O arroz doce mais delicioso do mundo

 

A tia Maria dos Ferreiros acabou de colocar a caldeira em cima da rodela. Aurinda olha-a com satisfação e orgulho da sua obra. Foi ela que a lavou e areou, depois de dois dias intensos a ajudar na faina do fumeiro. Aurinda faz menção de se retirar:

– Tia Maria, vou andando…

– Espera aí rapariga que ainda te quero convidar! – Abre um armário grande de portas de madeira, pintadas de um verde claro, delidas à volta do puxador, e tira de lá o que parece ser um pão, que embrulha num pano. – Foste aqui uma valente. Obrigada, Aurindinha pela ajuda. Depois lá te hei de dar mais uns chouriços, por paga. Mas agora vai esta bolinha de carne para comeres com a tua mãe e os teus irmãos. ‘Inda gostava de te dar mais alguma coisa, mas que havia de ser…?

– Que é que me há de dar mais? Já me deu tanto…

– Olha, tu gostavas de ir à festa do Santo Amaro, a Prada!

– Ah, isso bem gostava. Não vou muitas vezes a Prada.  A tia Maria vai? É dia 15, não é?

– É sim, senhor! A minha sobrinha, a Amélia, quer ir, diz que tem uma promessa… e a mãe dela pediu-me para ir com ela. Agora veio-me à ideia que também podias ir connosco.

– Bem, mas não sei se a minha mãe gostará. Só se for também a minha irmã...

– Bem me eu finto se Amélia não convidou já a Aucinda?! Ó que são de amigas! Mas tu queres ir ou não, rapariga?

– Eu quero, tia Maria. E em que casa ficávamos?

– Bô! Nem que fiquemos por debaixo do andor do santo. Eu lá hei de arranjar patrão…

Levantaram-se cedo nesse dia, porque o Padre Manuel Lopes é madrugador. Ouviram ao tio Guilherme que a Missa era às 10 da manhã, mas pelo sim pelo não, o melhor é pensar estar lá antes das nove não vá o clérigo começar a toque de alvorada, que bem capaz disso é ele. E contar com uma horita bem boa de caminho, que a subida da Portela é de tirar os boches a uma pessoa. Ir devagar pois o tempo chuvoso também não ajudará muito. Graças a Deus a nevada de há duas semanas já está nas últimas, sob estes dias de chuva grossa. Hoje amainou. Nem quase parece janeiro. Está nublado mas não chove, nem geou.

A tia Maria dos Ferreiros é uma mulher patusca e o caminho na companhia dela é devorado ao sabor de anedotas e ditos. A Amélia, sua sobrinha, leva umas socas novas e vai toda repenicada na sua meiinha de lã rendada, sob a saia plissada de um castanho escuro, feita num tecido que nem as manas Aucinda e Aurinda sabem decifrar.

– Isto é tafetá. Foi um amigo do meu pai, contrabandista, que trouxe o pano da Espanha. – Revela a vaidosa.

– E então que amigo é? – Quer saber a Aucinda curiosa.

– É um dos Casares, não me lembro o nome… Estiveram aí no Domingo.

Na Amélia tudo é requintado, porque a tia Felizarda, a mãe dela, é das costureiras mais afamadas de Paçó. E passou a arte à filha. O avental, em tons de castanho mais claro, rematado de folhos muito certinhos, mostra que filha de costureira sabe coser, e a blusa branca de linho, temperada de bordados finos, que se mostra nos punhos e colarinho, também é da sua lavra. O casaco de fazenda preta é outra joia no corpo daquela menina prendada. Até o lenço estampado de motivos equestres revela uma finura que as duas irmãs apreciam. Não o leva na cabeça, mas atado ao pescoço, dando-lhe uma elegância de figura citadina. Vai com a cabeça descoberta a mostrar o seu crucho muito bem penteado, amparado por uma travessa com motivos florais. Colocará o lenço na cabeça durante a missa, que é assim que deve ser.

