O companheiro de Cléofas

Um sol morno de Primavera aquecia-se no ardor das folhas tenras, que mal tinham rebentado. Os ramos estreavam-nas, com gozo, ao evolar-se deles uma fragrância vigorosa. Tínhamos deixado o caminho, e o atalho oferecia-se, inóspito, descampado, estepe onde as pedras e os tojos não tinham acessos de meiguice. Havia flores esquecidas a pontear o matagal, inocentes e gráceis, que ninguém pudera ainda, certamente, elogiar. Submissas em gratuidade, podiam ser apelo a um tema que harpejasse as fibras da admiração. Mas não seríamos nós a reparar na sua beleza, tão lhana e pura, muito menos a fazer-lhe um comentário de enaltecimento. Não era em vida que eu e o meu companheiro pensávamos; quando muito numa sobrevivência, lata e lassa, a que desconhecíamos sentido e à qual nem a mais pequena acha de entusiasmo dava cor. Não havia palavras que recolhessem o gigantesco desapontamento que trazíamos dos dias precedentes. (…)

Ah! Essa terra traidora, que nos sugara um sangue essencial!... Porque é que se vivia, se tudo desembocava, implacavelmente, na mudez da morte? Que valiam as fadigas e afãs dos homens e mulheres sobre a terra, se ela acabava por os tragar sem remédio? Ser bom, ter ideais não passava de um delírio de vento, fugaz, quanto irreal.

O ceticismo de Quoelet, ante tudo o que o homem faz, debaixo do sol, vinha-me ao espírito com um realismo, como se me apunhalasse. As suas palavras, sobre a ilusão dos humanos, pareciam profecia talhada à nossa vida. Porque teria de ser assim?! Porque permitiria Deus a insensatez dos homens?!... A nossa e a dele. Ah! A dele porque fora longe de mais nas esperanças que nos dera e ao chegar a hora decisiva, não soubera desenvencilhar-se da emboscada. Por terra tombavam tantos sonhos. Porque nos acolhera o entusiasmo se não estava seguro de vencer? E se estava, porque não vencera? Mas nem era só a ele que eu culpava. Nós também tínhamos insensatez para expiar: a que nos envolvera como numa teia, por causa dessa sedução inexplicável, afinal de contas, leviana e inútil.

Depois da revolução operada nas nossas vidas, agora regressávamos à nossa pobre monotonia, sentindo-a já mais pesada e vazia. Se antes era pouco aquilo por que tínhamos consumido os dias, agora era uma infinita ausência ou orfandade a que estava a vazar-nos toda a alegria. E ter de admitir tal derrota perante aqueles que haviam testemunhado o fôlego entusiasmado, num seguimento que reputaram como duvidoso?!... Era duro vexame para nós. Apetecia-me chorar. Também era pena do Mestre, inocente, que tão tragicamente morrera, mas ainda mais por causa da minha aposta falhada e da esperança vazia que me traziam as perspetivas de um futuro sem substância.

Ao vencermos uma elevação, ergui a fronte, imprevidente, e o sol ofuscou-me a retina que tinha estado imersa na penumbra lúgubre das minhas pálpebras. Fechei os olhos, confundido. Mas o sol marcou um disco indelével, que rodava vertiginoso, ampliando-se, parecendo querer precipitar-se sobre mim, queimar-me. Abri os olhos, mas tal impressão parecia não se desvanecer. Dei conta que Cléofas tinha parado e eu parei também, atingido por essa impressão tão viva, que me ferira mais que aos olhos. Ele estava pesaroso, como os ramos da árvore que se debruçava sobre nós, os olhos fixos em qualquer ponto perdido. Tinha os olhos baços, com um brilho aguado e magoado, quando me apontou o planalto, solitário, onde esparsas árvores guardavam ecos. Reminiscências de uma consoladora hora transformavam-se em dardos de uma fria ausência. Tive medo, todo tremi quando ele disse, quase só num sussurro, também transido pela angústia:

– Foi aqui que tudo começou...

