A bilha da Samaritana
De uma qualquer narração há a generalizada espera de um final feliz. Gostamos de ficar a digerir o colorido de uma compostura literária sonhadora. Depois dos enredos dramáticos, das tribulações passadas pelos personagens, como é delicioso franquear-lhes uma vida perfeita, limpa de arestas e contrariedades, à imagem da que escolheríamos para nós mesmos. Mas as histórias com final feliz, se têm continuação, podem não ter sempre a mesma tonalidade do momento de exuberância em que os narradores decidiram colocar-lhes o ponto final.
Várias
vezes me tenho deparado com episódios em que os Evangelistas refletem como a
mensagem de Jesus, revira a vida daqueles que encontra. A alguns resolve-lhes
doenças, dilemas ou problemas, sem mais, mas a outros deixa a vida em aberto.
Porque a resolução de um embargo, não é um toque de mágica e pode desembocar
num autêntico momento de crise.
O
primeiro dos que me recordo é o de Maria de Nazaré, que recebe a visita de um
Anjo. Todas as palavras deslumbrantes e elogiosas do Anjo colocam a jovem numa
verdadeira turbulência íntima e a braços com a resolução da sua vida,
particularmente perante José, com quem tem de pé um compromisso. É que a
liberdade do outro, que está vinculada à nossa, necessita de ser resolvida
também!
Recordo-me
também daquele punhado de discípulos que Jesus chamou, alguns dos quais tinham
já uma vida organizada. O que tiveram eles de fazer, para encaixar aqueles com
quem já tinham vínculos indissolúveis, na vida nova que Jesus os desafia a
viver?! O caso de Pedro, que tem sogra e, por isso, pode ter uma esposa e uma
prole para alimentar, o caso de Mateus que tem um “contrato de trabalho"
com os Romanos, para os quais colige impostos, o caso de João e de André que
alimentam o negócio de família da pesca…
Outra
das histórias problemáticas é a da mulher adúltera, lavrada no Evangelho de
João, que não foi condenada por um apedrejamento sumário, mas que tem um marido
com o qual vai ter de se entender, com quem vai viver a meias com esta mácula
que talvez não lhe seja perdoada e que poderá, porventura, ter de suportar um
apedrejamento silencioso e lento.
Afinal
Jesus salva, mas deixa a vida dos salvados a braços com crises.
Outro
dos episódios em que nos podemos deter é o da mulher de Sicar. Depois daquele
empolgante encontro com Jesus, nunca ouvi alguém perguntar-se o que teria
acontecido a tal mulher, que teve cinco maridos e o que agora tem não lhe
pertence! Talvez não interesse tanto saber a continuidade da história, com
aquela curiosidade tranquila que hoje coscuvilha os mais enredosos arcanos da privacidade,
com aquela desfaçatez sôfrega que devassa a vida íntima, só para esquecer de
viver a própria. Mas pode valer a pena talvez desenhar um enredo, apenas para
colocar em equação a força que um encontro com Jesus pode provocar.
Pelo
Evangelho sabemos que há um primeiro movimento missionário. A mulher de Sicar
acreditou em Jesus – que é afinal a mais bela obra que podemos edificar (Cfr.
Jo 6, 29) – e, de imediato, foi anunciar ao povoado um encontro que marcou a
sua vida. Mas daqui outros desafios lhe virão! Terá ela força para colocar a
sua vida em ordem com um marido que não lhe pertence e a quem a interferência
de Jesus vai indiretamente afetar?! Não sabemos, mas podemos pôr-nos a imaginar
cenários plausíveis.
É neste
exercício de reflexão que segue o episódio do que poderá ter sido uma mulher
afetada pela mensagem de Jesus que, por seu turno, afetará o ambiente à sua
volta e a vida de outros. Vamos tentar?! Ora acompanhem-me nesta verdadeira
ousadia.
Deitou-se
tarde nesse dia. Despedira-se de Jesus e dos seus discípulos que partiriam de
madrugada, no dia seguinte. Para a mulher de Sicar, tudo parecia um sonho, mas
deitou-se em paz, e uma ternura de borboletas começou a apoderar-se do seu
estômago. Era altura de tomar decisões sérias quanto à sua vida e de colocar
tantas coisas no lugar. Uma imagem, uma ideia começou a desenhar-se no seu
sonho. No dia seguinte haveria de se levantar e colocar em marcha esse sonho
que sentia vir de Deus, do Deus que se adora em Garizin, em Jerusalém, mas
sobretudo em espírito e verdade!
Passou
uma semana. Estaria na altura de ele voltar. E ele chegou nesse dia em que o
sol copiara as agruras do dia em que Jesus aparecera. Quando chegou junto do
poço vinha extenuado. Fizera talvez umas dez horas de viagem, desde que
madrugara nas planícies de Abel Mehola e agora desembocava na acidentada
Samaria.
