Os sapatos da Páscoa
Olhei os sapatos uma vez mais antes de os meter na caixa.
Que lindos! Era para estrear no dia de Páscoa… “Se estiver o tempo bom!” Dizia
a minha mãe. E esta cláusula deixava periclitante a minha expectativa acesa
desde o Natal, quando na feira do 23 de dezembro fora comprá-los a um tendeiro,
já em fim de manhã, por um precinho de saldo, para despachar a mercadoria. A
minha mãe já não mos tinha deixado estrear no Ano Novo, pois dizia que iria
arruinar a sua beleza no lodo dos caminhos, mas o sol de final de março, que
espreitava, mesmo frio e nervoso, estava a evaporar o lamaçal, para as pisadas
pascais.Passou o Domingo de Ramos e as mimosas acabadas de florir
já espalham um perfume denso pelo ar. O cuco ensaia as suas árias lá para os
lados das touças dó Castelo e os montes substituem a brancura da geada pelos
rebentos de giesta e das estevas, pintalgando-se de urzes roxas, com ponteados
amarelos de florinhas pascais. Como poderei não estrear os meus sapatos no dia
de Páscoa se os caminhos se estão todos a tornar tão novos?!
Afago o cabedal branco, que evolava um perfume a novo,
antes de os meter novamente na caixa. Têm um aplique de metal na gáspea e uns
berloques vermelhos lá pendurados. Umas borlas de cabedal. E é a vivacidade do
vermelho que lhe dão tanta beleza aos meus olhos. Espreito as solas. Tudo
limpinho para pisar o chão da igreja, quando os sinos estiverem doidos de
embriaguez pascal e as flores, que a Mariquinhas e a tia Luísa hão de colocar, estonteiem
de perfume na nave solene. Pois nem a chuva me vai trair nem o sol deixará de
comparecer com uma força resplandecente!
O Sábado de Aleluia é uma luta para de manhã fazer as
últimas orações quaresmais na Igreja e de tarde para esfregar a casa. Mas o dia
de Páscoa aparece como um presente com que Deus me sorri e é com exultação que
me preparo para a Missa festiva. A saia vermelha, plissada, de um terylene
grosso ainda está bem boa e combino-a com aquela camisa branca que aperta no
pescoço com um laçarote. A minha mãe compõe o traje:
– Olha que ainda está frio! Isso é tudo muito fresco. Só
se levares o casaco azul escuro, que te agasalha mais.
Pressinto que o casaco azul escuro, de fazenda, não
combina tão bem com a restante toalete, mas como o guarda-fatos não abunda em
escolhas, arrisco levar um casaco beije claro, de malha trabalhada, que só se
usa nas festas.
– Esse é muito fino! Vais ter frio na Igreja. – Alvitra a
minha mãe.
– Está tanto sol!
– Dentro da Igreja duvido muito. Leva o azul para a missa
e depois vestes o outro.
Aceito a proposta, até porque a grande atração do meu dia
são os sapatinhos brancos de berloque vermelho. Que me importam os casacos?
O Chiribi manobra os sinos com imensa beleza, no alto do
campanário, depois do luto do Sagrado Tríduo, quando só a matraca chamava o
povo à Igreja, desde Quinta-feira Santa. Vivi os mistérios da Paixão e Morte de
Jesus com tanta intensidade que agora o dia sorri naquele Sol tão claro e
feliz! Cristo Ressuscitou, diz o Pe. Mário desde os seus paramentos mais nobres
e tudo o confirma com veemência. O Tonho anima tudo com aleluias, desde o banco
onde um punhado de moças com ele fazem coro, lá no presbitério. Como cantadeiras
honorárias, a Tia Ana e a Tia Etelvina exibem os seus trinados luminosos. O
Manuel da Barreira canta o salmo numa voz de querubim. A Jacinta de Quintela e
a Dilma vão ler a Epístola, moças que têm muito boa dicção e encantam a
assembleia nos anúncios da ressurreição.
