A força da inocência

   

         “Envergonha-te soberba cinza: Deus abaixa-se e tu exaltas-te!” – exclama S. Bernardo ao meditar no mistério do lava-pés.

As traições começam tantas vezes na imaginação. Mas também a imaginação pode fazer resplandecer o mistério. É com este último objetivo que imagino a cena que passo a descrever. E se o tema também envolve a traição, a maldade e a fraqueza é a inocência que gostaria de convidar a presidir.

Judas está a observar como Jesus lava os pés a Tiago. Ri interiormente e pensa que o seu plano de entregar o Mestre é ideia para levar avante. O Mestre precisa de uma lição de realismo, acha ele. Não supõe que alguém o possa matar, pois acha que quando se vir em apuros irá reagir. Até tem pena do pobre Tiago que nem sabe como há-de colocar o pé. Já aconteceu o mesmo com Barnabé e com mais dois ou três por onde passou.

O escravo está encostado ao umbral da porta que dá para a cozinha, onde as mulheres se encontram a conferenciar baixinho. Um rio de lágrimas corre pela face do escravo. Segundo Judas sabe, o dono daquela casa deixou ordens expressas ao escravo. O Mestre pura e simplesmente as ignorou e é já a meio da refeição que pede uma toalha, uma bacia e uma jarra com água.

Judas pensa: “Mas porque é que Jesus deixa este homem aqui a chorar e ele, que se diz Mestre, está a fazer uma espécie de espetáculo ridículo? A exibir-se? Ai, aquela falta de jeito a segurar na jarra, aquele modo tão tosco de posicionar a toalha? Porque sujeita a isto estes tristes discípulos a quem fez andar por esse mundo fora, a enlamear os pés em tantos caminhos sujos, sem se importar com a sua higiene? Foi coisa que até deu falatório entre os fariseus! É justamente agora, na ceia pascal, que se lembra de lhes lavar os pés… Não, não vou alimentar esta comédia!” Pensa furtar-se, escapulindo-se pela porta da rua quando estiver perto a sua vez. Voltará a entrar mais tarde quando tudo estiver concluído.

Os seus pensamentos são atenuados pelo vaivém de uma criança que também está a enervar a sua paciência… e imagina que estará a massacrar a dos outros. Nem se duvida, a avaliar pela careta que o Mateus exibe! Mas ninguém diz nada. Então Jesus não atua? Não se dá ao incómodo de pôr ordem neste fedelho atrevido?! Nem o pai, o escravo, a quem continuam a correr lágrimas silenciosas pela cara de parvo?! Este homem, que deveria ser um laborioso servo, está aqui inerte, a segurar a parede, a esvair-se numas lágrimas ridículas, silenciosas, sem um soluço sequer! E o que faz aqui uma criança num momento que devia ser tão sério, tão solene e importante?

E ainda por cima uma menina! É a filha do escravo. Corre à cozinha, onde se avista uma tina de madeira, enche nela um copo de barro e volta até junto de Jesus a rir e a saltaricar. Espera que Jesus lhe estenda a jarra e despeja nela duas gotas de água, já que o grosso do conteúdo o derramou pelo caminho. Jesus faz-lhe uma festa nos caracóis negros e ela regressa àquele movimento rítmico e feliz, de olhos brilhantes que fazem inveja à magra luz das candeias. As candeias bruxuleantes animam as paredes e os objetos, como se fustigassem as sombras. Estas reagem amedrontadas.

Pedro é açoitado no olhar por aquele crepitar, enquanto observa Judas. Compreende que ele está a engendrar um qualquer projeto para provocar o Mestre. E odeia que ele o faça. Pensa travá-lo, talvez antecipar-se-lhe.

