Uma rara guloseima

A Ir. Emília Santos sobe as escadas do autocarro e sente uma espécie de frio a descer pela perna esquerda. Mas nem tem tempo de acudir a esse sintoma porque um dos passageiros, que já se encontra no autocarro, a reconhece e saúda com vivacidade:

– Viva Irmãzinha Emília! Não me diga que veio à feira a Bragança, vender as cerejas de Vinhais?

– Boas tardes nos dê Deus, Sr. António! Já estou a ver o que o trouxe por cá! Foi boa a colheita de Tuizelo?

– Boa como sempre, Irmãzinha! Terra abençoada a de Tuizelo! Sabe que ali anda uma pessoa a semear e a assobiar e dá a terra tanto da semente como dos assobios! – Responde o homem de cariz humorista.

– Ah! Pode lá isso ser, Sr. António?! Só se for da sua alegria! – Ri a Ir. Emília, com gozo.

– Alegria sempre! Alegria produtiva! Mas desta vez não vim à feira p’ra vender! Sabe como diz o ditado: “A gente, queira ou não queira, tem de ir de burro à feira.”

– Vendeu o burro foi?!

– Burro vim e burro vou!

– Bem disposto é o Sr. António! E como vai a sua senhora e todos os seus, lá por casa?

– Com a graça de Deus, bem!

E, despedindo-se, a Ir. Emília vai escolher um lugar mais ou menos a meio do autocarro, onde há vários vazios. Enquanto se recosta no banco, junto à janela, a perna fria volta a dar de si. Oh! Isto deve ser do reumatismo! Como ele veio precocemente, pensa ela conformada. Sente que, atrás de si, se sentam duas senhoras muito faladoras a comentarem a carestia das miudezas, numa conversa de vitualhas domésticas, que nem entende. Como demoram a assentar arraiais, com o fru-fru de sacos e a acomodação dos tarecos que cantam queixas nos seus encontrões metálicos. Pouco atrás o mesmo tema da economia é levantado por uma voz masculina, tão grave que parece ter saído das entranhas da terra, a queixar-se do fraco resultado lá para as produções de gado bovino. Anui uma voz flautada, que até se assemelha ao ranger dos carros de bois quando vão carregados de feno – que a Ir. Emília ouviu um, ainda não há muito, quando teve de ir a Rio de Fornos! Mas no meio deste rebuliço da acomodação dos passageiros, a Ir. Emília abstrai-se e reza as suas orações pedindo a proteção de Deus para a viagem e para quantos se deslocam por esse mundo fora, quando o autocarro já inicia a marcha. Percorre com o olhar as ruas de Bragança que deixa muito ensolaradas, no pino das 14 horas e recorda os bons momentos que passou junto às Irmãs da Casa do Arco, onde foi almoçar, depois de se ter despachado da consulta. Como é bom ter Irmãs em Bragança! Ainda saboreia o carinho da Ir. S. Mateus que preparou um almoço delicioso – ovos verdes, nunca tinha comido! E o bom humor da Ir. Lúcia que a acolheu e fez a festa que só ela sabe fazer com o motivo, aparentemente tão banal, de acolherem uma Irmã do Hospital de Vinhais. Recorda ainda a mãe da Ir. Lúcia, aquela santa, a D. Isabel, que no fim do almoço lhes deu uma guloseima rara, de que já nem se lembra o nome. Era ver todas as Irmãs a desembrulhar e a atirar-se àquele pitéu. Pelo que percebeu, a D. Isabel dava-lhos com regularidade. O dela meteu-o ao bolso, pois quer presenteá-lo à sua superiora, a Ir. Auxiliadora, coitada, que ficou a arcar com o grosso das lides do Hospital, enquanto ela veio à consulta a Bragança.

Por pensar em hospital, está a abandonar o grosso urbano, logo depois da igreja do Loreto, e contempla as valentes obras que estão a fazer mesmo à saída de Bragança. Dizem que vai ser o novo hospital. Coisa grande! Ali há espaço à farta. E a distância da cidade até ali pouca é. O hospital de Vinhais também fica à saída… É bom não haver muita vizinhança, nestes sítios. Aparece ali cada coisa!

