A arte da reparação
Restaurai-nos, ó Deus, nosso Salvador (Salmo 86)
Deixámos de consertar a maioria dos objetos. A euforia do usar e do deitar fora tomou conta da nossa forma de olhar o mundo. Nem os fabricantes têm paciência para nos ofertar coisas que durem. Precisam de fabricar mais e mais, sem poder esperar por outra geração.
Hoje em dia qualquer mãe não se imagina a lavar as fraldas do seu bebé! No entanto, o tempo que uma mãe “perdia” a lavar fraldas pertencia a uma das numerosas expressões de carinho que há disponíveis para dizer: “amo-te!”. Hoje limitamo-nos a expressões “limpas”.
Há alguns anos atrás tantas das nossas tarefas faziam parte da higiene do mundo; agora muitas mais contribuem para o lixo do mundo. Revirámos procedimentos para encontrar um modo assético de viver e enojamo-nos com mais facilidade. Até fizemos do nojo um produtor de artefactos. Industrializámos o nojo!
Antigamente consertávamos tudo, mesmo as mais comezinhas peças do uso quotidiano. Consertávamos tanto um guarda-chuva, como um telhado que nos abrigasse; passajávamos meias, tanto como lançávamos a teia das relações humanas; soldávamos uma panela da mesma forma que cuidávamos pacientemente da culinária, com o ingrediente do amor.
Muito do que acontece nos nossos dias está relacionado com a cultura do descarte, em detrimento da cultura da reparação. Desdenhamos de várias profissões de consertadores, mas fomos obrigados a criar novas profissões, para nos libertar do lixo que cresce à nossa volta, ameaçando sufocar-nos, por causa de tanta incúria. Pois que a desordem que provocamos à nossa volta acaba por nos desorganizar a nós próprios.
Talvez dentro de mim também possa persistir este entulho de coisas a que perdi o tino, esta desorganização que ameaça bloquear-me. Desleixamos também a arrumação interior e, talvez por isso, a nossa sociedade está cheia de seres humanos desarrumados, de homens e mulheres “mal situados”.
Deus é o rochedo, perfeitas são as suas obras (Dt 32, 4); Ele viu que era tudo muito bom! (Cf. Gn 1, 31). E Ele faz de nós participantes na sua obra. A bondade de Deus, está também presente nos que fazem progredir o bordado continuado dos pequenos pontos que tecem a construção do mundo. Continuamente é necessário passajar as pequenas falhas, conter os inesperados rasgões que vão descosturando os segundos e os minutos, para que o tempo tenha a robustez de nos suportar e de segurar o mundo que nos rodeia.
É o amor que dá consistência e substância a qualquer obra. É o amor que assegura a perenidade. Pelo amor se expande esta exortação, com formato de certeza: Reconstruirás ruínas antigas, levantarás sobre antigas fundações. Serás chamado: «Reparador de brechas, restaurador de casas em ruínas.» (Is, 58, 12)
A quem é dirigida esta palavra de elogio e de estímulo? A ti, que reparas. A ti que não pactuas com a mediocridade, mas também que não te deixas levar pela gula megalómana de tudo resolver. A ti que estás atento ao fluir do mundo e à verdade que o pode libertar. A ti que susténs, com a tua constância, as quebras que vão ferindo o mundo e quantos neles vivem. A ti que susténs o mal, que travas a marcha da vingança, com a paciência e a magnanimidade. A ti que suportas a fragilidade alheia e colocas substância onde outros deixaram ausência.
Senhor Jesus, Tu conheces os circuitos onde se formula o meu ser a cada momento. Sabes tudo o que está em jogo quando tenho de optar. Deixar-me ver por ti pode resolver a minha vida confusa, pode iluminar o meu querer aprisionado pelo instinto, pode libertar-me do jogo dos meus interesses que não perseguem metas coerentes. Porque tu sabes onde vou e sabes do que preciso para ir onde tu queres que vá. Sabes o que me completa.
Eu preferia caminhar numa estrada muito certa, sem este “quebra-cabeças” de procurar coadunar a minha liberdade à dos outros. Mas tenho que caminhar pela noite escura! A fé dói tanto, Jesus! E a caridade dá tanto trabalho! Para as viver a sério tenho de passar pela vergonha de pecar, pelo vexame de me enganar, pelo incómodo de ter de trocar de caminho. Tenho de deixar a minha reputação em jogo. Tu tens acesso não apenas a essa junção celular que me materializa como pessoa, mas a toda a envolvência espiritual que me faz pensar, querer, decidir, agir. E sabes dos obstáculos que me apoucam, que mantêm até bloqueado tanto do que tenho de bom. Oh, porque demoras, Deus meu?! Explica-me por dentro, com o teu Espírito que penetra todas as coisas e conhece todas as línguas. Faz-me entender qual o fogo que tem de arder e qual a chama que tenho de apagar.
Porque permites que a minha liberdade seja tomada pelo instinto da maldade, pela traça e ferrugem que põe em risco o meu esforço?! Já São Paulo se queixava que “não é o bem que eu quero que faço, mas o mal que eu não quero, isso é que pratico.” (Rom 7, 19). Porque permites a maldade a quem quer ser bom?!
Ó Deus de amor, como deixas a minha liberdade tão permeável a infeções! Deixas a minha liberdade tão livre. Pelo Evangelho vejo que também tiveste tentações, mas imagino sempre que tinhas certezas! E isso fazia a diferença. Eu não tenho certezas, e parece que caminho de olhos vendados, num labirinto…
E em chegando aqui, tu mesmo páras a marcha do meu raciocínio com um “Mulher de pouca fé, porque duvidas?” (cfr. Mt 14, 31) Ah! Já percebo: é a luz da fé que me há-de valer! É a confiança em Ti que me mantém na esperança! É o sentir-me amada que energiza o meu amor. Aumenta a minha fé (cfr. Lc 17,5), a minha esperança, o meu amor! Cuida dos meus caminhos, Jesus, até que eu entenda que só Tu és o Caminho (cfr. Jo 14, 6)! Vem morar em mim, até que sejas Tu a viver, a agir, a olhar, a tocar, a reparar… em mim e por mim.
Ir. Maria José Oliveira, sfrjs
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