A noite de Caifás
O abuso de poder por parte dos poderosos sempre constituiu uma fonte de tristeza para mim. Caifás pode ser o sumo sacerdote vigente num ano em que o mais justo dos homens foi apresentado num tribunal humano, mas a noite em que ele operou é uma réplica e um molde das noites visitadas pelo despotismo humano. Na noite em que ele operou, opera esta multidão – estes seres individuais – que continua a arrogar-se, num pódio de domínio, a condenar o seu semelhante.
A
noite de Caifás é a hora das nossas trevas, que escurece a nossa possibilidade
de misericórdia e de compaixão; em que a inveja e o ciúme se nos soltam como
cães raivosos; em que reina uma maldade que estava dissimulada nos nossos
arcanos, que nem conhecíamos formalmente, e que, sob o camuflado da noite,
exalamos!
Na
verdade, nós nunca toleramos considerar-nos maus… ou sem razão! Ainda que
consintamos na afirmação teórica de que todo o ser humano falha, ainda que o
declaremos numa frase feita e rotineira, é tão difícil que a nossa consciência
consinta no açoite da culpa! Espargimos a culpa em todas as direções, tentando
por tudo, evitar que ela se cole ao prestígio do nosso nome. Ao avaliar aquilo
que vai acontecendo de mal achamos que tudo é obra da maldade que existe à
nossa volta: e encerramos com esta conclusão o artificioso monumento de
justificações que, aplicadamente, construímos! Caifás fica ali encerrado,
incólume, preservado, cristalizado nesse monumento onde nunca pode entrar a
seta purificadora da denúncia, nem a água fecundante da humildade. Ali não há
rega. Não há conversão. Esta fortaleza é impermeável aos rios da redenção… Ali
morre a capacidade da regeneração, ali apodrece o sonho de superação. Ali não
há janelas que espraiem o olhar pelos horizontes infindos da perfeição, e pelos
caminhos que para lá pudessem conduzir. Deixamos apenas quadros. Quadros
pintados com paisagens do perfeito que presumimos ter… ou ser. Temos o perfeito
dentro de nós – achamos! E não se nos torna necessário peregrinar…
(…) Jesus
acabou de sair da sala, manietado por essa corja de marionetas, repleto de
acusações e de escarros. Os olhos de Caifás estão ainda direcionados para o
local onde esteve o mais justo dos homens, mas o seu olhar esvai-se no vazio.
Coloco-me onde tinha estado Jesus e enfrento-lhe o olhar, vasculhando razões
naquele brilho vítreo, material.
– Tu
bem sabes que este homem é justo. Porque o condenaste assim?
A
face de Caifás acende-se num brilho sinistro. E principia a construção do
monumento que eu me proponho desmontar!
– Eu…
– gagueja – Não era propriamente matá-lo o que eu queria. Foi ele que provocou
isto… Eu não sou nenhum assassino, que fique bem claro. Foi a inevitabilidade,
o precipitar dos acontecimentos que assim ditou. Ele devia ter sabido que eu é
que sou o Sumo Sacerdote. Porque se apossou ele daquela autoridade? Porque não
veio conversar primeiro comigo, pedir-me um parecer, uma autorização, o meu
imprescindível aval para iniciar a sua pregação? De onde lhe vinha a
legitimidade para a segurança do que dizia… e fazia? Ele foi um rebelde.
Saio
do meu silêncio e atalho, na determinação de abalar o monumento de Caifás:
–
Sim, mas esta rebeldia não foi, de forma nenhuma, uma afronta à legítima
autoridade. Jesus não veio em nome individual. Porque não viste isto, Caifás,
porque não percebeste que a sua rebeldia tinha esta marca distintiva de
reportar unicamente para Deus? Ele foi enviado por Deus a amar. E o poder do
amor deu-lhe toda a legitimidade para dizer tudo o que disse e fazer tudo o que
fez!
– Que
é isso de amar? – Devolve Caifás, num tom abrupto. – E eu não reporto
unicamente para Deus? Eu represento a lei de Deus que este intruso vem reclamar
e diz vir completar. Que vem ele completar? Eu
tenho tudo na minha mão. Eu sento-me na cadeira de Moisés!
–
Não! Não tens tudo. Tu tens os códigos; Ele tem a vida. Tu visitas o parcial,
tu selecionas, hierarquizas, deixas que o egoísmo faça a sua escolha. É Ele que
completa o todo!
Caifás
exalta-se mais e desfere.