Judas já saiu, mas Pedro não pode, neste momento, segui-lo, pois o Mestre aparece subitamente diante de si com a bacia e a jarra na qual a menina coloca mais duas gotas. Nisto ouve-se a voz de Judas que, antes de descer as escadas, pergunta ao escravo:

– Porque estás aí a chorar sem tino? Temes porventura que o teu senhor te castigue por deixar que Jesus faça o teu trabalho?! Se há alguém que mereça castigo não és tu, eu te afianço. Deixa lá o teu choro…

O homem não responde. Olha-o perplexo. Mas há ainda um outro olhar que trespassa Judas. Vem de dentro da cozinha. É um olhar de mulher. Só agora a viu, a Mãe, que está junto à tina a encher o copo da criança. Ai como lhe dói a doçura deste olhar! Demora-se uns segundos, mas sente que lhe queima algo por dentro. Furta-se, debate-se, desprende-se e… foge. Judas foge do olhar da Mãe.

Pedro não percebe aquela troca de olhares. Pressente que Judas ainda esteja no patamar que antecede as escadas. Sente o roçagar da sua bolsa de moedas tilintar contra a parede. E Pedro fala alto, tentando que ele o possa ouvir, quando Jesus já se ajoelhou aos seus pés:

– Senhor, tu nunca me lavarás os pés!

Judas faz um esgar de irritação e desce as escadas como um tropel, para ser notado o seu desprezo.

Jesus responde com uma voz tão suave, que até arrepia. É a sua voz, bem conhecida; o seu timbre inconfundível de homem; a voz poderosa que conta parábolas desde o púlpito de uma montanha ou de um barco. Mas a voz de Jesus hoje tem uma nota de infância e de doçura, como se até tivesse pedido à menina emprestada a sua candura.

– Se Eu não te lavar, nada terás a haver comigo.

Diz-lhe, então, Simão Pedro:

– Ó Senhor! Não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!

Responde-lhe Jesus:

– Quem tomou banho não precisa de lavar senão os pés, pois está todo limpo. E vós estais limpos, mas não todos[1].

Na sala aquele diálogo é seguido pela criança que espera já com um novo copo para acrescentar à água do jarro.

Mal Judas volta a aparecer, vindo do exterior, o escravo repara no olhar sinistro que ele traz no rosto e, de mediato, se baixa e diz à criança:

– Filhinha, vai para dentro. Não incomodes mais o Mestre!

Mas Jesus replica-lhe:

– Deixa-a aqui connosco. A sua inocência faz-nos bem!

Judas tropeça na bacia que Jesus abandonara e a água derrama-se pelo chão. Atinge a menina no pé e esta desata a chorar. Não se sabe se Judas tropeçou ou se pontapeou a inocência. Mas ante o choro da criança, exclama com um laivo de troça:

– Quantas lágrimas! Quanta água será precisa para morrermos?

O escravo vai em auxílio da menina, mas Jesus antecipa-se-lhe e toma-a nos braços, acarinhando-a e limpando-lhe as lágrimas com a manga da sua túnica inconsútil.

– Deixa-a comigo. – diz-lhe.

A menina aconchega-se no regaço de Jesus e para de chorar. Jesus pede ao escravo que arrume as alfaias da lavagem dos pés e limpe a água que está derramada no chão.

Com a menina sentada no seu colo, Jesus volta a sentar-se à mesa. Judas também se senta. Jesus diz aos comensais:

– Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-me ‘o Mestre’ e ‘o Senhor’, e dizeis bem, porque o sou. Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.  Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.  Em verdade, em verdade vos digo, não é o servo mais do que o seu Senhor, nem o enviado mais do que aquele que o envia. Uma vez que sabeis isto, sereis felizes se o puserdes em prática. Não me refiro a todos vós. Eu bem sei quem escolhi, e há-de cumprir-se a Escritura[2].

Jesus olha a menina que suavemente adormecera nos seus braços e sorri para ela. Entretanto a Mãe entra na sala, trazendo um pano para enxugar a água do chão.  Aquela água suja da lavagem dos pés dos discípulos, recolhe-a como água sagrada dos seus percursos pela vida. Enxuga depois a água limpa, a água pura que a criança derramou a caminho da fonte.