As
gargantas dos precipícios pareciam sugar-lhe toda a água do suor e o sol, que
aguçava os raios nas escarpas alcantiladas do caminho, ria-se do seu turbante
adoçado pela poeira. Parece que nunca tinha caminhado envolvido em tanta
poeira. Sentia-se sujo e assado até ao miolo dos ossos. Tudo era silêncio
tórrido à sua volta. Nem quase uma cobra assomava no abrasamento das arestas
que eram polidas pelas labaredas invisíveis de um ar em combustão.
Não se
lembrava de uma viagem tão abrasada, por isso foi quase aos tropeções que se
obrigou a vencer os últimos metros até desembocar junto do tão ansiado poço de
Sicar. Era meio dia. Tal como há uma semana atrás fora a hora de Jesus. Hora
perigosa para encontros em que o sol no zénite perscruta tudo e denuncia até os
refegos das intenções. Prendeu a égua ao tronco do sicómoro, tirou o turbante e
o manto, enlameados em suor e poeira, e abriu o alforge de onde extraiu uma
pequena bilha de barro, precipitando-se para a roldana do poço, com intenções
de afogar a sede, empastada de suor. Mas, mal se aproximou do poço, tudo
pareceu perder a preponderância face à descoberta de uma outra bilha que jazia
ao lado do bordo, junto à roldana, um pouco tombada contra um tufo de ervas
murchas. Ele conhecia aquela bilha. Só podia ser dela! Aquela falha junto à
asa, não dava para duvidar. Era dela, por isso calculou que estivesse perto.
Chamou confiante:
– Estás
aí?
Mas
nenhum som lhe retornou, além do eco das funduras do poço, com o qual quase
estremeceu. De facto, não se pressentia vivalma nas imediações, mas parecia-lhe
que não estava sozinho. Era improvável e, no entanto, irreprimível essa
sensação. Olhou novamente para todos os lados, tentando radiografar até os
arbustos murchos, castigados pela soalheira implacável. Nada. Ninguém! Era
estanho tudo aquilo. Não estar ela ali e ter deixado a bilha… o que poderia
significar?!
Com uma
certa apreensão, segurou a bilha dela e colocou-a em cima do bordo do poço.
Estava cheia de pó e um pouco atafulhada de ervas e cascalho. Não era
claramente uma presença recente. Parecia estar ali há dias. E foi então que se
assustou deveras. Ter-lhe-ia acontecido alguma coisa!? Instintivamente chamou
outra vez, pronunciando, agora, o nome dela. Mas o poço devolveu-lhe o nome
envolvido na humidade densa do bocal. Foi como se o nome amado lhe tivesse sido
devolvido… e depois seguiu-se um silêncio insuportável de que ele tentou
desembaraçar-se, deitando a sua própria bilha ao poço, depois de a ter amarrado
vigorosamente à corda e depois içando-a com a ajuda da roldana, que chiava a
cada solavanco.
Tomou
intimamente uma resolução, bebeu sofregamente e molhou a cabeça e o tronco, com
a deliciosa água fresca e depois encheu novamente a sua bilha e içou a da
samaritana que vinha a transbordar. Carregou as duas bilhas no alforge da égua
e dirigiu-se com ela à povoação.
Entrou
pela porta traseira que dava para o pequeno quintal cheio de produtos
hortícolas. Abriu a cancela, de que bem conhecia as manhas e os ruídos cavos, e
encontrou-se à porta que empurrou suavemente. Ela não cedeu, estava
trancada. Mas como lhe chegava aos
ouvidos, desde dentro, um tilintar de alfaias culinárias e aquele cheiro guloso
dos petiscos tantas vezes ali petiscados, bateu suavemente. O tilintar cessou e
a voz dela, a inconfundível voz, finalmente soou como um alívio:
– Quem
é?!
Ele como
que ficou petrificado com tal pergunta escusada e, a custo, ergueu a voz que
lhe saiu um murmúrio:
– Sou
eu…
– Eu,
quem?!
Ele
repetiu, mais alto, e a porta abriu-se, indecisa e lenta, deixando descerrar a
imagem que ele tanto ansiava ver.
Mas a
mulher da Samaria não se apresentou como habitualmente, num sorriso lânguido e
orgulhoso. Envergava uns trajes rudes de trabalho, como se estivesse ocupada
numa grande faina. Ele aproximou-se, brandindo as duas bilhas que ela lhe fez
colocar numa mesa baixa, à entrada da porta. Ela rodeou a mesa, de modo que
ficaram ambos frente a frente, com a mesa e as bilhas de permeio.
O olhar
dele era pasmo e não conseguia articular uma introdução àquele momento que lhe
parecia peculiar. Foi ela que se adiantou:
–
Tenho-me interrogado tanto sobre o que tu és na minha vida. Conclui que te amo
deveras e que quero continuar a amar-te, pois nenhum amor é impossível, como às
vezes as pessoas dizem. Deve é desenrolar-se dentro do projeto de Deus.