Já não era Jesus que estava ali presidindo às expectativas de um povo procurando a libertação. O local trazia-me, então, mais nítido, o sabor dessa hora em que, pressuroso, acudira ao local onde diziam estava falando um grande profeta... o mais maravilhoso homem que alguma vez se tinha visto. Verdade que viera quase cético, cansado que estava dessa mão romana a pesar sobre mim e o meu povo, e habituado a presenciar estratégias falhadas de libertadores a apregoar salvações que nunca vinham. Mas deslocara-me, nem que fosse só para não me abster, para manter ateado o fogo de uma resistente esperança. Mas com Jesus fora tudo diferente! Mal vi a sua postura, o seu estar... soube que ele se distinguia de todos os outros. (…)

Ao recordar-me do olhar de Jesus, no descampado, junto a Cléofas, o disco de ouro nos meus olhos, parecia refulgir em dardos que se cravavam em qualquer órgão que eu tivesse dentro, e não sabia onde, porque me sentia vazio. E os meus olhos puxaram-me, desde dentro, um líquido salgado que ainda encontraram na minha secura.

Naquele remoto momento eu não regressara à minha terra, mas o meu espaço ficara a ser aquele que ele ia abençoando com os seus passos incansáveis, ou o seu sereno reclinar de cabeça. Não fora decisão fácil de tomar e muito menos de traduzir no dia a dia, mas fora a única que pudera encontrar no meu coração seduzido. A minha posição era fácil de descrever: um homem comum, cansado do peso de um jugo injusto e cruel e cheio de fé numa libertação que Deus iria providenciar. Nas palavras de Jesus parecia-me luzir o sinal. Na majestade da sua pessoa via o perfil carismático de um enviado de Deus, um libertador. Iria Jesus libertar-nos do jugo romano? Era a primeira conclusão que lia, dentro do espaço de segurança que sentia em Jesus. Mas até a par desta suspeita, de tão imediata apreensão, eu conseguia vislumbrar mais nele. Não sabia o que era. Não tinha capacidade para desejar mais e nem me atrevia a confrontar-me com tal questão que me era muito privada e íntima. Com ele, minha vida mudou radicalmente. Se antes o dia a dia era insípido e monótono, com Jesus havia um fogo de entusiasmo que coloria a sucessão dos momentos. (…)

Jesus nunca nos falara em armas ou em táticas guerreiras. A sua linguagem ia-se por comparações agrícolas, contemplação da natureza e passeios por entre os lugares pouco visitados da nossa consciência. O Mestre fazia-nos entrar em nós mesmos e, sem nos coagir, obrigava-nos a incursões assustadoras pelo nosso íntimo. Que homem! Entrava nas casas dos pecadores, dava atenção aos simples, aos pobres, aos doentes, aventurava-se nos territórios proibidos da Samaria e até atendia os Romanos que lhe pediam favores. Interrogávamo-nos se seria uma estratégia, e que estratégia seria a sua. Mas ele não nos falava de guerra, apenas desse confronto com os inimigos íntimos de cada vida... Continuávamos a esperar num horizonte aberto, incompreensível, mas repleto de esperança. A verdade é que ele tinha o povo na mão! A uma simples palavra, se lhe sujeitariam exércitos, disponíveis para lutar resistentemente contra legiões de romanos! Não se verificara bem isso quando entráramos em Jerusalém? Todos pressentíamos que a Páscoa seria um momento decisivo. Este da entrada triunfal na cidade santa trouxera-nos bons augúrios. Porém, havia algo que não batia consoante a nossa lógica. (…)

Ah! Tentava afastar e apagar a imagem do Mestre da minha memória. Mas um brilho interior de sol escaldante misturava-se com as lágrimas e a face fervia-me. Não queria sofrer, queria iniciar uma nova vida e naquele momento em que Cléofas me apontava o descampado a gemer uma ausência, ali ao recordar aquela ceia... sentia-o numa agudeza que me trespassava. O sol, o sol a queimar-me como um olhar que, apesar de ser lembrança, parecia tão real, tão presente, acutilante e tenaz. Queimavam-me os seus olhos de fogo, esses que vi na hora da íntima despedida. Eu amava o Mestre. Não obstante o estranhar tantas vezes, ainda que me custasse a compreendê-lo...