A toilete das outras é mais simples e sóbria, mas a Aurinda, nos seus catorze anos, é ainda mais apurada que a Aucinda. Sobre as suas saias de burel, a godés, os aventais de popelina às risquinhas azuis, também exibem uns folhos perfeitos. Estes e as blusas de linho, foi tudo costurado pela Aucinda. Já a cobertura das duas manas foi quase tudo obra da Aurinda. Fora a lã fiada por todas as mulheres do agregado familiar nos longos serões de inverno, os dois xailes foram por ela tricotados a ponto de pérola e tingidos de um azul marinho. A mãe emprestou-lhes os caixinés que trazem pela cabeça, atados ao pescoço, deixando ver os brincos de ouro em formato de laço. Mais humildes que os da Amélia que são de libra em ouro. Outra peça obrigatória das indumentárias de todas é o guarda chuva que levam no braço, ao pendurão.

Já sabem que o programa principal é ir à missa, participar na procissão e depois ir à janta. De arraial ninguém falou. Mas a tia Maria dos Ferreiros, mulher solteira e madura, é animada e, se vir que tal, não tem problema de meter as moças na dança.

À Aurinda não sai da cabeça o enigma que a tia Maria dos Ferreiros tão bem guarda: a casa onde vão jantar. Normalmente quem vai a uma festa ou é porque foi convidado e, portanto, tem um patrão, ou porque tem na aldeia uma pessoa de família e ali se acosta à espera de conforto. Mas elas vão sem destino, ou assim parece à Aurinda, porque a tia Maria se pensasse no repasto em casa de um familiar não ia levar com ela mais três garotas a comer desalmadamente e a esgaçar os magros orçamentos familiares. Nada lhes disse quanto à manja. O certo é que trouxe uma cesta e não se sabe o que lá está contido. Será a merenda? A mãe da Aurinda e da Aucinda também lhes meteu um salpicão, duas alheiras e um pãozinho no saco de pano que a Aurinda carrega. Talvez as duas se tenham entendido mas às filhas nada disse. A Aurinda vai com estas cogitações, a pensar que, se não tiverem uma casa para onde ir, comer uma merenda ao relento, na temperatura de janeiro, sujeitas a levarem uma granizada em cima, não será boa ideia. Alugarão um cabanal a troco de uma peça de fumeiro? A Aucinda, muito generosa, ofereceu-se para levar a cesta de verga, com tampa e tudo, que não deixa ver nesga de conteúdo. Mas cheira bem, isso sim, àqueles temperos de inverno que se saboreiam à lareira. Já uma ou duas vezes abordaram o assunto mas a tia Maria muda de conversa. É muito faladeira, tem tema para todo o caminho e não aborrece.

– Já trazeis todas o mata bicho no papo! Agora nada de pensar no comer!

Estão a passar pelas “alminhas” dó Rigueiro e rezam um Padre Nosso e uma Avé Maria pelas benditas almas do purgatório. A tia Maria continua:

– Por falar em comer, lembra-me sempre uma do Manuel mudo, de Prada, sabeis quem é?

– O sapateiro? – Reconhece a Aucinda.

– Sim, esse. Diz que uma vez foi a Quintela lá fazer serviço da sua profissão e que estava à espera do mata-bicho para começar o trabalho. Espera, que espera, ninguém se chegava à frente. Até que o patrão lhe diz: “Então Manel, não trabalhas, estás de mandrião?” E ele diz assim: “Estou à espera do pão!” Responde-lhe o outro: “Aqui não há pão!”. E ele: “Pois se não há pão, também não há socas!”

Todas riem. E a tia Maria remata:

– Agora vós estais igual: “Não há patrão, não há festa!” Deixai estar que ides comer na melhor casa de Prada!

Já vão a meio da Portela quando sentem vozearia atrás delas, ao fundo da rampa. A Aucinda volta-se e, depois de verificar quem lá vem, a subir desde o Rigueiro, exclama: – Olha, é a Ana e a Lola!

Todas se voltam e a Amélia completa, para dar rigor à observação:

– E o Fininho.

A Aucinda toda se alvoroça pois que a Ana é uma das suas amigas prediletas, já casada e mãe da primeira filha, a Glória, que todos chamam Lola. Continuam a caminhar mas as quatro viandantes abrandam o passo, e os três depressa as alcançam. Eles trazem uma burra, mas naquela subida íngreme da Portela apenas carregam o animal com dois alforges volumosos, e a pequena Glória, empoleirada na albarda, despejando dela uma cascata de risos. O pai ampara-a acompanhando ao lado o trotear da burra. A Ana leva uma bolsa ao ombro. Saúda-as animada, ainda uns metros antes, da curva:

– Deus nos dê bons dias, a nós e a esta gente madrugadora!