Jesus troca com a Mãe um olhar denso, volta a pousar um sorriso no sono da menina e depois segura a expressão de Judas, que o fita como num confronto. De voz embargada, Jesus declara:

– Em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de entregar!

Os discípulos olham uns para os outros, sem saberem a quem se refere.

Pedro desperta de um certo torpor e desconfia de quem se tratará. Faz sinal a João para que pergunte a Jesus a quem se refere. Então ele, apoiando-se naturalmente sobre o peito de Jesus, pergunta:

– Senhor, quem é?

Jesus responde:

– É aquele a quem Eu der o bocado de pão ensopado.

 E molhando o bocado de pão, dá-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. E, logo após o bocado, entra nele Satanás. Jesus diz-lhe, então:

– O que tens a fazer fá-lo depressa.

Tendo tomado o bocado de pão, Judas sai logo. Faz-se noite[3].

A noite densa. Pedro pensa seguir Judas, para o deter, para o combater, mas no momento em que se vai levantar, Jesus pede-lhe que segure ele a menina adormecida. Pedro nem quer acreditar! Então ele que vai proteger o Mestre, é por ele detido! Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Jesus passa-lhe o corpo da menina para os braços, recomendando-lhe que a não deixe acordar. Pedro, desajeitado e rude, não pretende passar por mais uma humilhação de ser admoestado em público por Jesus. Transforma, como pode, o seu colo num berço, reveste de aconchego os seus braços e coloca as suas mãos num formato de trono, para acolher aquele fardo que Jesus lhe confia, como se confia um tesouro. Pedro senta-se com mil jeitos, com mil cuidados e, sem se dar conta, sente uma paz invadir-lhe o coração. Toma consciência daquele respirar pacífico, daquele ritmo de brisa contente que brinca naquele corpinho tenro.

Pedro lembra-se de como Jesus ama os pequeninos e aquilo que ele disse um dia: “Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe[4]. E Ainda: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, seria preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar.”[5]

Sente um peso enorme, que lhe vem da responsabilidade por aquele ser tão leve e pequenino. A menina ainda não fez três anos, chama-se Judite. Pedro olha aquelas pálpebras, como tampas de dois relicários onde repousam as pérolas dos seus olhos que ainda há pouco acendiam fagulhas no ambiente. Olha o nariz arrebitado, a latejar ao ritmo da respiração e os lábios que recentemente revelavam sorrisos musicais e gorgolejantes de alegria. A força da inocência toca a sua amargura e redime-a. Pedro esquece Judas e a preparação da traição, que adivinha, esquece que naquela noite há um peso inexplicável no ambiente. E pensa novamente nesta parábola em ação que Jesus lhes contou e que tanto recordará mais tarde. A parábola de lavar os pés.

Agora Pedro está em paz. Dali a nada ele e os outros hão-de sair para o combate. Mais tarde Pedro recordará que Jesus lhe concedeu a contemplação do sono de uma criança como remédio para a sua fraqueza.

A ceia terminou. Cantam os salmos e saem para o Jardim das Oliveiras. Por indicação de Jesus, Pedro passa a criança para o colo de Maria, a Mãe. Nesse ápice a menina acorda e dá um beijo na face de Pedro. Pouco depois Judas dará um beijo na face de Jesus e Pedro distingue a inocência e a maldade e não tardará a descobrir em si próprio a fraqueza.

Então Pedro conclui que a bondade alimenta a inocência. A inocência tem poder para fazer erguer a fraqueza, mas deixa-se matar pela maldade.

 

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

 

 



[1] Jo 13, 8-10

[2] Cfr. Jo 13, 13-18

[3] Cfr João 13:21-38. 30

[4] Mt 18, 5

[5] Mt 18, 6

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