Aquele gesto de nos lavar os pés, chocou-nos profundamente. Anos que me levem vitalidade, memória e energia, não poderão, por certo, apagar do meu próprio ser (tão entranhado aí ficou!) o ambiente que nos envolveu durante aquela ceia. Que ternura infinita, que solicita delicadeza! Como ele nos amava... nessa noite demonstrou-o tão bem. Não sabíamos o que pensar, como reagir, perante as palavras pesadas de despedida. Porque (agora entendo) era uma despedida diferente de todas as despedidas que os humanos possam fazer entre si. Era a despedida de alguém que nunca poderia largar-nos. Nós sentíamos a força da presença de Jesus, mas não a líamos. A bem dizer não nos cabia na cabeça que Jesus pudesse ser capturado e entregue, quanto mais sofrer o que sofreu! Não lhe demos atenção suficiente, não tivemos capacidade para abarcar a densidade do que ali aconteceu. Bebíamos as suas palavras sofregamente, porém elas não cabiam dentro de nós; seguíamo-las, mas não as atingíamos. E os gestos?! Uma ceia diferente, em que o Pão e o Vinho tinham um sabor novo e nos uniram tanto. Ele dera graças e dissera ser o pão o seu corpo e o vinho o seu sangue. Que quereria dizer com isso? Era só um símbolo, ou seria mais?... Porque é que a viva presença de Jesus parecia trespassar-nos? De novo o corpo e o sangue... comida e bebida, como naquele discurso escandaloso. Mas a ceia... naquele pão tão real, naquele vinho fabricado de uvas, o seu Corpo, o seu Sangue? Como?!

Porque é que naquele pão, ingerido, palpitava uma força que nos fazia vibrar as entranhas? Porque é que naquele vinho nós sentíamos a seiva do universo? Ainda me é embaraçoso descrever esta vivência porque aquela ceia significou uma densidade tão grande, tão grande, que ela se poderia espalhar pelos séculos passados e futuros sem perder uma nesga da sua plenitude. E não era verdade que todo o terreno do universo e do tempo nos possuíam?!

Muitos de nós achavam que Jesus estava a ser dramático demais ao admitir uma morte dolorosa, e mesmo quando nos falou de cumprirem-se as Escrituras, não o levámos a sério. Tão pouco se nos abriram os olhos quando ocorreu aquele diálogo, árido e tenso, entre Jesus e Judas. Sabíamos que Judas esperava, quanto nós, a manifestação gloriosa de Jesus mas, ainda assim, aquela frieza que levava no olhar ao sair, nada ou muito pouco nos disse...

No descampado, a caminho de Emaús, quando o sol nada me mostrava e tais recordações me acudiam à mente, uma saudade funda de Jesus me apertava o coração e os olhos espremidos por essa vaga tão forte, continuavam a perder lágrimas. Os olhos de Cléofas também não estavam enxutos, porque aquela ceia abrira-nos uma fome, e não prevíamos que pudesse ser saciada por qualquer contingência que nos aguardasse. (…)

Depois veio toda a maquinaria da traição, da condenação e da paixão e morte. Todos os discípulos nos abandonámos à passividade. Certamente também era medo à mistura, mas, mais do que isso, era uma incapacidade absoluta. Se Jesus se deixara levar, decerto algo de significativo e decididamente decisivo iria passar-se. (…)

Depois de tudo o que aconteceu ainda o víamos na Cruz e queríamos aguardar um momento de vitória. Mas quando o vimos pender a cabeça e o soldado trespassar-lhe o lado, foi como se uma espessa noite nos toldasse a vida. Com o escuro que se abateu sobre o Gólgota, o tremor de terra e o ambiente agitado, parecia dissolver-se, irreversivelmente, um sonho que nos trouxera tanta efusão de entusiasmo. Tudo parecera tão consistente e, afinal, fora ilusão, fatuidade?! Sentíamo-nos derrotados, burlados. Mas ainda mais do que isso... perdidos, baralhados... Como se o caminho que nos levaria a um paraíso tivesse sido fendido. O fosso era agora intransponível e não havia sentidos onde avistássemos vias, quanto mais metas! Não havia paraísos no nosso horizonte.