Eu fico cá trás, nos bancos das mulheres, com a minha mãe,
a apreciar o Padre Mário a celebrar, na sua bondade irradiante, e a fazer a sua
homilia cheia de palavras que a gente entende. Fiz bem trazer o casaco azul
escuro porque a nave do templo, gélida e húmida das lavagens da véspera,
deixa-me a pele dos braços em “couro de pita”.
Mal saímos o ar é mais quente, e os perfumes de ressurreição
desprendem-se dos vestidos novos das moças, cuja nesga de beleza já se
adivinhara na penumbra, mas que à luz do sol deslumbram, em claridade e cor.
Exalam o cheiro que nas gavetas tinham amargado a reclusão, entre ervas de
lavanda e bolas de naftalina. E depois são os risos cristalinos que impregnam
as saudações pascais, bordadas de aleluias, não tardando a ser abafadas pela
doidez dos sinos que libertam o silêncio contido no Sagrado Tríduo.
Uma carrada de moços subira o campanário da Igreja para
desenferrujar os badalos. No final do dia é que devem estar quentes, esses
mastros do som, que esventram o ar até por ele levar a voz de Deus ao fundo do
povo! E até talvez aos arrabaldes de Prada! E de Quintela. Na Missa está um
punhado de fregueses de Quintela, que eles vão ter a sua visita Pascal ainda ao
final deste dia.
Meu Deus, que barulheira fazem os moços que subiram o
campanário! Abafam as conversas tão apetecidas e o riso que o luto da Semana
Santa tinha reprimido. Mas tocam de uma forma abrutalhada! Não é como a arte
fina do Chiribi quando chama o povo para a Missa com os seus repiques, medidos
e cuidados, que fazem o sino, literalmente, falar, ou melhor, cantar! Tudo
coloca as mãos nos ouvidos sem ouvir conversa de lá para cá.
Nisto já sai da sacristia o grupo que acompanha o Pe.
Mário, muito festivos como a cor do dia, nas suas opas brancas. O Eduardo de
Carralcova vai à frente, com a campainha anunciadora da aproximação dos passos
do Senhor, depois o João dos Porilas com a Cruz Paroquial, bem enfeitada de
goivos e jacintos e uns apontamentos de mimosa amarela, que a Mariquinhas muito
ternamente proveu em honra do Senhor Ressuscitado. É a cruz florida da vitória
de Jesus sobre a morte. Vai também o tio Orlando com o saco misterioso da
economia, muito discretinho debaixo dos seus recônditos bolsos. O Aniceto e o
Tonho vão atentos para render qualquer tarefa no meio dos cansaços do dia e
compor a Delegação. Vai ainda o Guto de Carralcova com a caldeirinha de água
benta, não largando o flanco esquerdo do Padre Mário, muito chegadinho aos seus
movimentos, não vá o sacerdote querer sacar já do seu hissope abençoador! O
Padre Mário, com a sua face bondosa e sorridente, passa pelo adro
cumprimentando, à direita e à esquerda, as suas ovelhas de que bem conhece o
cheiro.
A tia Maria de Lurdes e a filha já abalaram, há que
tempos, bem como as moças dos Caetanos e a gente dá Pedra, a acabar de ajeitar as
suas mesas e colocar o detalhe que falta para receber o Senhor, pois são as
casas primeiras.
A Fatinha convida-me a ir à sua casa. Mas declino! Sabes
como é Fatinha, temos sempre que ir à dos familiares.
– Vou lá amanhã! – Prometo. E ela aceita.
À casa da Jacinta prometo ir a beijar o Senhor, pois fica
muito perto da do meu padrinho. Mas a primeira há-de ser a da tia Gracinda! Ah!
Quantos beijos hei-de dar a Jesus, neste dia de tanta alegria!
Ainda corro a casa, pois para chegar à casa da tia
Gracinda a Cruz ainda tem de ir por à Pedra, depois descer pela casa da Lila e pela
do tio Chico dos Campos, à Barreira, ao Cabo, às casas dos Campos e finalmente
à do tio Benjamim da Costa.
Ajudo a minha mãe a ajeitar a mesa onde a toalha de linho fino
resplandece de brancura.