– Bons dias nos dê Deus! – Respondem as quatro em coro.

– Ó Aninhas, também ides?! Que sorte! – repenica-se a Aucinda.

– Cá vamos. A minha tia Umbelina convidou-nos…

– E a Lola, valente, já vai a cavalo na burra! – comenta a Aurinda.

– Vai toda contente à festa de Prada. – arranca a Ana. E depois com voz arrolada para a catraia: – Não é, galota? Não é, Lolinha, minha linda?!

A Glorita ri, com as paracismices do pai. Vão todos conversando durante um troço do caminho. A certa altura, chegados ao alto da Portela, avistam Prada a menos de um quilómetro. A tia Maria percebe que o Fininho já vai farto de conversas de mulheres pelo que resolve colocar fim ao aborrecimento do homem:

– Vá, ide lá, ide lá na frente, que tendes mais pressa. Nós cá vamos com os nossos vagares.

– Bô ainda é muito cedo. Os dali dó Burguete, diz que também vinham, mas ainda nada de sinais deles. – Adverte a Ana. E continua: – Então vós onde almoçais?

A Aurinda arreguicha a orelha, mas a tia Maria corta-lhe a curiosidade com esta penada:

– Vamos comer à melhor casa de Prada!

Depois, já fora da audição dos outros, adianta:

– Vamos comer a casa de uma gente que nem me fala!

– Homessa! – Atira a Aucinda. – Então vai fazer as pazes?

E com esta ficaram. Chegaram bem antes da missa e a Amélia lá cumpriu a promessa que era de dar dez voltas à igreja. O motivo sabe-o ela que ninguém lho perguntou.

A missa foi um mimo. A pequena igreja está à pinha de gente e pelo adro fora. Ainda que temessem lá puderam fazer a procissão, por entre o estampido de seis ou sete foguetes. Mesmo à rasquinha! Mal o Santo entra debaixo de telhas começa uma zurvada tal que todo o povo era um “ver se te avias”! Uns corriam para dentro da pequena igrejita, apertando-se como podiam, outros refugiavam-se nos cabanais, outros fugiam para as casas, outros ficaram a pingar como pitos. Foram uns dez minutos de bátega. As nossas amigas ainda estão dentro da igreja e o Padre Manuel Luiz Lopes, ao sair da Sacristia com o Pregador, o Padre Firmino, reconhece a tia Maria de outras andanças.

– Também andas por cá, Mariazita?!

– Vim com a minha sobrinha e com mais estas duas cachopas.

– Vós de quem sois? – Pergunta o Padre, a tentar decifrar os traços dos rostos das duas irmãs.

– Das Albinas de Paçó.

– Grande mulher a Albina! Sois filhas da Maria do Nascimento?! Conheço-a bem. Dai-lhe visitas minhas.

– Serão dadas e estimadas, senhor Padre. Muito obrigada. – Retorque a Aucinda.

Parou de chover. Tudo debanda para as suas acomodações. As três moças seguem atrás da tia Maria e de outra senhora de Prada, a Maria do Patrocínio, com quem conversa animadamente. A Amélia vai saltaricando, entre pedras e lama, para salvar da lama as suas soquinhas novas. Lá vão conversando com um e com outro, sobretudo com a gente de Paçó que em peso veio glorificar o Santo Amaro. Mesmo perto da Capela de Santo António, dois garotos fazem um plano:

– Vai lá tu, ó Zé Zeferino!

– Vai tu primeiro, João. E depois vou eu.

O João corre e estaca diante dum casebre, pobre e mal amanhado, gritando:

– Ó Manuel mudo, careca e barbudo! – e corre a refugiar-se num cabanal ali próximo.

A porta de madeira, meia apodrecida, abre-se abruptamente, e a figura de um homem atarracado e barbudo surge a debitar uns grunhidos impercetíveis e a brandir um pau medonho. A tia Maria do Patrocínio, corre atrás dos garotos com uma chibata:

– Ah! Seus fedelhos! Isso não se faz. Olha que falta de respeito. Vou dizer aos vossos pais!

A Aurinda encolhe-se com medo, mas a tia Maria dos Ferreiros, despede-se da outra Maria e vira-se para o homem, com animação:

– Ó Manuel mudo! Paz a esta casa. Deixa lá os garotos, que são tontos. Venho pedir-te hospedagem.