Ao outro dia permanecêramos em Jerusalém, porque o peso da desilusão era insuportável e aquela amargura só podia ser partilhada com quem atravessara a mesma experiência. Mas tudo eram medos e desconfianças. As represálias dos executores da morte de Jesus podiam muito bem continuar nos discípulos, dado o sucesso alcançado com o Mestre. Eliminá-lo tinha sido um objetivo. Não estaria, por certo, concluída a operação sem que os mentores se assegurassem que não havia sementes em perigo de germinar. Por isso, nesse primeiro dia da semana, eu e Cléofas decidimos abandonar Jerusalém e desligar-nos, em definitivo, com tudo o que dissesse respeito a Jesus. Houve ainda outro fator que pesou na nossa decisão: logo pela manhã, umas mulheres do nosso grupo apareceram com novidades extravagantes, informando que o corpo de Jesus havia desaparecido e que tinham tido umas revelações que afirmavam que ele estava vivo. Gerou-se agitação no grupo. Eu e Cleofás achámos que esta história vinha revolver ainda mais a nossa dor. Achávamos que era preciso esquecer tudo... e regressar à vida. Pedro e João tinham ido ao sepulcro verificar e, ao virem, confirmaram que o corpo não estava lá. A mim, estes factos cheiravam-me a emboscada, macabra e de mau gosto. Perigosa. Quando o disse a Cléofas a nossa pressa em sair de Jerusalém recrudescera... Mas a caminhada empreendida não nos estava dando assim tantas perspetivas de vida.

Depois de passar em revista aquele local que trouxera à nossa existência o movimento mais grandioso e o seu oposto, continuámos o caminho. Deixámos a estepe morna, onde as ralas sombras de arbustos iam crescendo com a sonolência do sol e regressámos à estrada. Abastecidos de recordações, começou a desenrolar-se entre nós esse duro diálogo de pesar e de melancolia que, a certo ponto, foi surpreendido por um estranho. Não percebemos como se acercara de nós. Assustámo-nos, a princípio, mas depois de lhe ouvirmos algumas palavras e de sentirmos a sua penetrante presença, o desconforto de estar perante um desconhecido, converteu-se, incrivelmente, numa certa segurança ou alívio... Era estranho o modo discreto e instantâneo como aparecera; era estranha a sua forma de estar ali; era estranho que nada soubesse do que havia acontecido... Mas Cléofas não teve pejo em lhe abrir o segredo que nos fazia caminhar tristes e pesarosos. Nem por sombras nos passou pela cabeça que o forasteiro fosse da casta dos perseguidores do Mestre, mas também não foi por desleixo ou imprudência que lhe abrimos o coração! Podia ser improvável, mas era tão evidente que aquele homem vinha salvar-nos. E era tão manifesta essa impressão! Aquela presença era-nos familiar, tão forte e vigorosa, parecia natural e, com Cléofas, deixei-me envolver na voragem das palavras que traziam um calor novo à nossa vitalidade definhada.

Percebemos que seria descabido, sem jeito, pedir qualquer identificação àquele companheiro de viagem. Não nos perguntou onde íamos, nem nós lho dissemos, nem tão pouco lhe pedimos informações sobre o destino que levava. Acolhemos com uma sede os seus passos tão certos e determinados, parecendo-nos que a nossa meta era a dele. É que, de um momento para o outro, dávamo-nos conta (ainda informalmente) que tínhamos meta... e não era Emaús que ocupava o nosso espírito.

Isaías e os profetas. Os salmos e a história do nosso povo repassada de claridade nos lábios daquele homem que, ao pousarem nos acontecimentos donde trazíamos a derrota, nos eram intervenções de luz. “Não tinha o Messias que sofrer?!...” Com uma agilidade impressionante, nem nos apercebíamos que estávamos a reviver, com toda a intensidade, aquela aventura que, ainda há momentos atrás, recordáramos com nostalgia e pesar.