Uma bandeja de prata com cálices de cristal para o vinho
do Porto, um pratinho com amêndoas tipo francês – Oh lá, lá! – brancas e cor de
rosa. Foi a minha mãe que as trouxe de Vinhais quando foi à feira do 23 de
março. O resto não se põe já, pois o Senhor ainda demora e fica tudo seco.
– Vai lá, vai à tia Gracinda e leva-lhe este folar e esta
bolinha de carne da nossa fornada.
Surripio da mesa uma amêndoa cor de rosa e lá vou eu,
derreada com dois sacos, sobre os meus sapatinhos, vaidosa de ver os berloques
vermelhos a dar a dar, ao ritmo dos meus passos rápidos e saltaricantes. Que
lindos!
Quando chego a casa da tia Gracinda o alvoroço da Páscoa está
no auge. O tio Zé P’reira tem o seu enorme corpo debruçado sobre a balaustrada
da varanda e fala com o tio Ronda, que está no caminho. Nem se apercebe da
minha passagem. As mulheres afanam-se à roda da mesa. A tia Gracinda dá-me um
beijo, mal me vê:
– Boas Festas da Sagrada Ressurreição, minha linda!
E eu abraço-lhe o tronco, enquanto lhe entrego os sacos,
com um sorriso todo pascal:
– Boas festas! Olha, tia Gracinda, mandou a minha mãe.
– Ai a tolinha, que é que esteve a mandar?! – e, ao
revolver o saco – Muito obrigada.
Também abraço a Elsa e ela afaga-me a testa com carinho:
– Minha Gegé! – e voltando-se para a mãe – Ó minha mãe
ficavam bem, aqui neste vaso, uns fetos daqueles que temos no quintal.
– Pois sim, sim. Vai busca-los enquanto vou ver as
chouriças, que agora tem de ir aquecendo, pois não devem demorar…– E a tia
Gracinda some-se para a cozinha. Depois de ter visto o deslumbre da mesa, eu já
estou debruçada no bercinho da Sílvia, quando a Elsa me pede:
– Vai-me lá buscar dois fetinhos daqueles que estão na
ponta do quintal, do lado da eira dos da Costa.
Lá tenho de renunciar ao sorrisinho da bebé para ir buscar
os fetos, regressando de um pulo. A Elsa ajeita os fetos num vaso grande, de
estanho, onde já convivem goivos e jacintos, situado a um canto da mesa a fazer
companhia a um belíssimo crucifixo de madeira, enquanto eu penso que em nossa
casa não temos um crucifixo tão lindo.
A tia Gracinda tem uma sala muito elaborada e até um
relógio de pêndulo que canta o Avé de Fátima nas horas redondas. Muitas vezes,
quando a venho visitar, fico ali pasmada a olhar o círculo mágico irrequieto,
pendente de um atilho de metal, que dança ao ritmo dos segundos. Este relógio é
um baile! E acaba o relógio de cantar o Avé de Fátima, quando a Elsa dá o
alarme:
– Ó minha mãe, já ouço a campainha! – e, depois de abrir
uma janela e espreitar para os lados da Costa, comprova:
– Lá vem o Eduardo, já ao pé do cemitério.
– Já vou chegar as chouriças às brasas!
São onze em ponto. O relógio vai vincando as onze
badaladas, espaçadas e certas, como uma marcha militar lenta. A mesa está
deslumbrante. A toalha que cobre a mesa, casando quadrados de linho bordados
com tiras floridas de crochet, alberga vários pratos. Um, enorme, com fatias de
um folar amarelinho e fofo, recheado de carnes, brilhantes de gordura; outro com
bolinhos de coco, de aspeto delicioso; mais um pequenino com uns bombons
especiais, franceses, e outro com amêndoas de várias cores. Aqueles bombons
deviam ter sido mandados pela Berta, pois o Pulixa também recebeu uns iguais, da
parte dela, no Natal, trazidos por uma mulher de Prada que veio de Paris passar
as festividades à aldeia.
