores? Ou apenas entertainers. Por isso tanta importância a de escolher uma veste. Ela é também uma forma de honrar um anfitrião, de demarcar um momento.

S. Francisco de Assis despojou-se de todas as vestes angariadas no lar paterno para significar um absoluto despojamento de toda a sua identidade passada e auferir uma nova veste: a do olhar de Deus. Despojou-se para se abrigar em Deus, sabendo que só Deus cobre o ser humano. 

“Amigo como chegaste aqui com essa veste andrajosa?” Não é de bom tom entrar numa festa com o traje de trabalho, com a veste imunda. Estraga o ambiente. Ainda que saibamos que “a nódoa cai no melhor pano” devemos proteger-nos delas. A festa das núpcias do Filho Amado exige aquele charme festivo que demonstra amor, alegria, galhardia, felicidade.

Perante o Deus que me conhece muito para além da roupa, por dentro de tudo o que posso escolher para parecer ou para me esconder, quão necessário é preparar-me até à raiz! Para me ataviar bem, há que fazer um despojamento prévio: ir tirando amuos, mágoas, traumas, preconceitos, suspeições e maldades… e a seguir tomar um banho de regeneração no sacramento da Reconciliação. Como é preciosa a assiduidade a esta higiene! E depois a veste! E que veste?! Só Ele ma pode dar, uma veste branqueada no seu Sangue divino. Não penso apenas no meu hábito de esposa, mas em tudo aquilo que O anuncie e me denuncie como d’Ele. A minha face jubilosa, o brilho no olhar, as obras dignas, a postura de quem vive da sua Vida. São Paulo na carta aos Colossenses 3, 10-14 dá-nos dicas preciosas para equipar o guarda-roupa daquele que é de Cristo. “Revesti-vos do Homem Novo” é um desafio a rever as nossas vestimentas diárias, não apenas para não ter de ser expulsos da sala das núpcias, mas sobretudo para ser presença agradável, motivo de felicidade para os demais.

Sempre me interroguei como é que Jesus se “vestiu” quando saiu ressuscitado do sepulcro. As suas vestes terrenas foram distribuídas pelos soldados, as ligaduras e tecidos funerários ficaram no sepulcro… Mas o Pai vestiu-O! Também nos vestirá a nós, quando perante Ele nos apresentarmos despidos de “seguranças” e entregues ao seu desígnio. Esta é a confiança!

 Senhor, eis-me aqui com tudo o que tenho e sou. Perante ti sou criatura que se reconhece e se submete ao teu poder e à tua misericórdia. À tua providência amorosa. Quero participar no teu banquete, quero pertencer-te e anunciar-me como tua propriedade. Veste-me de ti, Senhor!

 

Maria José Oliveira, sfrjs

Comentários

Postagens mais visitadas