Atrás de si as duas mulheres, parece que de meia idade, encetam um novo tema de conversa – não tem como evitar ouvir! – sobre um galafate que engravidou a filha da vizinha de uma delas. A conversa é pormenorizada e não lhe dá muita devoção, mas a Ir. Emília mete a mão ao bolso para tirar o terço e repara que está frio e húmido. Mas que coisa! Será da sofagem que têm os autocarros… pois deve ser, ali mesmo ao lado da janela. Bem sente a perna fresca. Deve ser isso. Revolve e encontra rapidamente o terço, feito de caroços de azeitona que a Ir. Natália Pavão lhe deu – feito por ela – uma vez que foi a Macedo de Cavaleiros, e inicia a recitação dos mistérios gozosos, enquanto o autocarro já segue na reta de Grandais. Por ali fora, de Portela à ponte de Castrelos é um tirinho em marcha descendente, quando as conversadoras de serviço já vão no plano de casamento dos moços. Olha que bem ficava ali a contemplação das Bodas de Caná! Mas depois, a toque dos mistérios dolorosos, rangendo, o autocarro começa a subir. É que Vinhais já fica na encosta da Serra da Coroa, terra fria, por sinal! Por falar em fria, o raio da sofagem é bem brava ali ao lado da perna esquerda. Não se queixa – por que se havia de queixar? – desta frescura que até deve ser considerada uma coisa boa, mormente em inícios de verão.

Mas o pensamento da Ir. Emília retrocede ainda para a Casa do Arco e a alegria reinante daquele ambiente, cheio de raparigas e de gargalhadas. E já tantas usam calças. Apertadinhas em cima e a cair em boca de sino. Meu Deus, que modas! Mas que lhe importa?! Bem diferente é o ambiente do hospital onde trabalha, em Vinhais, cheio de dores e de gemidos, mas também é verdade, cheio de rostos a quem anunciar o Santíssimo Nome de Jesus. Gosta de ali trabalhar. As pessoas são boas e simples, quase como no seu Seixo de Mira de onde é natural. Oh! Graças a Deus, tem tanto campo para exercer a caridade! Chegam a Vila Verde e as conversadoras sobre o romance dos pombinhos preparam-se para se apear. Quando uma delas se levanta depara-se com a Ir. Emília e atira para a outra:

– Ai mulher, que tínhamos aqui uma freira! – Mas, reconhecendo a Ir. Emília, das suas escapadas ao hospital de Vinhais e vendo-a sorrir, meigamente, dirige-se-lhe com afeição: – Ó Irmãzinha, nem reparámos que estava aqui. Desculpe a nossa conversa.

Ela raia mais o sorriso:

– Felicidades para os noivos!

As duas mulheres tinham falado tão alto durante o percurso que, mal saíram, o autocarro parece, de repente, ter ficado vazio. Mais ao fundo ouve-se, agora distintamente, a conversa dos homens que antes aparecia apenas como uma surdina ambiental. Agora percebe-se que fazem planos para as ceifas, embora as espigas ainda tardem a amadurar. O de voz flautada diz que neste ano a colheita será boa, enquanto que o que trouxe a voz dos abismos da terra se queixa da grande ceifa que lhe fizeram ao bolso, no pagamento da décima que foi fazer às Finanças:

– Estes ladrões, os do Estado, não sabem como é dura a rabiça do arado!

Ela a rematar os mistérios dolorosos e eles a contemplarem a flagelação que o sector agrícola vai levando e pesando na vida dos transmontanos! É uma luta esta vida na terra, por isso tantos desertores para a emigração!

E, com estas meditações, já vai nos mistérios gloriosos, quando adverte a Capela de Santo António e, logo a seguir, a vista panorâmica de Vinhais abrigada pelo protetor monte da Ciradelha. Graças a Deus! A encosta desce até ao recinto do cemitério, que envolve a antiquíssima igreja de S. Fagundo. Em cima as ruínas da muralha onde fica a igreja matriz. Mais dois ou três quilómetros no percurso e a casa do Senhor Dr. Luís Borges já assoma, uma das primeiras da Vila. Chega ao largo dos Arrabaldes e o inconfundível Soto do Paco cheio de freguesia, como sempre. Lá vai a D. Amélia Taveira, muito elegante, com o seu penteado alto e impecável. Até se aposta que vem da cabeleireira.

Junto aos Paços do Concelho inicia a comprida rua dos Frades a rematar na igreja de S. Francisco com a sua célebre figueira, nascida junto à torre sineira que, dizem, é uma sentinela do fim do mundo. Crendices! Que ela não vai por aí. É viver o dia a dia, segundo os ensinamentos do Santo Evangelho e o resto são coisas que não nos devem ocupar a cabeça. Que ali algumas pessoas são muito cismáticas.

