UM PÓ QUE PODE PREGAR


E se não fordes recebidos numa localidade, se os seus habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles.» (Marcos 6, 11)

Jesus, interrogo-me que tipo de pó é este, o que nos mandas sacudir num momento de rejeição!

Será um arremesso de ironia? “Ficai com todas as vossas coisas, mesmo com o pó, pois não precisamos nada delas para o nosso sustento. Há muito deserto à nossa frente”. Mas tal atitude implicaria uma noção de superioridade de que Tu, Jesus, não gostas! 

Até parece um ar de ressentimento: “Não quereis a nossa pregação?! Vamos já para outro lado, pois «para quem não quer há de sobra»!” Mas soa estranho que o Jesus que nos manda perdoar sempre nos incentivasse um sentimento tão pouco cristão!

Será uma vingança de escárnio? “Receba a vossa visão o que espezinhamos com os nossos pés.” Ou seja: “Toldamos, com os nossos pés, os olhos dos que nos rejeitaram”. Mas Tu, Jesus, nunca poderias apoiar uma resposta de tipo vingativo!

E se for antes uma deixa para que os interlocutores façam uma auto avaliação? “Já que não nos quisestes ouvir, será o próprio pó a falar-vos.”

Seguro este último palpite pois vejo, Jesus, o quanto te deste a pregações minerais. Vejo bem como Tu te combinas com os elementos do mundo, desde o nascimento, logo proclamado pela luz das estrelas, recostado na secura de uma palha que nasce nos campos. É certo que Tu estás constantemente a convidar-nos a uma contemplação do mundo. Em Jerusalém até admites um grito das pedras (Cfr. Lc 19, 40) e morrerás abraçado a uma árvore.

Desta dica posso já pensar numa mensagem que poderia deixar, no pó, a quem rejeitou a mensagem de vida que eu levava com tanto amor: 

“Deixo-vos o pó, o único elemento que escutou, que auscultou, ou até que beijou a planta dos meus pés. Ele sabe qual é a fonte de locomoção da minha mensagem. O pó dos meus pés há de fazer a pregação interrompida pelos vossos preconceitos, pela vossa irritação injusta. Para os vossos olhos este pó que vos lançamos será um colírio de vida. Há de ser um testemunho contra aquilo que vos impede de escutar, quero deixar-vo-lo para que seja um sinal a favor do vosso crescimento.”

Mas indo mais além, parece-me entender que esta Tua palavra, Jesus, não é tanto uma censura aos que rejeitam, mas um estímulo aos enviados. Talvez queiras dizer-me a mim e aos pregadores desolados que porventura levaram “uma tampa”, às vezes descaradamente:

“Não desanimeis! Todo o pó que levantastes será um memorial da vossa diligência. Nenhuma das vossas pegadas ficará sem efeito. Vós provocastes um revolver do solo, um preparar de caminhos. É isto o que se faz antes das sementeiras. Não duvideis: o meu Espírito poderá semear desertos e eles frutificarão. Mesmo que as vossas palavras nem cheguem a soar, só a vossa presença agita o ar. O ambiente ficará tomado do vosso cheiro. Não vos alarmeis se ninguém vos ouve. Algo no mundo ficará diferente com as vossas tentativas de o honrar, mesmo que sejam reputadas por inúteis. O mundo ficará melhor se, por amor, fizerdes deslocar uma só partícula de poeira. Não temais o fracasso, não vos deixeis aterrorizar pela rejeição.”

Vou ainda buscar a palavra de Santo Agostinho e esta completa a minha alegria: “«Eu quero andar assim errante – replicam – quero andar assim perdido». Queres andar assim errante, queres andar assim perdido? Mas, com mais força ainda, não o quero eu. Digo-te claramente: quero ser importuno. Porque ressoam aos meus ouvidos as palavras do Apóstolo: Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente.” (Sermão de Santo Agostinho, sobre os Pastores). 

E, depois de tudo isto, até se me afigura uma bem aventurança dentro de uma que soou no monte santo: Bem aventurados os que são rejeitados, por amor da mensagem, porque serão arautos de vida. 

Quem ouviu o profeta Isaías dizer “que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz” (Is 52, 7), não duvida da beleza contida na mensagem transmitida pelos pés e pelo pó que eles revolvem. 

Nós mesmos somos pó, barro que Deus moldou e onde colocou um sopro de vida. Em qualquer pó Deus pode suscitar vida. Caminhemos, irmãos, e só se for preciso digamos palavras.

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs


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