Está também a bandeja com cálices a fazer guarda de honra
à garrafa de vinho do Porto e mais um cestinho com fatias de pão trigo, ao lado
do qual a tia Gracinda coloca, de repente, dois pratos de aroma fumegante de
pedacinhos, um de alheira e outro de chouriça de carne. O cheiro que se evolva
no ar decerto já atingiu a Delegação do Senhor Ressuscitado que se ouve na rua,
agora com a campainha numa nitidez que até abafa os sinos da igreja.
O tio Zé P’reira entra na sala e repara em mim:
– Olha a nossa Gegé!
Estamos já todos perfilados quando a Sílvia começa a chorar.
A Elsa vai ao berço e tira a bebé, arrolando-a no colo:
– Está cheiinha de fome a minha bebé! Pronto, pronto, já
vais papar. Mas agora vamos ver o Jesus! Tá bem? Vamos ver o Jesus, minha
linda!
E, com o amainar do choro da pequenota, já entra o Jesus! Atrás
do grupo vêm o Sebastião, que assume lugar ao lado da Elsa, sua esposa, e os
seus irmãos, a Delmina e o Nelson, pois a casa anterior era a do pai deles.
– Paz a esta casa e a quantos nela habitam! O Senhor
Ressuscitou. Aleluia! Aleluia! – Brada o Padre Mário com uma alegria genuína.
Todos respondemos vigorosamente aos Aleluias e o Padre
Mário puxa do hissope que o Guto lhe estende e lança duas ou três borrifadelas
à família e à casa em que habitam.
Terminadas as orações o João vai deslocando o crucifixo,
que todos beijamos devotamente, depois de passado o paninho sobre o beijo
anterior. Ao final do dia aquele paninho será um santuário de beijos ao Senhor.
Sobre o metal frio da cruz paroquial, os meus lábios colhem a profusão de uma
alegria tão grande, pela presença ressuscitada de Jesus. Beijo Jesus nos
joelhos dobrados. Mas a sua presença respira-se no ar.
Agora são as instâncias dos donos da casa para que se coma
e as resistências do grupo, que afirma não ter ainda fome mas muito caminho
para andar. Porém, àqueles bocadinhos vivos de alheira e de chouriça, que ainda
fumegam apelos irresistíveis ao olfato, alguns não se negam, exceto o Padre
Mário que diz sofrer do estômago. Oh! Não sabe o que perde! Aceita um copo de
água, e não se pode dar a mais gulodices!
É tradição que cada família acompanhe o Senhor até à casa
seguinte e lá vou eu e a tia Gracinda à casa da tia Ana e do tio Ronda a dar
mais um beijo ao Senhor Ressuscitado, enquanto a Elsa acode às fomes da bebé.
Aceito um bolinho seco que a tia Ana ajeitou num açafate enlaçarado, e me
oferece com o seu sotaque abrasileirado. De seguida, só dou as boas horas à tia
Belmira com a escusa de ter de me escapar para minha casa. Mas ainda recuo para
dar um beijinho à Sílvia que está a mamar ao peito da mãe, muito consolada, e
recolher um daqueles bombons da Berta que me seduziram com o seu papel de prata
vermelhinha. Hmm, têm licor por dentro! Que delícia!
O grupo pascal já se sumiu pelos cantos de Carralcova.
Foram a casa do tio Malino e não tardam a chegar ao Canto e aos dá Canle.
Avisto o Maurício ao fundo das escadas, com a sua perna manca, que me saúda com
a sua habitual boa disposição. A tia Olinda e a Leonor saem da casa dele e
dão-me as boas horas. Devem ter ido dar um jeitinho e um ar de graça e de limpeza
àquela morada de homem solitário.
Ao cimo das escadas da tia Zofina, a pequenina Marisa faz
birra com o irmão Horácio, acusando-o de lhe ter estragado a boneca. Acorre a
mãe a acalmar os pequenotes.
Subo pressurosa pelo souto do Zezinha até à ladeira
íngreme que dá para a minha casa. O Rafael acena-me da varanda da tia Lúcia.