– O
todo? Por acaso não tenho eu a lei toda? É a lei que venero, com os vocábulos
que repito e memorizo, que até masco,
que guardo no coração…
– Em
que coração, Caifás? Num coração hipotético que não sabes onde existe, que nem
sabes bem se existe, que materializas em um qualquer batimento que faça frente
ao silêncio. Mascas a Lei, sim, mas com um asco seco, como quem toma um remédio
amargo, como um peso… Ainda que digas que tens a Lei toda, falta a seiva que
lhe dá vida. Falta-lhe a alma… e sem alma a Lei não pode viver. É letra morta.
É o amor essa seiva.
E há
um silêncio cáustico que se incorpora entre mim e Caifás. Ele considera, amaina
o semblante, olha-me com a sua intensidade fria e fala, demarcando as palavras.
–
Falar de amor, neste caso, é um falar vazio… falar de uma vaporosa fantasia. Eu
fui nomeado para ser árbitro e defensor da lei. Eu não forjei o meu estatuto.
Ele foi-me concedido do Alto: eis a minha legitimidade. O povo sabe-o, o mundo
conhece-o. Deus colocou-me nas mãos o tesouro da lei, para que eu vele por ele…
A lei sou eu!!! – E aqui Caifás
grita, salpicando de saliva o ar circundante.
– Ah,
Caifás, que presunção! Seria bom que todos deixássemos que fosse Deus a traçar
a estrada que só Ele sabe traçar; que nos deixássemos mover pelo seu movimento
que sabe onde vai. Mas… quantos interesses virados do avesso, quantos tráficos
de influências… Quantas vezes as “decisões” do Alto são decididas nos arcanos
secretos, e às vezes inconscientes, insuspeitados da nossa mesquinhez, da nossa
presunção, da nossa habilidade. E agarramo-nos a elas, brandindo ao ar que nos
foram dadas por Deus... (…) Ladrões do mundo, ladrões da providência de Deus os
administradores que se substituem a Deus! Tu não és dono da Lei, dessa Lei que
te dizes administrador. A Lei de Deus foi insuflada no sopro criador. Ela é uma
carta de amor de Deus… escrita na essência das suas criaturas! É pena que não
entendas que Deus é o próprio amor. Dizes que o amor é vazio: manifestas, pois,
o conceito que tens de Deus. Ele é para ti uma ideia apenas, por isso é que
manipulas a Lei como se tu próprio pudesses dispor dela…
– Mas
é claro que eu posso dispor dela! Que razão de ser teria o meu cargo se eu não
pudesse, com ela, aferir os comportamentos dos outros?
– Os
dos outros! Os teus não…
–
Basta! – Desfere Caifás, com uma violência que arrancou do fundo de si. – Não
foi precisamente isso que fez esse Jesus a angariar atenções e estima, a
esbanjar utopias? Que fez ele de útil pelo povo?
–
Jesus passou fazendo o bem a todos, também passou à tua porta porque te ama, a
ti que tentas destruí-lo. Mas tu não deste conta da oportunidade que te
visitava, porque estás encerrado numa torre fechada…
– E
como é que eu sei que ele ama? Como é que sei que este dar-se todo a todos não
é um puro ato de egoísmo, um ato de espetáculo e de angariação de fama?
– Que
olhos são os teus que não descortinaram o sentido do agir de Jesus? Jesus veio
anunciar uma salvação, uma libertação que começa no coração de cada ser humano
e de que os milagres exteriores são apenas uma amostra e um prenúncio…
– Que
se saiba: propriamente eu não tenho nada contra os milagres que ele pode fazer…
Mas tem necessidade de os fazer ao Sábado quando tem os seis dias restantes
disponíveis? Não é um sinal de que não pode ser de Deus que lhe vem este poder,
senão como ousaria transgredir uma lei que foi dada pelo mesmo Deus?
–
Essa conclusão é mesmo um sinal de má fé e de obstinação em não aceitar Jesus. O
sábado não é um capricho de Deus, mas um estender ao ser humano o gozo de
participar no deslumbre das suas obras.