O caminho foi suave e desenvolto na companhia daquele homem tão humano, que porém, superava o quê da contingência do ser físico. Começámos com dificuldade a abordar o acontecimento tão maravilhoso, quanto inesperado... Mas tudo foi acontecendo à medida que evoluía a nossa capacidade interior. Foi uma experiência impossível de traduzir por vocábulos humanos. Primeiro era um raio que bulia na nossa mecha apagada. Foi alastrando, sem que seguíssemos as proporções que estava tomando. Depois tornou-se um fogo abrasador, prenúncio de uma plenitude que seria impossível defraudar. Sentia-me leve, tão leve me ia sentindo! Eu soube que em Cléofas estava a acontecer milagre semelhante, quando vi a sua face afogueada e o dinamismo do seu brilho de olhar já vivo. Mas não tinha tempo de me deter em Cléofas, porque o turbilhão tanto me urgia.

(…) Não acompanháramos o sol, nem déramos conta de que se escondera, porque uma madrugada tão efetiva nos estava a servir um dia luminoso. Emaús ali à frente! E um tesouro a renascer-nos nas mãos, junto com um medo calejado de o perder. Era uma luz quente que nos trespassava os caminhos do interior, que o caminho de terra batida trouxera-nos a uma meta tão pequena. Onde iria o estranho?! A nossa paragem impunha-se, porém tudo em nós era apelo premente àquela escalada... Tudo pareciam prelúdios de uma revelação que nos dava fome. A fome devorava-nos, depois daquela refeição de luz! Era decisiva esta conquista e o pavor do escuro da vida, ainda arrepiante, causava-nos tal temor, como se da morte ou de uma irreversível aniquilação.

Ele fez menção de avançar. Porém, aquela intuição fez-nos perceber a ambos que era vital o apelo que tínhamos de fazer: “Fica, connosco, porque anoitece!” Parecia que era o nosso desvelo a acautelar do escuro, quem era todo luz. Para alívio nosso, ele ficou connosco. Que bom ter sido assim. Porque, se à partida, ele tivesse ficado, sem a nossa intervenção enérgica e suplicante, porventura não nos daríamos conta, com tanta intensidade, como aquela Presença nos sustinha a fragilidade, a debilidade interior. Assim, aquele rasgo de lucidez fez-nos responsáveis pelo agarrar da luz que estava a resgatar o dinamismo vital que já nos habitara e que, de novo, sentíamos remexer nas nossas veias. Era verdade que aquele homem estava a mudar as nossas vidas de alto a baixo, mas não faltava uma consumação essencial?! Foi essa intuição que nos fez verter aquele grito tão sincero... fica connosco!

A ceia aconteceu, então. Não era estranha aquela sensação de estar a reviver um momento que já tocara as nossas entranhas? Sim, era verdade, más eu e Cléofas não tínhamos como procurar de onde vinha essa referência ao nosso espírito. Era total a avidez da entrega àquela ceia, onde o que verdadeiramente nos saciava era mais que o pão vulgar. A presença daquele companheiro agasalhava-nos e fazia-nos provar um gosto de estar a salvo. (…) A intuição que nascera e que crescia vertiginosamente era que o nosso interlocutor resolvia essa parte de nós à espera de uma realização bem ambiciosa... tão para lá de circunstâncias e de fases, de conceitos e factos. Quase como com... Não a imagem de Jesus, à nossa lembrança, acenava ainda no meio de uma batalha entre dois quadros, cujas acentuações cromáticas, acesas, intermitentes se interpunham. O Messias da esperança, dos prodígios e da palavra inflamada, ainda era acometido pela cena vivíssima do Calvário. (…)

De repente o homem pegou no pão e deu graças, fazendo o mesmo com o vinho e no momento em que connosco o repartia, o pão confundiu-se com o sol que eu trazia aceso nos meus olhos. Um pão luminoso e quente que me fundia, que fundia Cléofas num mar sem fim, que nos dava acolhimento e consistência. De repente, vertiginosamente, aconteceu um milagre tão grato e doce: como se até aí os olhos estivessem enevoados por um véu, como se a cegueira súbita para a vida, nos toldasse a compreensão elementar do mais sublime, descerrou-se à nossa frente a imagem clara e inequívoca de Jesus. Era óbvio que era ele! Aquela intuição mansinha e fecunda que nos acompanhara no caminho e que crescera no apogeu dessa ceia até explodir na revelação mais maravilhosa, era nova, estreada, mas já demandara a nossa participação dias antes!... Era a mesma, era a mesma ceia. Era o mesmo Mestre que nos estava a alimentar. Um sorriso rasgou, em definitivo, os nossos rostos, afeiados e envelhecidos pela desilusão e o olhar revestiu-se-nos de juventude.