Chego ao meu condomínio e encontro o tio Arnaldo a engraxar as botas ao cimo
das escadas da casa dele e nem me vê passar, maneirinha e leve, até que dou de
caras com a tia Alcina que limpa, das nossas escadas, as patadas do Fiel que
resolveu deixar o lucro de lama auferido na terra molhada ao lado do tanque.
– Cachorro atrevido! – Queixa-se ela com o sotaque
açucarado que trouxe do Brasil.
Chego à minha mãe para lhe entregar o saco que a tia
Gracinda me devolvera com um conteúdo diverso.
– Mãezinha, a tia Gracinda manda-te isto! Ela diz que mais
logo passa cá.
Era um folar, embrulhado no mesmo pano de linho, e
bolinhos de coco na lata dos tais bombons da Berta!
– Onde vem a Cruz?
– Estava em casa do tio Malino. A esta hora é capaz de já
vir ao Canto.
– Bô, ainda demora, ainda faltam os dá Canle… mas vai
chamar o teu tio João!
Dou a volta ao nosso cabanal para ir chamar o Pulixa – que
é assim que eu chamo ao meu tio João – mas ele já está a sair de casa com o seu
fato domingueiro e o relógio de pulso que não dá horas, mas concede uma
tonalidade de luxo ao seu visual.
– Ó Pulixa, já te vinha chamar.
– Vamos lá. Já está perto a Cruz? – segue-me na sua
simpatia.
Cruzamo-nos com o meu pai que vai à adega buscar um caneco
de vinho fresco. Corro à frente do Pulixa e vou buscar o saquinho das pascoleas
que, na véspera, tinha ido colher ao lameiro da Chãira e espalho-as pelo
caminho até às escadas, continuando, de onde em onde, até à sala pelo corredor
limpinho, que eu e a minha mãe esfregáramos na véspera. É para fazer um tapete
de flores à passagem do Senhor Ressuscitado. Pelo sim, pelo não, não as gasto
todas, pois penso que se calhar a Tininha não tem nenhumas.
O meu irmão, que foi dar de comer aos animais, está a
entrar em casa e, admoestado pela minha mãe, vai ainda trocar de roupa.
– Vá, não te demores!
Ela entra na sala com um grande folar que se põe a cortar,
enquanto me pede ajuda:
– Abonda-me aí um prato grande e dois pequenos.
Já tinha colocado o folar num cesto. No prato grande
coloca algumas fatias de “Pão de fatia” e nos pequenos: num coloca alguns
bolinhos de coco, dos que a tia Gracinda mandou, e no outro rodelas do salpicão
acabado de cortar. Já há também fatias de presunto e alguns pastéis de massa
tenra. Estes foi a tia Amélia que lhos deu ontem, quando a fomos visitar, bem
vi. Ela também os terá na sua mesa.
Animada pelo jeitinho que vi à Elsa, amanho melhor as
flores que coloquei no vasinho, mais pequenino que o dela, e dou um afago ao
nosso crucifixo de madeira, do qual gosto, embora me lembre que não é tão lindo
como o da tia Gracinda.
Já se distingue a campainha a sair de casa do Zezinha.
Dali até à nossa deve ser a parte mais difícil do dia do Padre Mário, cuja
idade e o corpo também já pesam, pois a subida é mesmo alcantilada. A minha
casa resplandece no cimo da ladeira e lá vem, com o grupo, o Zé Urbino a acompanhar
a Cruz. Já estamos todos na sala: a minha mãe, o meu irmão e eu, como menina do
mimo, no meio dos nossos três tios solteiros que moram junto de nós, a tia
Alcina, o tio Arnaldo e o tio João. O meu pai ficou fora, a dar as boas vindas
à Delegação do Senhor.
O Pe. Mário vem ofegante e pede para descansar um pouco
antes de pronunciar as orações. Saca de um lenço branco, às riscas azuis, para
limpar o suor que cai em bagas da sua testa alongada pela calvície.
A minha mãe chega-lhe uma cadeira:
–Sente-se um bocadinho, senhor Padre!
