Batalha branca

Trás! A bola de neve acerta em cheio no queixo da Aurinda e uma miríade de estilhaços gelados entra-lhe para a boca, fazendo-a cuspir, enojada, aquela água misturada com lama que lhe derrete no rosto de menina.

– Quem foi o traste?!

Só já vê a cara do Agostinho dá Canle a espreitar de trás da parede da cortinha da gente dá Pedra, ladino a rir-se e a atirar mais bolas de neve. A Aurinda pousa os cântaros na estrada e, enquanto se baixa para apanhar armas de defesa, sente o seu corpo a ser bombardeado por todos os lados. Quando ela já está preparada com as armas de arremesso, já ele se escapuliu, cabecinho acima, a rir-se alto da façanha.

– Hás-de mas pagar, maroto!

Está fora de hipótese uma perseguição. Até se admira como o rapaz se meteu, pelo meio da cortinha, a esmolhaçar as calças de cotim, por entre as couves carregadinhas de neve, com as suas socas de brochas a enterrarem-se na terra fofa e a perderem-se na lama! É lá com ele.

A Adília já tinha levado com umas boladas não só dele como do Adolfo que vinha com ele Dó Canto!

– Tontinhos de todo!!! Esmolhaçaram-me dos pés à cabeça.

– E o Adolfo também anda de sacha ao ombro?! Que é que estes toscos andam a fazer, de sacha ao ombro, com este tempo?!

– O Adolfo diz que vai regar os lameiros.

– Olha que rega precisarão os lameiros com esta neve toda em cima!!! Bem me eu finto! Por’i é capaz de ir caçar alguma lebre. Em vez de estarem em casa sossegadinhos, a levar lenha pró lume!

– Ou a ir buscar cântaros de água às mães deles!

– Ora aí está! Olha que o meu Venâncio também não lhe deu para vir buscar água. Também ficou a endinhar à volta de casa… Lá tive que vir eu a toque de caixa. É sempre a Aurinda!!!

– Se não tivesses vindo tu, não nos encontrávamos.

Aurinda ainda sacode a neve que lhe aderiu ao xaile de lã de ovelha, que ela mesma fez, e que a sua irmã Aucinda tingiu de azul. Vê a Adília a colocar o segundo cântaro a encher. Esta volta-se e elogia o xaile da Aurinda.

– É bem lindo o teu xaile.

– Fui eu que o fiz.

– Ah! És bem jeitosa. Que ponto é esse?!

– Ponto de pérola.

Trás! Outra bolada que acerta em cheio no braço de Aurinda. O Agostinho desponta por trás delas, vindo do caminho da Veiga.

– Ah! Seu ladrão, anda cá.

Aurinda baixa-se dos seus dezassete anos a tentar apanhar neve, porém vê que está já toda enlameada dos passos dos peregrinos. Corre à parede, onde há ainda neve imaculada. Mas o Agostinho já está a uma distância confortável, junto da igreja. Adília terminou de encher o cântaro e é a vez de Aurinda. Enquanto coloca os cântaros a encher giza um plano de vingança bélica. Vai ao muro buscar uma mão cheia de neve pura, que ainda ninguém tocou, faz umas bolas muito recalcadas e fica à espera, atrás da parede do adro, que o Agostinho apareça, bombardeando-o e perseguindo-o até à palheira do tio Narciso. Ela corre, perdida de riso, enquanto lhe arremessa aquelas bolas que caem, quase todas, na errância.

– Ai que falta de pontaria! Vê-se mesmo que não és boa caçadora. – atira-lhe o Agostinho, gabarolas.

Ele vai fintando as bolas com perícia, mas ela não desiste e fica feliz quando uma acerta na testa do beligerante.

– Ah! Ah! Ah! E esta? Toma lá! Esta foi da fraca caçadora.

Ele limpa o rosto, feliz por ser contemplado com aquele presente da donzela.