Atrás do homem surge uma mulher que parece só ter dentes. Uns dentes descontínuos que de entre as cáries deixam sair uma luminosidade de primavera. A tia Maria cumprimenta-a com um abraço muito quente:

– Ó Inês muda! Há que tempos andava para vos ver! É hoje que me ides dar a janta prometida?

Os mudos, entre fonemas decepados, anuem numa exultação feliz e estendem os braços para a porta esfarrapada, num convite inequívoco.

As três moças estacam, elas mudas de espanto, sem conseguirem articular palavra. Então a Aurinda está num misto de surpresa e escândalo, pois lhe parece por um lado um atrevimento crasso submeter duas pessoas, de aparência paupérrima, a uma hospedagem de quatro famintas. E depois meter aquelas três moças vaidosas –  já nem pensa tanto nela nem na Aucinda que vêm mais modestinhas, mas na Amélia que traz trajes de ultima moda – naquele chafurgo de aparência mais nojenta que a loja dos seus porcos: por amor de Deus! Por esta é que ela não esperava. Não há volta a dar. A tia Maria entra naquele Reino com o à vontade de uma rainha e a Aurinda imagina que dali só vão levar pulgas e piolhos. Ainda bem que não é verão senão até cobras devia haver. Em frente à porta fica o lançador e do lado direito a lareira. Do lado esquerdo a porta num tabique. Está aberta e deixa ver uma enxerga cheia de farrapos mal-cheirosos. Mas o cheiro está só na sua cabeça. Porque dali a nada só vai imperar a felicidade daquele casal improvável que exulta com a procissão das quatro mulheres tanto como se visse Deus Nosso Senhor descer à terra e entrar naquela choupana pobre. Que aliás o Padre Firmino até o disse, na sua pregação ao exaltar a caridade de Santo Amaro.

Aqui está o Manel mudo, o sapateiro mais afamado destas redondezas. – Apresenta a Maria.

Aí está ele! Afinal, mais de perto, não parece tão velho, com a sua barbicha de rato e a sua calvície alastrada. A esposa, que na sua magreza mais parece um “pau de virar tripas”, está tomada de uma unção celestial. Dirige-se ao lançador[1] e naquela prateleirinha que lhe fica por cima, adornada com recortes rendados de folhas de jornal, desencanta um, dois e… não mais... Dois pratos de alumínio, mais a soma inusitada de três tigelas de barro, é a louça que pode providenciar. Fica feliz. Quanto a talheres parece ter conseguido três colheres e a bonita soma de seis garfos. Os talheres são de ferro, com cabo quadrangular. A Inês muda dispõe tudo sobre um rodilho de linho grosso.

A tia Maria parece ter um à vontade, quase atrevido, que até à Aurinda incomoda. Num sem cerimónias, encontra uma grelha nas profundezas do escano entre chinelos velhos e o cão que dorme consolado e não parece ter a mesma boa vontade dos donos ante aquela invasão imprevista. Chorinca e ainda leva uma vergastada da dona, por chorincar ante visitas tão ilustres. O cão sai magoado na sua dignidade de “filho único” da casa e, já à porta, ao verificar que a temperatura não é a mais adequada para resolver o seu amuo, volta a entrar e providencia novo ninho na outra extremidade do lar, por detrás do estrefogueiro[2], sítio mais sujeito ao fumo, onde as visitas nunca se acostarão.

Pode a choupana ser pobre, mas aquele lume alimentado por rachos de carvalho é do maior requinte de uma casa transmontana, escoltado por um pote de ferro e encimado por um lato de metal preso às cadeias[3]. Sentam-se como podem, depois de a Inês muda passar o seu avental enforretado pelos assentos do escano. Aurinda vê que a Amélia ainda tira sorrateiramente o seu lencinho bordado de cambraia da algibeira, passando-o subtilmente antes de se sentar e olhando para todos os lados. Quando se senta recolhe a sua soquinha de cabedal para longe do lume. A Aurinda observa tudo sem se atrever a palavra, mas a sua irmã Aucinda já está a desembrulhar do saco de pano as alheiras que a mãe lhes deu e dá-as à tia Maria que, com a tenaz, já estendeu as brasas e colocou a grelha por cima, dispondo nela as peças de fumeiro, exceto o salpicão. É então que se dá a hora do milagre da abertura da cesta. A tia Maria coloca-a em cima do lançador e começa a tirar peças que parece que nunca mais acabam. A Aurinda não consegue contar tudo, mas mais de uma dúzia de alheiras serão. Umas poucas de chouriças de carne, dois pães e até um queijo trouxe. Só agora aprecia o peso que a sua irmãzinha carregou todo o caminho sem um ai sequer. Ela bem via que gotas de suor marejavam as franjas do caixiné nos finais da subida da Portela! Estão cinco alheiras na grelha mais duas chouriças de carne e dali começa a subir um odor soberbo, mais digno que os perfumes de um palácio real. Agora Aurinda percebe o que a tia Maria disse, de irem comer à melhor casa de Prada.