Mas ele recusa e irrompe na sua saudação pascal,
impregnada do mesmo júbilo que já lhe vira na Igreja e em casa da tia Gracinda:
– Paz a esta casa e a quantos nela habitam! O Senhor
Ressuscitou. Aleluia! Aleluia!
– Aleluia! Aleluia! – Respondemos todos a ombrear com os
sinos que da minha casa se ouvem na maior nitidez.
As gotinhas de água do hissope, sabem a harmonia batismal e
todos se expõem a elas como a uma torrente de graça. Alguma gente até pede ao
senhor Padre para ir espargir água benta em todos os cantos da casa! Não é o
nosso caso.
Dou o terceiro beijo ao Jesus da Cruz paroquial. Agora
escolho a mão direita que me fica mais perto, e reparo no prego que a segura.
Está um pouco frouxo. Todos os restantes membros da família a beijam com unção
e o minuto seguinte já é de descontraídas saudações.
A minha mãe desdobra-se nos oferecimentos do conteúdo da
mesa. Um ou outro depenica qualquer miudeza, menos o Padre Mário que, de chofre,
me pergunta:
– Então tiveste boas notas?
Eu encolho-me, sem entender bem o que ele quer saber,
corada até à raiz dos cabelos:
– Tive. – Respondo num murmúrio abafado pela timidez.
– É muito estudiosa, Senhor Padre. E muito amiga da Igreja.
– Responde a minha mãe com vaidade.
– Bem sei. Tens de começar a dar catequese.
Ainda me sinto uma menina. Mas alivio-me porque a conversa
vira para o meu pai.
– O Senhor António tem aqui uma casa bem alta!
– Ó Senhor Padre, por bem alta que esteja ainda não chego
ao céu!
Todos riem, mas o tio Orlando segue em defesa do meu pai:
– O Dons bem santo é! Tem o céu ganho!
– ‘stá Caladinho ‘rlando, que não vives comigo. Aqui a
minha patroa é que sabe o santo que sou. Olha que aqui em Paçó só conheço um
que seja santo.
– Então quem é? – Perguntam dois ou três.
– É o S. Julião, o nosso Padroeiro.
Todos riem e o Padre Mário dá o sinal da partida.
– Temos de ir, que o povo ainda é grande… Muito obrigada e
continuação de Páscoa Feliz!
O tio Arnaldo, que tinha estado a atacar o Zé Urbino com a
sua licantina, ainda salta a público com uma das suas, enquanto todos se
levantam:
– Olha que não encontram sítio tão lindo no povo e com ar
tão puro!
O Padre Mário já vai na ponta do corredor, mas confirma:
– Lá isso não. Que Deus vos abençoe!
De saída, acompanho o Senhor até à casa da tia Lúcia e lá
dou o meu quarto beijo a Jesus. Depois nem penso entrar na casa do tio Henrique,
nem na da tia Balbina, pois de um salto me ponho em casa da Tininha. Ela já tem
a mesa muito bem arranjada. Até garrafas de sumol e de cerveja tem, a crescer
junto ao crucifixo enorme, de pé, que a mesa exibe, junto a um monumental vaso
de flores com mimosas, goivos e até camélias. Onde é que ela foi buscar as
camélias?! Graças a Deus está lá também a Elsa, que deixou a Sílvia a dormir, e
a Imperatriz. Eu cumprimento-as e pergunto à Imperatriz pela Elisabete, a bebé
dela e do Tonho.
– Ficou lá em cima. Tens de a ir ver de tarde.
Prometo ir. Depois digo à Tininha:
– Olha Tininha, trouxe algumas pascoelas para fazer um
tapete à entrada.
– Pois, sim. Faz lá.
Os sinos continuam a revirar-se com a alegria. O galafate que
toca agora, tem o seu jeito e faz a tarefa com mais profissionalismo do que
alguns mesmo broncos. Querem ver que se candidata a assistente do Chiribi?!