– O que
estás a dizer?! Claro que nos amamos!!! Estás tão estranha. O que te
aconteceu?!
– Mas
não vou continuar a desenvolver contigo um amor, que se alimenta dos prazeres
da carne. Não quero este estatuto vulgarmente conhecido por amante. Não me é
permitido… nem a ti. Porque tu tens uma esposa legítima a quem deves devotar
toda a tua atenção e dedicação. Tens filhos a quem deves dar um testemunho de
verdade e de correção nos caminhos de Deus…
– Que
esposa!? Já não tem graça aos meus olhos.
– Porque
os teus olhos perderam a graça e a capacidade de renovar o amor.
–
Surgiste tu como a graça dos meus olhos… E da minha família fazes parte tu
própria.
– Faço,
sim. Eu sei. Nunca deixarei de fazer parte. Mas terei o lugar que me compete.
Não tenho ilusões sobre o facto de que colocar as coisas no seu lugar me vai
custar, no entanto tenho forças porque te amo muito. Talvez se não te amasse
tanto seria mais difícil. Eu não peço a Deus que diminua o meu amor por ti, mas
que o faça aumentar de tal maneira que não pense em ti como uma fonte de prazer
fugidio, mas como uma pessoa digna de respeitar e digna de encaminhar para o
seu verdadeiro bem…
– O meu
verdadeiro bem é chegar a Sicar e encontrar-te…
– Não,
não é esse. O teu verdadeiro bem é teres harmonia familiar. É reencontrares a
tua esposa e viver com ela a reciprocidade de um amor que lhe prometeste.
– Não
sejas tola. Que palavras são essas?! Diz-me o que te aconteceu?!
–
Encontrei-me com Jesus e Ele fez-me ver a posição da minha vida dentro do
projeto de Deus. E nesse projeto é incorreta a forma como até aqui nos temos
relacionado eu e tu.
– Quem é
esse Jesus e que te fez ele?! Vou à sua procura e dizer-lhe umas verdades bem ditas.
Deixou-te irreconhecível! A dizer disparates…
Tentou
rodear a mesa e alcança-la. Ela esquivou-se, muito serenamente, e continuou:
– Quem
me dera, de facto, que te encontres com ele! Encontrarás a verdadeira vida. Ele
fez-me ver que não é justo que nos amemos sob a forma de um sentimento de
posse. O verdadeiro amor é livre.
– Sempre
te deixei livre na forma de te entregares a mim.
– Mas eu
não era livre na forma de desenvolver esse amor. A minha entrega a ti tinha uma
base ilegal e injusta, como poderia ser livre?!
– Temos
sido felizes, juntos. Não posso aceitar assim esta tua decisão, repentina e
radical. Não faz sentido. Olha, trouxe-te a bilha cheia de água… esqueceste-a.
–
Deixei-a lá há uma semana… depois de me ter encontrado com Jesus, o profeta da
Galileia.
– Ainda
não percebi quem é esse homem! Dizes que é profeta. O que faz ele com a
profecia? Transtorna as pessoas?! – perguntou ele com ar sobressaltado, o qual
se agravou quando um choro de criança golpeou o ambiente tenso que se estava a
gerar entre ambos. Apareceu por detrás da mulher, seguido da aparição da cara…
– Esta
criança não é filha daquele viúvo…
Ela
acenou com a cabeça em sinal afirmativo.
– Já não
entendo nada! Mas o que isto significa? – E o seu tom de voz ganhou um laivo de
angústia.
– Não
significa o que, de repente, te está a passar pela cabeça. Não tem nada a ver.
Pensei nos órfãos de Sicar e Jesus ajudou-me a dar este contributo. Nunca mais
precisei de ir à fonte porque o povo me traz água e me mimoseia com todos os
géneros de que preciso para alimentar os meus órfãos!
–
Os?!...
– Neste
momento tenho cinco crianças sob a minha guarda. Não achas que é a mais linda
forma de dar felicidade à minha viuvez?!
– Estou
desolado com a tua loucura! Esse homem transtornou-te e transtornou a minha
vida!
– Não
diria que me transtornou, mas que me transformou.
Ele
olhou-a com uma imensa tristeza.
– E
agora, o que hei-de fazer ao passar por Sicar?!
– Por
exemplo podes trazer-me uma bilha de água. – disse ela sorrindo. E sentou a
criança no colo, dando-lhe de beber, depois de deitar água num copo.
A mulher
começou a falar com a criança e, quando se voltou, já não o viu. Ele tinha
saído silenciosamente, desprendia a égua e seguia o seu caminho.
Não sei
se foi assim, mas poderia ter sido, porque quando Jesus nos chama não é para a
inutilidade, nem num sentido de negar o que somos, mas para um mais que nos faz
felizes e faz felizes os outros.



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