O desenho do Antero

   

 Rosalina vinha da Veiga. De saco às costas, sentindo o fôlego dos seus anos jovens, vinha absorta, folheando as páginas da sua aldeia, contemplando as gravuras pintadas pela arte da natureza sempre nova e criadora. O Outono começava a impor as suas cores violentas, nas árvores de folha caduca. E os matizes quase feriam o olhar. As cerejeiras de um vermelho vivo, contrastavam com os amarelos dos choupos. Os castanheiros já se iam salpicando de castanho, mas os freixos ainda iam resistindo no seu verde. Aspirava o hálito perfumado que os primeiros choviscos tinham arrancado à terra seca; era um odor primordial, o odor do ventre da terra! Sorria, Rosalina, sem que ninguém a visse, às andorinhas irrequietas que tinham marcado para aquele dia a partida para terras distantes e chilreavam por cima de si, nos fios bambos da eletricidade. Brincava, desde o olhar, com as suas asas abertas, daquelas que voavam em dispêndios de liberdade. Adeus Primavera! Mas o Outono também era forte! Dentro do seu coração e no seu caminhar, lento e ritmado, corria, juntamente com a erva gulosa dos prados consolados de chuva e inundados de vida. Nesse dia sentia-se dona da manhã que se ia agigantando para lá do arvoredo. Nos lábios germinava-lhe uma canção e cantava-a baixinho. A aldeia estava à sua frente, de telhados vermelhinhos, impregnados do repinte da chuva. Do lado esquerdo vinha-lhe o som da voz do tio Manuel, a tocar a burra, ali na sua cortinha comprida. Andava a acobrir a ferrã. Ao descerrar-se o arvoredo bebia com o olhar a intensidade de um horizonte amplo e farto de surpresas. Dali a nada, ouvia a voz redonda e metálica de uma transeunte, como o seu rosto bolachudo e o seu corpo roliço, que relatava algumas das suas desgraças à primeira moradora que encontrava:

– Ai, se visse o diacho da burra do tio Porqueiro, o espalhafato que me fez ali na cortinha! Até se me embuligou nas couves. Ai Jasus, nem quero que me lembre... eu coisa assim! Se visse... tinha lá uns repolhinhos ainda tão bons!

– Olhe que prejuízo!

– ‘Inda lhe tinha dado tantinhos à senhora!...

Rosalina saudou:

– Deus nos dê bons dias!

– Bons dias nos dê Deus. Então, Rosalina, vais carregadinha.

– Tem de ser. São umas couves, das velhas, para os coelhos. Até logo, se Deus quiser.

– Descansa um cibo, rapariga. Já vens estafadinha da subida.

ainda não! Obrigada. Tenho de ir.

– Vá, então até logo, se Deus quiser.

Um pouco à frente cruzou-se com o tio Vicente que vinha na direção oposta de sacha ao ombro, a assobiar. Quando passou por ela, fez-lhe uma vénia:

– Então Rosalina, que tal vai a vida?

– Cá estamos, tio Vicente. E o senhor?

– Menos mal, rapariga. Por onde anda o teu pai?

– Foi para o Colado acobrir a última terra. Se Deus quiser, hoje há-de acabar a sementeira.

– E a tua mãe?

– A minha mãe foi às castanhas para o Souto dá Caldeira.

– Vós sois todos danados! Diz ao teu pai que passo lá logo, se calhar depois da ceia, para lhe levar o pote que me emprestou, para fazer a aguardente!

– Está bem. Então até logo se Deus quiser.

– Até logo, se Deus quiser.

Rosalina tinha parado um pouco e a saca já incomodava. Mal andou uns passos ouviu murmúrios e reconheceu, de dentro de uma palheira, a voz de duas santas velhotas que assim rezavam:

– E vai, comadre, não é que vai dizer à Joaquina que eu que lhe roubei a pita!

– Não me diga! Ó louvado seja Deus! É bem chuclateira, aquela mulher, Deus lhe perdoe!

– E o pior é que a outra se fintou!

– A outra também não é flor que se cheire, mulher! Não há novidade: são as duas de trás da orelha! Ele há cada coisa.

– E ainda lhe conto mais...

Não tinham dado pela presença da rapariga e esta não deu sinal de si. Passou quase rentinha a elas, junto à porta da palheira.

