A minha fé na fé da Igreja

   


 Certamente já ouvimos a expressão típica daqueles que justificam «Eu cá tenho a minha fé»! Podemos argumentar que a fé é um compromisso pessoal entre mim e Deus, que toca apenas a minha liberdade íntima e a minha responsabilidade individual. Podemos até entender a fé como uma construção da nossa mente, como uma força do nosso raciocínio que pode conter instintos, desejos desordenados, uma fé que pode escolher o que me agrada e deixar de lado o que me incomoda... Mas não é certamente a Fé que se refere Jesus quando diz «Se tivésseis fé...». Não foi neste tipo de fé que fomos batizados! No final da Profissão de Fé que antecede o Batismo, o Celebrante declara: «Esta é a nossa Fé! Esta é a Fé da Igreja!». Isto significa que a nossa fé é vivida em Igreja e esta vivência traz consequências muito concretas. É a nossa Fé na Fé da Igreja que todos os dias somos convidados a viver e a aprofundar. Na Carta Apostólica Porta Fidei, Bento XVI refere que «O cristão não pode jamais pensar que o crer seja um facto privado.(...) A própria profissão da fé é um ato simultaneamente pessoal e comunitário. De facto, o primeiro sujeito da fé é a Igreja. É na fé da comunidade cristã que cada um recebe o Batismo, sinal eficaz da entrada no povo dos crentes para obter a salvação». (PF, 10)

A autêntica vivência da fé supõe a comunidade. Já no Antigo Testamento Deus se revelou a pessoas concretas, mas dentro de um contexto de povo.

Deus é família, é Trindade e chama-nos a viver a Fé num contexto de família. Também Jesus se rodeou de discípulos. O seu anúncio foi dirigido a todos aqueles que se dispuseram a acolhê-l’O e o seu mandato foi de ir «a todo o mundo».

Num tempo em que se exalta o ser individual, vai-se afirmando uma mentalidade individualista e egoísta que passa também ao nível da fé. As pessoas têm sede da vida espiritual, mas vivida a seu gosto, sem regras, sem que venham de fora... Tal mentalidade põe em causa a família, os deveres de solidariedade, de justiça e de pertença: «Ninguém é de ninguém». S. Paulo usa a imagem do corpo e dos membros para se referir a Jesus e à sua Igreja. A Fé, assim percebida, faz-nos participantes de uma realidade maior que nós.

Nas primeiras palavras do Papa Leão XIV quando assomou à varanda da praça de S. Pedro refulge um apelo veemente à comunhão: «Deus ama-nos, Deus ama-vos a todos, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Por isso, sem medo, unidos de mãos dadas unidos de mãos dadas com Deus e uns com os outros, vamos em frente.»

Deus envolve-nos num ambiente onde nos cuida, nos alimenta, nos educa e nos pede uma participação empenhada. É na Igreja que percebemos o imenso amor de Deus, que nos nutrimos da Eucaristia e da Palavra de Deus, nos sentimos estimulados na fé, e desafiados ao testemunho. Ser Igreja é sentir esta seiva que trespassa tempo e espaço e que vem daquele Coração aberto na Cruz.

Perguntemo-nos: em que Deus acredito? No meu deus ou no Deus de Jesus Cristo?

 

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

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