Com pressa lá estendo, desde o caminho, e pelas escadas
acima, um tapete de pascoelas até à sala da Tininha. O tio Nuno apanha-me nesta
operação, quando está a entrar em casa e saúda-me com animação. Mas as
pascoelas acabam-se depressa e arrependo-me ter gastado tantas na escada da
minha casa. Volto atrás, apanho ainda algumas do caminho para as colocar no cimo
da escada, bem lista antes de o Eduardo, que já vem com a campainha acelerada,
me vislumbrar. A Tininha gaba-me desmesuradamente a passadeira e fico toda
contente. Nada de vaidades, vou é preparar-me para o quinto beijo a Jesus.
Já estão a entrar e, desta vez, é o Tonho que abraça a
cruz paroquial, ou não estivesse Jesus a honrar a sua própria casa. Vejo que a
Tininha está orgulhosa de o ver. O Pe.
Mário dá-lhe motivos para tal quando cumprimenta a família de um modo
efusivo, ao dar a saudação Pascal, com o sorriso que ainda não perdeu o fulgor
desde a primeira hora que o vira na manhã clara.
Desta vez escolho o peito, e dou um beijo junto do
coração, ficando com um sorriso muito genuíno a pairar-me nos lábios.
Depois das saudações do costume, um ou dois do grupo
aceitam uma cerveja e o Guto sente-se autorizado a aceitar um sumol. Penso que
me fica mal participar na faina alimentícia, mas o Tonho, ao abrir o sumol para
o Guto abre um outro, ficando eu maravilhada quando o estende para mim com um
sorriso e uma piscadela de olho. Não resisto e provo também um pastel de massa
tenra, de que a Tininha também é mestra na receita. Comprovo que sim.
A Tininha insiste com o Pe. Mário para que aceite também
um pastel mas, à semelhança do que já lhe vi em outras casas, ele recusa com austera
resistência. Fico porém admirada quando ele pede um pedaço de pão seco. A
Tininha protesta, como se fosse pecado consumado comer pão seco. E ainda para
mais em dia de Páscoa! Isso é para o jejum de sexta feira santa! E teima
arranjar um par para o pão.
– Gosto do pão sem nada! – argumenta ele, sem conseguir
demover a Dona de casa de lhe apresentar uma variada gama de atrações que ele vai
dispensando, ou porque é diabético, ou porque não pode comer gorduras, até
chegar à magnífica solução de um maravilhoso naco de queijo de ovelha, feito
por ela, que nem se lembrava de pôr na mesa. De repente até se lembra que tem requeijão...
Vá, nem tanto!
– Temos de ir, não podemos mesmo ficar mais. Muito obrigada. O Tonho sabe bem que sim.
– Então onde almoçam?!
– Em casa da tia Luísa!
– Bô, daqui lá...
– Seja a que horas for.
Hoje ainda tenho de ir para Quintela. – Diz firmemente o Pe. Mário.
O Eduardo repreende o Guto porque deixou cair um bocado de
folar ao chão e o tenta esconder com a ponta da bota.
– Hás-de comê-lo, seu trapalhão!
O Guto, de boca cheia, emite uns grunhidos impercetíveis. A
Tininha apercebe-se e faz menção de o ir ela apanhar, mas o Eduardo
antecipa-se-lhe e dá-o ao irmão que o engole de um trago.
– Dava-te outro e esse ia para os porcos!
– O pãozinho não se pode estragar e ainda por cima folar.
O folar é muito caro! – Riposta o Eduardo, a educar o irmão.
Cabe à Tininha ir a casa da tia Palmira. Fico com a Elsa e
a Imperatriz e vou acabando de beber o sumol, toda consolada, e quando faço
desaparecer o pastel, não resisto a atacar um bombom gémeo dos mesmos que vira
em casa da tia Gracinda. São tão bons! Está-se mesmo a ver que a Berta também contemplou
a Tininha com a mesma oferta que mandou à sua mãe e ao Pulixa, pelo Natal. Os
do Pulixa há que tempos foram estourados nas pródigas ofertas que ele esbanja
com a garotada que lhe passa à porta. É assim o Pulixa! Oh! De quantos eu fui
herdeira!