Mais à frente, num largo adornado de um bebedouro para animais, estava um grupo de homens. Dois encostados a um muro, um sentado num pedregulho enorme e dois em pé. Um destes tinha a sacha pousada no chão e apoiava as mãos na extremidade do cabo. Cavaqueavam animadamente:

– O que fazia falta agora era outra boa zirboada de água, como a que veio!

– Ah! E é capaz que venha!

– Deus te ouça! Estamos em Outubro e dizer que só choveu agora! O Verão foi o fim do mundo em calor, água nem vê-la e mal vai se assim continuamos...

– Realmente! Estavam os poulinhos tão secos! Até me dava dó quando ia tanger a cria para o lameiro.

– Também a mim. Nem o outono medra! Olha que só de ontem para hoje já se nota bem: até parece que a erva fala! Bem precisamos que chova mais: o feno este ano foi uma miséria, a ração é cara como tudo...

– E as castanhas nem caem, nem os ouriços abrem! É uma miséria. A gente até tem medo de se chegar aos ouriços…

– Então, Rosalina? Já vens dó Souto!

– É verdade. Bom dia e vivam!

– Bom dia.

Quando Rosalina virou a esquina, viu a casa do Antero. Olhou a varanda e a escada a ver se descobria o rosto atrevido, moreno, duro e bolachudo do miúdo. Pousou o saco ao fundo da escada e deixou fluir as recordações que lhe vinham sobre o Antero. Via-o ainda a esbacejar e a berrar furioso com o Chico Zé que o massacra sem dó! Via-o ainda como um ser lesado na sua dignidade... como lhe subia ainda à tona aquela revolta impotente e dolorosa.

Rosalina sorriu, mas sorria ao Antero. Via a sua face redonda, embebida de um ar trocista e rebelde. Ouvia o palpitar de uns olhos tristes e descobria, na transparência de um brilho fosco, a auréola de inocência e o fio de candura dos seus cinco anos. Era bonito o Antero. A cara era um encanto. Quando vista neutra, o que raras vezes acontecia, os seus olhos enfeitavam-na como pérolas de uma jóia magnífica. Quando sorria era de uma beleza insuperável. Mas captar-lhe um sorriso? Rosalina lembrava-se de alguns bem raros. O nariz arrebitado era uma componente que perfeitamente condizia com o conjunto do seu rosto empinado e orgulhoso. O seu corpo era grácil e delgado, muito desenvolto e vivo. Poucas vezes vira aquela criança sentada e sossegada. Dir-se-ia que era movimentado por uma energia interior e especial. O que teria dentro?!... Sabia-se lá!

Fisicamente era difícil adivinhar a quem sairia. À mãe parecia que não. Era uma mulher solteira, muito espampanante, que morava lá para Lisboa e aparecia, de tempos a tempos, exibindo uns andrajos muito modernos e avançados demais para o conservadorismo aldeão.

– Ó valha-me Deus, com a mulher. Aparece-nos aqui este Chodairo que já não sabe de que maneira há-de meter nojo! – Exclamava o tio Júlio Rezingão, quando a via passar.

Sairia ao pai o Antero? E quem conhecia o pai? Ali na aldeia não, com certeza! À Áurea, sua irmã mais velha, é que ele não saía. Ele era moreno, de rosto magro, com uns olhos grandes e profundos, de cor castanho, como o cabelo, liso e revolto. Os olhos da Áurea eram azuis e o cabelo era loiro, de magníficos caracóis que a avó muito bem compunha nos dois totós que sempre exibia. A pele dela era ebúrnea, levemente rosada, para contrastar com a do Antero. Pela sua índole tímida e calma e pelo seu jeito pacato, todos a tratavam por Aurinha. Que irmãos tão diferentes! Ela era sossegada, sempre muito bem comportada... ele rebelde e desinquieto não fossem as palmadas da avó a entrar em ação com a regularidade requerida. Também o pai de Aurinha era incógnito de todos.

