O desprezo da verdade

 


– Estes aldrabões, estes larápios!...

O velhote até batia com a bengala no chão, para acentuar as palavras. Estava sentado no banco da praça, com dois compinchas, do seu tempo e cuspia as palavras para dois fulanos engravatados, com os seus fatinhos de executivos e uma mulher baixota, que fazia equilibrismo nuns sapatos de salto alto! Os três afastavam-se, a passos de passerelle, e já estavam a atacar, com uns panfletos, uma vendedora de flores que tinha despachado uma cliente com um ramalhete bem florido.

Contornei uma floreira gigante só para saltar a objetiva de uma câmara de filmar que queria enquadrar os três figurantes da praça pública e passei de raspão pelo banco onde o velhote lançava imprecações contra os políticos que só na campanha eleitoral é que se lembravam do povo. E fiquei com a palavra aldrabões a retinir no ouvido.  

 Ao contar este episódio, tão recorrente, longe de mim desdenhar da classe política, cuja missão é tão nobre e necessária. Mas o que reflito é transversal a todo o horizonte humano! Às vezes o que parece é estarmos a solidificar as bases de uma sociedade mentirosa, que aceita a mentira de forma natural. Já não apenas as bases, mas as suas colunas crescentes.

Já fomos muito para lá das figuras de estilo, das hipérboles e das comparações. A mentira instalou-se no nosso mundo com um à vontade descarado e impúdico.

Uma empresa que diz “o nosso objetivo é a sua felicidade” ou “pensamos em si”, não estará a proferir uma mentira? Na maioria dos casos o objetivo é extorquir dinheiro ao consumidor e o que é feito não é, primordialmente, por ele!

A publicidade, por exemplo, é dos maiores embustes à nossa credulidade. A maior parte dos discursos que ouvimos está cheia de uma coisa a que poderíamos chamar instilação, uma persuasão que perdeu a inocência. A mentira tornou-se uma das estratégias lícitas de persuasão.

Habituámo-nos a isto e aceitamo-lo, tranquilamente, embarcando solenemente nos mesmos padrões comportamentais. Numa simples mensagem em que tentamos persuadir o outro, quanto de engenho mentiroso não há!

As pessoas deixaram não apenas de ter vergonha de mentir, como de sentir escrúpulo em o fazer. Não se está a medir se a mentira proferida é grande ou pequena, se é grave ou leve. A escala de gravidade dilui-se no grau de (de)formação da consciência. Neste mundo há mais trabalho a construir frases do que a afinar as motivações. Empreende-se muito mais esforço a fabricar camuflagens ou eufemismos para a mentira, do que a procurar a verdade. Gasta-se mais tempo com os advogados do que com os cientistas?! Talvez. E certamente mais tempo com os juízes do que com os místicos.

A mentira é uma coisa muito líquida que facilmente se dilui na seiva da alma e banha as nossas faculdades e intentos. A mentira é a grande arma do inimigo. Para lhe atalhar as ciladas é preciso tanta vigilância! 

A Verdade é comparável à Luz. São João Evangelista ajuda-nos a perceber esta força no prólogo do seu Evangelho: "O Verbo era a Luz verdadeira, que, ao vir ao mundo, a todo o homem ilumina" (Jo 1, 9), mas constata que, vindo aos seus "os seus não O receberam" (Jo 1, 11). Nem todos! Gostaria tanto de pertencer ao número dos que O recebem! Neste Evangelho, aquando da hora da condenação, Pilatos pergunta a Jesus: "Que é a verdade?" (Jo 18, 38) de uma forma retórica, como quem nem se importa de receber uma resposta, temendo-a talvez, Jesus permanece em silêncio. Pilatos não percebeu que aquele Homem que tinha à sua frente era o que poderia dizer de forma segura: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida." (Jo 14, 6)

Far-nos-ia tão bem uma diálise muito assídua nas fontes da oração e no confronto com a Palavra de Deus, de modo a purificarmos esse recôndito de produção de nós mesmos!

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

#verdade e mentira   #natal   #Jesus é a verdade

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