A vista armada
[Jesus] “cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama.”
(Jo 9,
6)
Várias vezes Jesus faz
referência aos olhos e ao olhar. Ele é capaz de curar os olhos com lama e saliva
(Jo 9, 6), e também os abre quando abre o Pão (Lc 24, 31). Ele pede para olhar
insignificâncias como pássaros e flores (Lc 6, 26-27), e ensina a arte de erguer
os olhos para o Alto, para mais longe. Mas censura a inaptidão de quem
interrompe um sulco, olhando para trás (Lc 9, 62). Compadece-se quando olha a
fragilidade de um ser humano, mas às vezes parece furtar-se aos nossos olhos
necessitados da sua beleza.
Faz-nos bem meditar
sobre os conselhos preciosos que Jesus dá acerca da gestão do sentido da visão,
que é também biológico, mas vai muito além do corpo, atravessando a alma sendo
capaz de penetrar a eternidade.
1. Nunca armadilhes os olhos. É bom armar a vista,
de modo a fazê-la chegar mais longe, mas
um olho armadilhado, pode matar um amor. Pode matar uma vida. A armadilha
da vista é o preconceito que rotula, é a parcialidade que limita, é a sofreguidão
que invade territórios íntimos…
2. A blindagem das pálpebras. Às vezes é vantajoso blindar
as pálpebras quando a instrução de dentro te está a formar, para que nada a
possa perturbar ou envenenar. Toma atenção: pelos olhos podem verter-se os teus
segredos mais secretos. Se te descuidas já perdeste o que querias guardar. Podem
derramar-se por eles os teus intentos e estragar as tuas estratégias. Olhos
descuidados são um perigo na gestão da vida.
3. Aprende a gerir distância e proximidade. O olho precisa de
estudar o campo de batalha, a confrontação que é preciso fazer com o inimigo…
ou com o amigo. Mais necessária é a arte de distinguir o que é um inimigo! É
questão de vida ou de morte de um amigo. É bom perceber quando alguém te
declara guerra pelos olhos e qual é a maturidade do tempo bélico.
4. A vigilância. Noutros momentos é bom ter pestanas como
ameias onde, numa emergência, rapidamente se põe em guarda uma sentinela ou, no
limite, uma peça de artilharia. Precisas de coragem para não te deixares intimidar
pelo mal(igno) e se acertares na sua astúcia não o deixarás vencer. Mas também
precisas da sedução de um brilho para afastar os assomos das trevas.
5. O uso de lentes. É conveniente saber como se maneja tanto o
telescópio como o microscópio. Mas, mais ainda, é precioso descortinar qual
deles vais precisar. Se colocas à frente da vista umas lentes de aumento, tens
de aprender a matemática das proporções, não aconteça que um inseto te pareça
um camelo… Isto pode desgraçar-te preciosas energias.
6. O uso de instrumentos e colírios. O olho deve estar
munido do bisturi da fé e do pincel da esperança. É bom ter o cinzel da
caridade. Isto tudo para ser capaz de captar, de cortar e de reparar. A visão
deve ter o instrumento de corte e o da regeneração. Há colírios muito preciosos
para manter uma vista saudável: a bondade, a magnanimidade, a admiração, a
gratidão.
7. Não descures a força naval dos olhos. Pelas lágrimas pode
navegar a manifestação da tua dor ou da tua alegria. Mas não te deixes afogar
nelas. Faz por transpor oceanos de indiferença para chegar à proximidade que
vivifica.
8. Cuida a força aérea dos olhos, treina as asas que
levam o teu ser para lá da transparência. Vê longe. Faz florir os olhos de modo
que eles possam embelezar o mundo e polinizar os espaços, para que tudo
floresça na próxima estação.
9. O poder da luz. A Face que se procura. Num olho aberto a pupila deve conhecer os movimentos da luz. Quando vier a luz, acolhe-a com deslumbramento e descansa nela a tua vista: não precisas de armações, nem de lentes, mas simplesmente do poder do silêncio. Mantém focado Aquele que persegues, para não te perderes.
10. Oração
(in Universo Orante, Edição do SNL)
Eis os meus olhos,
Senhor, a janela do meu ser.
Os olhos que captam as
cores do mundo e a luz com que rasgas as trevas.
Os olhos que vasculham
as sendas da curiosidade
e recolhem a mensagem
inscrita nas coisas.
Os olhos que refletem
as imagens e o seu movimento de luz e sombras.
Os olhos onde se
reproduzem as expressões do coração.
Acende, Senhor, nos
meus olhos a beleza do teu rosto.
Posiciona-os na
direção em que te busquem.
Alimenta-os na tua luz eterna e abre-os sem cessar
ao clamor dos que sofrem.
Corrige as deformações
com que leem as mensagens escritas à sua volta
e enche-os da tua
plenitude e da tua revelação.
Ofereço-te, Senhor, os
meus olhos.
Quero ver e ler na
procura incessante da tua face.
E que eles espelhem a
tua beleza deslumbrante.
Quero olhar com olhos novos, a surpresa de cada dia
e o dom das irmãs, dos irmãos.
Quero que os meus
olhos vertam a plenitude que de Ti me vem.
Quero que superem as
estrelas e sejam jorros de luz, janelas para o infinito.
Ir. Maria José Oliveira, sfrjs



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