Por pai e mãe tratavam ambos os avós maternos que, com o pão, lhe davam também uma educação, o mais esmerada que sabiam, pelo menos em termos de aplicação dos corretivos julgados necessários. Traziam-nos sempre muito limpinhos e bem arranjados... mas o Antero parecia não se coadunar com a boa educação recebida. O tio Américo, de índole calma e pacífica, aparecia em palco poucas vezes a tratar destes assuntos, ao contrário da tia Beatriz cujas palmas das mãos estavam sempre operacionais para o que desse e viesse. Não tanto para a Aurinha que, ensosinha, lhes dava muito pouco uso, mas para o Antero que, volta e meia, fazia uma das suas.

Esconder-se atrás de um muro e atirar pedras às vacas que passavam no caminho, assustar os transeuntes, esconder objectos a pessoas descuidadas e outras destas... eram o prato preferido do rapazinho que serviam para por os nervos em pé ao pessoal que por ali transitava.

– Ó tia Beatriz, olhe que o seu Antero, anda-me a atirar pedras às vacas. Estava amouchado atrás da parede...

– Deixe estar! Eu já lhe digo como é! Ó Tero, Tero... anda cá, ladrão, que te quero fazer as contas. Hei-de-te esborraçar as nalgas!

O rapaz com cinco anos, já sabia as contas, de cor e salteadas. A coitada via-se grega para o apanhar mas, por fim, lá conseguia chapar-lhe com a sua surra habitual, cheia de ralhos e intimações, condimentada pelo alucinante choro do pequeno, que esbracejava e se contorcia. A um largo raio de distância os gritos do Antero faziam eco. Rosalina conseguia ouvi-los de sua casa. Antero tinha um modo de chorar único. Como ela o conhecia a léguas! Era como um choro desumano, mas ao mesmo tempo cheio de sentimento e expressividade.

Esberraca-te para aí, seu gandulo!

– Ó tia Beatriz, deixe lá o pequeno.

– É p’ra que aprenda! Bem podia ter aprendido já com as datas que tem levado! Tem de se lhe dar educação desde pequenos, senão bô! Bem bonda as que eles fazem sem ninguém ver. Hoje os raparigos são o diabo. Olha que p’ró mal tem eles corjidade, aprendem logo tudo.

– Lá isso...

Mas o Antero não era só vítima da avó. Ali à roda de casa, os vizinhos tinham o malfadado hábito de se divertirem com o rapaz e o uso, de instituído, tinha-se tornado quase um ritual; um passatempo favorito de uns quantos que, de todo o povo, frequentavam o café “Souto”, mesmo à porta do Antero.

Mas para o clube dos massacradores havia um pseudónimo. O que haviam de inventar?! Ao nome de Antero, quem é que não associa logo o do grande Antero de Quenttal? Pois não havia de ser certo que os tais senhores fossem admiradores deste portentoso personagem, mas, como de Quental para Quintal vai uma letra, o Quintal caiu em cima do Antero como uma luva! E vai de incitar o rapaz.

– Ó Quintal, Quintal! Anda cá, danado!

O Antero é que não se dava por achado e escapulia-se agressivo, desdenhando do chamamento. Começava então, a caça ao Quintal. Quanto mais difícil, mais emocionante. Encontrando-o a jeito, zás, malhava-se no chão! Umas vezes com cócegas ferozes, outras vezes contorcendo-o nos membros tenros, era um gozo inexplicável, para eles verem a criança no chão a berrar como um animal feroz, enquanto esbracejava desabridamente. Pontapeava as canelas de ferro dos seus algozes e debalde esmurrava os delicados nós dos dedos naqueles peitos de aço. Esta luta, da parte dos agressores era acompanhada de risotas que escoltavam a palavra “Quintal” dita compassadamente e timbradamente, num tom de escárnio e gozo felino.

Rosalina, que às vezes, assistia a tão cruel divertimento, ficava estarrecida, perante os gladiadores que faziam do caminho cheio de pó, lixo e excrementos, a arena para os seus prazeres selvagens. Quantas vezes ela se revoltava num silêncio impotente. Olhava o espectáculo, à espera de uma deixa. Quando o agressor resolvia mudar de tormento, Rosalina exclamava:

– Antero, anda cá!