– Deixa estar, deixa estar, que já vais ver quem tem pontaria.

Aurinda regressa aos cântaros. Adília providenciou a troca do cheio com o vazio, quando o primeiro se encheu. Conversam um pouco enquanto o segundo cântaro enche. Aquelas conversas de raparigas. Uma que foi à feira a Vinhais e comprou um lencinho para bordar, outra que tem em casa a avó doente. E assim se despedem, as duas amigas que até nasceram no mesmo dia e ano. Para saber quem é a mais velha têm de perguntar às mães a que horas nasceram. A Aurinda vai a pensar nisso, que vai perguntar à mãe a que horas nasceu. Pôs um dos cântaros contra a cinta fina e o outro leva-o ao pendurão. Já nem se lembra do Agostinho. Passa a igreja e caminha pela estrada enlameada. Passa a palheira do tio Narciso e o caminho que desce até ao Burguete. Avista a casa da escola, do lado direito esta semana vazia devido à neve, pois a professora, a Senhora D. Cândida, não veio devido ao nevão que caiu e que tem sido reforçado dia a dia.

E eis que, ao direito da casa do Moina, vê desabar sobre si, mais uma torrente de bolas de neve.

– Ai, Agostinho! Agora não, que levo os cântaros!

– Por isso mesmo. Agora é que me vais pagar a que me deste na testa!

Mas ele ri e fala-lhe com uma voz tão meiga que amolece a fúria dela. Depois desce para a estrada e deita-lhe uma bolinha mais pequena que fica intacta entre o pescoço dela e a gola da blusa, a derreter para dentro da roupa, pelo corpo abaixo. Isso ela não pode suportar! Pousa os cântaros, com emergência, para acudir àquele desconsolo que lhe gela até as entranhas. Apressa-se a tirar aquela autêntica pedra de gelo e retoma a viagem com os cântaros, agora alerta, embora a casa já esteja à sua frente. Galga as escadas e coloca os cântaros na cozinha, onde a sua irmã já está de volta da janta. Ouve a mãe e o irmão a falar desde a lareira que o escano delimita. Não diz nada. Tira do lançador um alguidar de metal e sai novamente para a estrada, sem prestar atenção ao que a irmã lhe diz.

Vai direitinha à parede que dá para a cortinha da tia Balbina, colhe a neve branquinha que ali ainda ninguém tocou e recalca-a entre as mãos, fazendo umas poucas de bolas que mete no alguidar. Depois entra novamente em casa, passa pelo Venâncio e pede-lhe que a siga. Vão os dois para o quarto grande e ela combina qualquer coisa com ele. Ele sai. Ela abre a janela e coloca o alguidar na base e fica à espreita.

A porta abre-se e entra a mãe:

– Tu que estás aí a fazer à janela, com o alguidar, garota?!

– Estou à espera do Agostinho dá Canle.

– Bem, bem, bem!!!

Nisto o Agostinho aparece, o Venâncio sai de casa, cumprimenta o rapaz e detém-no ali junto à janela. Aurinda com as duas mãos, agarra nas bolas de neve e alveja o Agostinho com fúria, acabando por atingir também o irmão. O Agostinho foge e ao longe fica-se a olhar para a janela, continuando a rir-se…

– Adeus Aurinda. Até novo ajuste de contas.

A Aurinda acena-lhe com a mão, toda divertida, mas nem tem tempo de responder, pois o irmão entra de rompante no quarto e faz-lhe a mesma maroteira do Agostinho, metendo-lhe uma bola de neve no pescoço. Aurinda fica brava e atira-se ao irmão…

– Ó mãe, olhe o Venâncio…

– Escusas de chamar a mãe! Não tinhas dito que ias atirar ao Agostinho? Fiz-te o favorzinho de o parar ali e depois… Esta é por aquela que eu levei!

– Mas… foi sem querer!

– Então, minha menina, trata de treinar a pontaria!

 

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

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