Lá fora acena-lhe a Miquinhas que certamente vem da farmácia Albuquerque a avaliar pelo saco que avoluma pendente do braço. É para prover ao rancho das tricotadeiras lá da casa. O autocarro para, com um safanão, mesmo em frente ao hospital. Ao levantar-se volta a sentir a perna esquerda fria como tudo. Valente sofagem! Põe a mão mesmo à borda da janela, mas não sente nenhuma aragem a bufar. Despede-se dos conhecidos que continuam a marcha e, mal sai, sente a face afagada pelo ambiente que está ameno. Olha o relógio. Já passa das três. Hora de lanchar. Nem cabe em si de contente só de pensar que vai dar à Ir. Auxiliadora a guloseima da D. Isabel Lopes. Mas que nem se lembra do nome daquela coisa… Ela saberá talvez, que é mais moderna. Tem obrigação: é enfermeira! Entra pela porta das traseiras e, ainda assim, leva com uma revoada de saudações.

A Ir.  Auxiliadora acabou de fazer o penso a um doente que foi golpeado, numa perna, por uma machada.

– O senhor, agora que vai para o verão, não precisa de lenha! – diz-lhe a enfermeira, não se sabe se em tom zombeteiro, se em admoestação. 

– Pois não Irmãzinha, mas tem de secar para o Inverno. – Diz-lhe o moço compenetrado das suas obrigações.

– Mas então, lá por Curopos, há-de ter boas touças, não é caso para fazer rachos da perna.

– Umas ricas touças, é verdade, mas um descuido... – Confirma o moço, enquanto ajuda a enfermeira a calçar-lhe a bota.

  Fica-lhe de emenda. Se Deus quiser estará boa a lenha e a perna para gozar de um bom calor no Inverno…

Já está quase nas quatro. O moço agradece e sai, desenvolto com as duas canadianas, dispensando a perna convalescente.

– Não tem muito serviço, agora, pois não?    Pergunta a Ir. Emília, mal o doente vira costas. – Venha lá lanchar.

– Ora, eu nunca lancho...

– Mas hoje tem de vir, que lhe trago aqui um miminho.

– Vamos lá então ver que especialidade aí traz.

– Eu já vi comer e parece que sabia bem.  Foi a D. Isabel Lopes, a mãe da Ir. Lúcia, que nos deu...

Entram no refeitório e a Ir.  Emília Santos vai buscar um pratinho para colocar a guloseima. Tudo solenidade.

– Onde está o miminho? – Pergunta a Ir. Auxiliadora já curiosa depois das primeiras revelações.

– Trago-o aqui no bolso. Mas vem embrulhado em papel. Foi onde meti o terço, vem em boa companhia.

Mete a mão ao bolso e treme quando não encontra nenhum volume. Apenas apalpa uma massa de papel molhado que tira para fora, surpreendida e magoada.

– Mas estava...  – diz embasbacada a olhar o pedaço de papel dentro do qual ainda descobre uma coisa dura. Abre-o e tira de lá um pau espalmado.

  Ah! Isso era um gelado!  – Exclama a Ir. Auxiliadora, afinal conhecedora da coisa. – A Irmã meteu-o no bolso?!

– Eu meti… não tinha outro sítio… Mas então, o que aconteceu a esta coisa?

– Derreteu, foi o que foi. A Irmã não tem a bata toda molhada e melada aí do lado do bolso?!

– Pois está, está! Então era isso. Oh, valha-me Deus! Bem tinha gostado que se consolasse.

– Oh, querida Irmã, só a sua caridosa intenção já valeu tudo. E sabe tão bem! Muito obrigada.

Riem com gozo e fraterna amizade e sentem-se repletas de paz, pois a consolação fraterna é mais calorosa delícia do que todos os gelados do mundo!

Em honra de Jesus Sacramentado. Amén!

Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs

in Florinhas da Congregação

#caridadefraterna              #amoraoproximo            #abnegação                #serviço

Comentários

  1. Adorei. Tão bem descrito este episódio, que eu vinha no autocarro do Porto para BRAGANÇA e parei de ler para fazer como Ela e rezar por todos os que vinhamos de viajem. Santa ingenuidade guardar o gelado no bolso...

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