Era assim que muitas vezes desarmava o autor da tortura. Ele olhava, desconfiado, e Antero aproveitava para uma fuga apressada: rebolava-se pelo chão e, fora do alcance das mãos que o não poupariam, corria para as saias de Rosalina, num relâmpago. Antero, ainda não refeito do seu esbracejamento mecânico, ou como num acesso de terror e revolta, dava a Rosalina pancadas por onde a apanhasse. Mas ela conhecia-o e pegava-lhe pelos braços. Sempre agarrado a ela, arrastava-o para longe dali, sentava-se numa pedra, punha-o em cima dos joelhos, sempre a balançar como um cavalinho desenfreado. Depois beliscava-o suavemente na face morena, limpava-lhe as lágrimas e o ranho e acariciava-lhe a testa suada. Sorrindo, convidava:

– Queres vir comigo até à Veiga?!

– E levas-me às carrichas?!

– Levo. E depois conto-te uma conta. Queres?!

Olha se não queria?! E Rosalina, paciente, levava-o e depois, sentava-se na parede a contar-lhe uma estória, gozando com o momento de paz que envolvia Antero no seu sossego de anjo. Apreciava-lhe o brilho fundo do olhar, cravado no seu, como duas estrelas cadentes que deixavam um rasto de energia atrás de si.

Não sabia porque se afeiçoara assim àquela criança. As velhotas admiravam-se de ela ser a única que, em certos momentos, o conquistava para que tivesse modos dignos. Quando ia à missa sentava-se ao seu lado e ela mantinha-o quase quieto, no colo.

– Ó Rosalina, olha que o garoto até se porta bem contigo. Tu que lhe fazes?! Ele é atraganado como tudo!

Ela sorria.

– Pois cuidado! Tu tens jeito p’rós raparigos. Olha amansar aquele lafrau!

Outras opiniões divergiam:

– Ó rapariga, deixa-te mas é de coisas! O garoto o que precisa é de educação. Umas nalgadas no rabo e toca a andar.

O que era a educação, afinal? Era acolher tanto o Antero, como a Aurinha como pessoas, dádivas preciosas, num mundo em que eram convidados a ser felizes.

Ao fundo da escada de Antero, Rosalina deixava escapar duas lágrimas. Lembrava-se da vez que vinha, tal como naquele dia, com uma saca de couves da cortinha dó Souto e, ao chegar ali, sentiu por detrás dela um empurrão valente que quase a tombou, mais pelo susto do que pela força empregue. De um salto avançou para a frente, estremecida. O que não se aguentou foi a saca, a qual rolou pelo chão, perdendo muito do seu conteúdo. Voltou-se, arreliada, e viu o safado do Antero (pois claro!) a espreitar a uma prudente distância, com um risinho safado. Naquele momento, a vontade de Rosalina era só uma: descalçar uma chinela e dar-lhe uma sova merecida. No entanto olhou-o e, exibindo um ar de tédio, baixou-se murmurando:

– Oh! E agora para apanhar estas couves?! Bem me podias ajudar, Antero!

Sabia que à primeira nunca pegava. O rebelde deixou-se estar, exibindo a sua dentuça branca. Rosalina não desistia:

– Ai, que eu sofro da coluna. Ó Antero, anda cá, dá-me uma ajudinha.

Ele ia-se chegando, sem no entanto se comprometer. Rosalina continuava:

– Vá, anda lá. Tu tens tanto jeito para dar nós às sacas.

Era a gota de água. Lá foi ele colocar-se ao seu lado e, depois de ele a ajudar a apanhar as couves, ela deixou que a ajudasse a apertar a saca a rebentar de conteúdo. Rosalina olhava-o deliciada porque via o seu olhar a transbordar de ternura. Quando no Domingo seguinte lhe disse, durante a catequese, que Jesus amava muito os pequeninos, ele perguntara:

– A mim também?

– A ti também Antero. Sobretudo a ti. Jesus gosta mesmo muito, muito de ti.

Foi na véspera em que morrera, atropelado. E nesse dia Antero soube que Jesus gostava mesmo muito, muito dele.

Quando Rosalina voltou a carregar a saca ao ombro, levava os olhos rasos de lágrimas. Sem que Rosalina se apercebesse, do cimo das escadas a tia Beatriz observava-a, também num pranto silencioso. Chamou-a. Rosalina voltou a pousar a saca e a tia Beatriz abraçou-se a ela soluçando. Trazia um papel quase amarrotado e entregou-lho. Por entre a água das lágrimas, Rosalina viu o que era: um desenho de criança. Representava uma menina com um saco às costas. E naquela hora recomeçou a chover!

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