Francisco e o Jovem rico: um diálogo impossível!

     

    Tinha acabado de sair do Palácio do Bispo e, numa melodia irreprimível cantava, a imitar os trinados das aves e elas parece que o acompanhavam no canto e nos voos festivos que coreografavam de alegria à roda da sua cabeça, como se lhe dessem as boas vindas a um mundo feliz.

Saltava, saltava, numa alegria impossível de conter. E o seu corpo, revestido de um tecido grosseiro, deslizava pelos caminhos como se todos conduzissem ao banquete da filiação.

Esbarrou com um moço de trajes muito finos, sentado numa pedra do caminho, cabisbaixo e triste, que segurava a cabeça à maneira daqueles pensadores quando o cérebro, cheio de reflexões complexas, muito lhes pesa.

Francisco, naquela hora embebido nas delícias do Pai Celeste, sangrando um “Pai Nosso que estais no céu”, com melodias improvisadas e muito melismáticas, nos seus arroubos líricos, olhou aquele jovem subjugado pelo destino e perguntou-lhe:

– O que te pesa nesse cérebro metalizado?

– Os pensamentos do meu destino sem sentido. E a ti o que te alivia essa voz que se te escapa sem esforço? Porque cantas com esse ímpeto que até parece estúpido?

– Canto porque encontrei o meu Pai.

O rico leu-lhe na face o acontecimento recente e disse:

– Saíste de junto de um homem rico que se dizia o teu pai e agora, que te desnudaste das suas benesses e sais desamparado de todo o abrigo, cantas a um Pai invisível! Tu és louco?

– Talvez. Aos olhos de muitos o sou. Talvez aos teus próprios olhos, que acham que só o material agasalha, que só o material alimenta e faz caminhar, que só o material anima os olhos e lhes dá valor.

– E a propósito, o que, de imaterial, poderá alimentar e agasalhar essa nudez que te deve atormentar?

– Tu, vê como tudo o que me rodeia me veste o corpo, este ar gelado como carícia, estes sons que cantam uma sinfonia para me acompanhar a voz, este mundo belo que se atavia só para alegrar os meus olhos!

– O mundo é assim… porque te convences que todo este aparato se dirige justamente para ti?

– Porque assim o acolho e tu não. Não sentes no ambiente um olhar que te abriga e te defende, um propósito que acarinha? Justamente a ti.

– Não, não sinto. Agora sinto apenas este ar gélido que me incomoda e me atormenta, estes ruídos do vento que me enervam...

– De onde vens, tu?

– De junto de Jesus, o Nazareno!

Os olhos de Francisco arregalaram-se.  Mas o jovem continuou, impassível, a dizer para aquele homenzinho que já tinha como louco:

– Ouvia-o falar com agrado e apaixonei-me pelas suas palavras, considerando que nelas morava a verdade. Arrebatado, ouvi-lhe falar da vida eterna e, porque sou um homem amigo da verdade, e porque tenho alcançado tudo o que procuro da vida, achei que tinha possibilidade de alcançar também a vida eterna, da qual ninguém mais me tinha falado até então.

Francisco pareceu querer falar, tal era o sorriso que se lhe abriu, mas preferiu esperar que o jovem terminasse a sua narrativa. O jovem fitou-o nos olhos, perturbado, mas sentindo neles muita confiança continuou:

– Incrível, parece que há algo nos teus olhos igual ao que encontrava nos olhos do Nazareno!!!

– Podes crer que há, mas continua a tua narração.

– Eu queria saber o que poderia fazer para alcançar essa vida eterna. Que procedimentos deveria seguir, e imagina o que ele me disse perentoriamente! Para vender os meus bens e o seguir! Completa loucura. Se os meus bens têm sido um sinal de bênçãos de Deus para a minha família, se os bens têm sido a alavanca de tudo o que tenho conseguido na vida, a minha posição, a capacidade de me mover na sociedade... Ia agora vendê-los… Ele é louco! Como tu, talvez? Isso de dar aos pobres, sempre o vivi na minha família, como um ato de correção social, como filantropia, bondade… mas um dar que não agrave o meu pecúlio. Tu também és pobre? Também posso contribuir com algo para que te possas vestir condignamente…

– Porque achas que é louca essa mensagem?!

– É contra-natura! Despojar-me do que literalmente faz parte de mim.  É como mutilar o que sou...

– Mas eu sou pobre por opção.

– Por opção? Como é que alguém pode tomar tal opção? Eu acho que aí se chega por infortúnio, por negligência, ou por estupidez, nunca por opção.

– O que tu talvez não entendas é que os bens materiais podem roubar a minha liberdade e a minha integridade!

– Integridade?! Essa é boa!!! Se mais tens, mais és!

– Não é um pelintra que saiu de um chafurgo que te está a falar. Eu sei o que é ter bens e sei o que é delegar neles a satisfação das minhas vontades. Agora, que despi a roupagem dos bens materiais, sou um homem inteiro, mais inteiro do que se fosse roubado pelo ter. Sou um homem livre.

O jovem rico pareceu triunfar e lançou mais uma farpa ao pelintra que dava uma volta, com passo de dança:

– E daqui a nada estás a necessitar daquilo de que te desprendeste. Daqui a nada estás a pedir esmola para… comer, pelo menos!

– É certo, mas estarei a comer do que é meu.

– Teu não! Vais comer o que os outros te derem! Eu, por exemplo, posso contribuir com uma esmola para ti.

– Puro engano. Tu és pobre também…

– Não! Eu tenho muitos bens.

– Todo o ser humano é pobre.  O que tu pretendes dar-me é o que Deus já te deu. Deus é o único esmoler. E se pedir esmola, aquele que me socorrer estará a dar-me apenas aquilo que Deus já lhe deu! Todos somos pobres. Eu apenas tomo consciência disso e não me apego aos bens de Deus, mas ao Deus dos bens.

Seguiu-se um silêncio, em que o jovem rico ficou a olhar para Francisco, sem réplica. Depois perguntou, de rompante, como se não tivesse tido consciência desse facto:

– Como é possível estares a falar comigo? De onde vens tu?

– Sabes eu já tinha ouvido falar de ti.  Eu estou dois séculos à tua frente.

– Dois séculos?! Como é isso possível?

– Seja como for, está a ser possível! Acho que alguém te colocou aqui como narrador, mas depressa te libertará para o teu tempo. Não faço ideia se as minhas palavras irão interferir no teu futuro, que é passado meu, mas provavelmente não, porque nunca mais ouvi falar de ti, no entanto vou aproveitar o teu aparecimento no meu século para falar ao século XXI para onde nos hão de levar.

– Ao século XXI! A minha história chegara aí?! Custa-me a crer! Mas vamos que chegue. Salto para aí e olho para trás, fazendo uma reflexão…

E eu, quanta liberdade tenho em relação aos bens materiais?

 

Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs

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