Antes que lhe pudéssemos falar, antes que tivéssemos tempo para tocar as mãos, onde só agora advertíamos as feridas da hora dolorosa, com a mesma discrição e subtileza, a imagem de Jesus desvaneceu-se aos nossos olhos. Mas só a imagem, porque a Presença que nos envolvia tinha a mesma agudeza. Era essa Presença que continuava a suster a nossa vida, pois embora uns laivos de força nos prometessem caminho, era incipiente essa segurança interior. A evidência da presença de Jesus fazia-nos considerar a reprovável cegueira que no-lo tinha ocultado no caminho. “Não nos ardia cá dentro o coração...?” Não era evidente? Ah! Tão perto de Deus e não O atingíamos! Se não tivéssemos visto Jesus desaparecer da nossa vista, talvez nunca conseguíssemos identificar a cor da atmosfera que nos rodeia, essa força efetiva que pulsa nas coisas e no ar, essa vida que se esconde para lá de tudo e em tudo, que tudo suporta e que se mostra no movimento intenso do mundo, essa companhia que se interpõe irresistível na existência de cada um. Chamar-lhe-íamos nomes; por certo, dissertaríamos sobre ela, palavras num circuito que, se calhar, não atingiria o centro, o alvo; esconderíamos sob um ceticismo razoável, artificioso, o maior milagre do universo?! Mas nada estava completo... porque havia espaço para construir. O tempo não nos fechava a porta, porque ela fora aberta por uma entrada no definitivo. Jesus abrira-nos a senda. Como avaliaríamos esta erupção da verdade? Como encaminharíamos a sede de uma meta eterna? O Pão congregara-nos, alimentara-nos...

Alimentados por Jesus, à uma erguemo-nos jubilosos e novos. Homens atreitos ao desespero e, contudo, capazes da esperança! Jesus estava connosco e o pensamento voltou-se para o espaço onde, decididamente, pertencíamos: o grupo dos discípulos de Jesus. Era preciso regressar a Jerusalém. Era impossível protelar esta alegria incontível. Não podíamos esperar pela manhã. E da noite nada tínhamos a temer. Não, não tinha sido o medo do escuro que antes nos fizera pedir ao forasteiro companhia; porém o escuro dos nossos medos é que nos atafulhara o vigor. Prova foi que, de imediato, abandonámos Emaús e os nossos passos, alados, consumiam a distância, num espaço bem mais submerso na noite, sem lhe questionarem o seu negrume. Esse espaço era de um acolhimento fácil e agradável, era o palácio que nos abrigava junto e naquela Presença de indubitável permanência, que aos olhos não demandava ilusão. Dia ou noite que fossem, não teriam mão nesse sopro demasiado denso que sentíamos roçar a nossa pele e até as nossas vísceras. E esta certeza era tão imensa que não a podíamos reter no acanhamento da nossa morada. A velocidade dos nossos pés não vinha deles, vinha dela. A certeza potenciava-os. E eles solfejavam a sua plenitude. É que não se tratava de uma sublime pontada presa ao circunstancial, era o movimento imparável que reconciliava o temporal e o eterno. Era sim, também uma vitória pessoal, personalizada, mas que, em vez de nos prender ao saborear doméstico, nos remetia a um irrenunciável fogo universal.

Era noite, de Emaús para Jerusalém. Mas a noite guardava o íntimo segredo de engendrar madrugadas. Era preciso que os dias fossem novos. Era preciso renovar os dias, para que os humanos não adormecessem numa encalhada rotina. A Luz é só uma... Amanheceu!

 Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs, in “Olhar de Fogo”

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