A Inês muda, levanta a tampa do pote que se encosta à lareira farta. O Manuel mudo coloca uma braçada de toros de carvalho e, com o fole, espevita a chama. A mulher mexe o pote com uma colher de pau e dali a nada tira-o do lume. Dispõe o conteúdo nas três malgas que distribui: uma para a tia Maria, outra para a Amélia e outra para as duas irmãs Aucinda e Aurinda, desculpando-se por não ter uma para cada uma. Ali fumega um caldo de castanhas e chícharos, com couves galegas cortadas fininhas, a preceito. O caldo sabe tão bem, com um gostinho a unto de porco e a um pedaço de chouriço que eles lá cozeram. A tia Maria vê que o caldo não abunda, pois os dois não estavam à espera destas visitas inesperadas. Devolve a tigela à Inês muda e diz-lhe:

– Esta é para vós! Eu como da malga da Amélia. – Dá um sorvo na tigela e entrega-a à Amélia, dizendo: – Está na hora de tirar a chouriçada das brasas. Há mais que comer e não quero mais caldo.

Quanto a pão não falta!

– Arranjai-me um prato e uma faca! – grita a tia Maria, ajeitando com um garfo as alheiras na grelha conforme vão ficando mais assadas. O prato é logo entregue, mas a Inês muda percorre todos os cantos do lançador e nada de aparecer uma faca. Faz sinais de desespero. A tia Maria, já impaciente, atira uma das suas ao mudo:

– Não há uma faca nesta casa?! Mas ao menos haverá uma turquesa na casa de um sapateiro!

O Manuel mudo ri e vai buscar a turquesa. Mas a tia Maria já resolveu tudo com as suas mãos calejadas. Esfarrapou um dos pães e dividiu-o em seis porções e fez o mesmo às alheiras e às chouriças. Cada uma vai ao lançador e tira a sua porção que come consoladamente. Lá diz o ditado: “a fome é o melhor tempero”! Mas há mais sabor ali do que aquele que se experimenta com a língua. Há felicidade e harmonia. Até a Amélia, que estivera toda empertigada, descontrai e ri, consolada a comer o seu carolo de pão com alheira.

Mas há ainda outra surpresa, quando a Inês muda tira da mosqueira um tabuleiro de cerâmica, daqueles de ir ao forno, com um conteúdo branco, adornado artisticamente com uma porção de canela. Apresenta-o às visitas com o sorriso mais belo do mundo. É arroz doce! As tigelas onde comeram o caldo são abastecidas novamente desta iguaria e as moças ao provar soltam um “Oh” de espanto. Que delícia!

Sentem-se tão fraternalmente acolhidas que à Aurinda aquela repulsa inicial se converte primeiro em divertimento e depois num dos mais bonitos momentos de encontro que há de experimentar pela vida fora. E foram tantos. Ali vive uma genuína fraternidade, pura de desinteresse, plena de autenticidade e de verdade. Tanto que daí a setenta anos, mesmo na plenitude da sua vida, o há de recordar com gratidão. Nessa altura, imersa também no acolhimento da Fundação Betânia, em Bragança, lembra-se que nunca na vida comeu arroz doce tão delicioso como aquele em casa dos mudos de Prada.

Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs



[1] Termo usado para designar a bancada da cozinha.

[2] Toro de madeira, colocado na transversal da parte posterior da lareira, que sustém a outra lenha mais miúda.

[3] Corrente de metal que pende de uma trave do teto, e se usa para sustentar recipientes sobre as chamas da lareira.

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