A
sala, que antes parecera uma masmorra escura e fria, parece que está mais
clara, mais quente e acaricia o ar um leve toque de brisa. O rosto de Caifás é
uma nódoa na claridade e o seu olhar, que escorre desprezo, um resíduo espúrio…
– Mas
tu, Caifás, realmente o que querias não era a verdade, era mesmo uma condenação
gratuita. Andaste afanado havia tempos para o “apanhar”, mandaste aquelas
expedições anedóticas, com armadilhas grosseiras e infrutíferas... Não
conseguiste surpreender Jesus numa milimétrica contradição que fosse e,
finalmente, para perseguir o teu fim, tiveste que enveredar pela trapaça e pela
calúnia. Isso não é um critério suficiente para te demonstrar a monstruosidade
do teu crime? Tudo o que se alicerça na mentira é perverso. E porquê? Continuo
a perguntar…
– Eu
sabia que o povo estava demasiado confuso. E eu sou ciente das minhas
responsabilidades. O povo não se sabe governar sozinho, tenho que agir.
– O
que mais diretamente esteve por detrás da decisão de O condenares foi um
mórbido ciúme e inveja, admite, Caifás! Porque tiveste inveja dele? Porque é
que aquela majestade de doçura, aquele encanto de ternura não te tocou o
coração?
– Eu
não lhe chamo inveja. Chamo-lhe perspicácia. Apercebi-me do perigo da sua
capacidade de sedução… Um perigo para os ingénuos, para os crédulos, para os
que não têm opinião. O povo precisa de alguém que o advirta, que o conduza… Tudo
o que se desenrolou foi um processo em que busquei respostas certas.
– Tu
buscaste não respostas certas, mas as respostas que querias. Compuseste o
valado, de forma a conduzir o fluxo dos acontecimentos até ao teu objetivo
primordial: anular o outro e colocar-te como medida última da perfeição. Quando
é isso que queres, todos os teus métodos se encaminham para processar o que vem
de fora, de modo a só confirmarem a tua razão, a tua santidade, a tua verdade.
– Quem
provocou esta guerra foi o próprio Jesus: foi Ele que quis fazer-se Deus!
– Ele
é Deus! E a prova, clara e inequívoca, é que Ele elegeu o amor para resolver a
guerra. Vê como a guerra desabou sobre Ele e Ele a sustém com a sua mansidão.
Ele não a aumentou, não a refletiu exponencialmente, não a multiplicou, mas o
seu amor tão fundo absorveu-a e há de convertê-la numa fecunda primavera.
Quanto a ti, fizeste um aproveitamento perverso de pequenos detalhes. Até
frases tiradas do contexto e forçadas.
Os
olhos rasam-se-me de lágrimas, porque ouço lá fora o estalejar de mãos ímpias a
esbofetearem o autor da verdade, e as vozes, molhadas de ironia, de desprezo e
de rispidez, a lançarem lodo sobre o Verbo de Deus. (…)
Olho
à minha volta, mas não vejo ninguém. Nem Caifás, nem alguém que o acuse, que o
chame à razão, que dê provas do seu monstruoso crime. Não há mais ninguém.
Apenas eu e o silêncio… será a voz de Deus? Lá fora vozearia cruel, estampidos
de bofetadas, silvar de chicotes, gemidos breves, cantar de galos e sibilar da
noite. O trono de Caifás vazio e a porta aberta. É a hora da escolha. Subirei
os degraus do trono e ficarei ali a saborear uma autoridade cristalizada que
também exibirei de alto no pretório de Pilatos a instigar a morte de um
inocente, escolherei Barrabás e voltarei a encerrar-me na torre forte das
minhas justificações? Ou seguirei atrás de Jesus, para…
O que
mais me tolhe esta decisão óbvia é o pensar ilógico da lógica do amor. Se for
com Jesus, Caifás mata-me e eu morro e darei a minha vida por Caifás. Não se
trata apenas de ficar satisfeito por que fez a sua vontade, mas de receber dos
frutos preciosos da minha entrega. E para mim agora, que sentido tem que ele
receba o prémio da minha vida tão esforçadamente dada?! Ainda se Deus seguisse
a lógica reflexa do Antigo Testamento: fazes o mal, recebes castigo… Mas, na
sua loucura de amor, Deus esbanja a sua vida e oferece-a como presente de amor,
ao seu algoz. E não o faz contrariado, nem o faz porque pense num prémio… Deus
desperdiça-se voluntariamente… gozosamente!
Estarei
disponível para este desperdício de mim? Poderei amar assim? Estarei disponível
para o amor? Talvez não, mas poderei também amar se este Amor alimentar o meu
incipiente amor… Sim quero sair, antes, pela porta por onde vi sair Jesus,
vestirei o silêncio, carregarei a cruz e, com Aquele que mais ama, subirei o monte
para ver, do alto do miradouro da morte, como é belo o mundo! Sim, é tão belo o
mundo, embelezado pelo amor. Há esperança!
Ir. Maria José Oliveira, sfrjs
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