Despeço-me da Elsa, digo até logo à Imperatriz e desando
para minha casa. No céu, uma aura argêntea desprende-se das nuvens dispostas em
lotes, desde as faces voltadas para o sol frio. Parecem manelos de lã
escardiçada, errantes no meio do azul profundo, prontinhos para irem para a
roca. No horizonte o aspeto delas empilhado faz lembrar os crepes que, de
certeza, a tia Luísa deve ter na sua mesa de Páscoa. São coisas gourmet, que
sabem fazer as senhoras que estiveram na França. É lá que eles dizem que vão
almoçar. Não escolhem mal. A tia Luísa é tão fina e requintada!
Depois da casa da tia Palmira, a Cruz vai por o Burguete.
Ali ainda são quatro famílias. Faço as contas e sei que me dá tempo de ir perguntar
à minha mãe se quer que leve alguma coisa ao padrinho. Mas ela diz que já levou
ontem o que havia a levar. Pede-me que não me demore:
– Daqui a meia hora está o almoço pronto!
– Venho rápido, mãezinha!
Como uma cabrita, de um pulo ponho-me na rua dos Ferreiros
e desço o calinhão. De repente, algo corre mal e, na parte mais íngreme daquela
barronda escarpada, sinto o pé preso e só não aterro porque me agarro ao galho
de uma hera mais forte. Forço o pé a libertar-se e reparo que um arame exposto
seduziu o aplique do meu sapatinho branco.
Não há tempo a perder, pois a campainha já soa ali em casa
da tia Esperança e de um pulo ponho-me na estrada e galgo a casa do meu
padrinho onde ele, a tia Amélia e o Tó Jão me acolhem com toda a alegria. Hoje
também está a Antónia, a mulher do Tó Jão que veio de Santa Cruz e me faz uma
festa. E eu a ela.
– Estava a ver que não vinhas! – Saúda o meu padrinho,
sorridente.
– Não podia faltar, mas ia caindo ali no calinhão.
Só então o meu primo Tó Jão repara que os meus sapatinhos
não estão iguais, apontando denunciador:
– Então onde deixaste os morangos do sapato esquerdo?
Olho ansiosa e quase me veem as lágrimas aos olhos. As
borlas vermelhas do sapato esquerdo desapareceram. Faço menção de regressar ao
calinhão, mas o Eduardo já vem entrando e não há como fugir. De todas, é a vez
que estou mais triste e desanimada quando a comitiva de Cristo ressuscitado
entra adentro de casa. Nem me apercebo, em hora de trevas, que a voz do Pe.
Mário ainda parece mais luminosa que das outras vezes e nem me dou conta que é
ainda o Tonho quem traz a Cruz Paroquial e a dá a beijar à família. Dou o meu
beijo furtivo e com menos emoção quando, num relance, me parece vislumbrar a
imagem do sapato mutilado. Olho melhor… sem querer acreditar: a mão direita do
Cristo saiu do prego. Enquanto o Tonho já o retira da minha proximidade, um
eflúvio de cor corre-me pelo peito acima e dou um passo para ver melhor o rosto
dorido do Cristo da Cruz, onde a tia Amélia pousa um beijo sonoro. É também o
Tó Jão quem faz o comentário:
– Já destes cabo da Cruz!
O Tonho, como que se sente afetado, desculpa-se:
– Foi ali em casa do tio Jaireca que acabou de se
desargolar, que o prego já não estava bom quando saímos de manhã…
O Pe. Mário aligeira o sucedido:
– É Jesus que quer sair da Cruz para abraçar os seus
fiéis!
Uma bonita interpretação. Lembrar-me-ei mais tarde deste
episódio quando descobrir a imagem de Cristo que se desprende da Cruz para
abraçar S. Francisco de Assis. Como o Tonho fica perto de mim, quando acaba de
dar a volta aos beijos da família, volto a olhar para Jesus na Cruz. O rosto não
está dorido, afinal, mas é como se sorrisse, e sorrisse para mim. É como se me
dissesse: “Deixa lá as mágoas sobre o teu sapatinho! Olha antes a minha mão que
sai da cruz para te abraçar.” Das feridas do Cristo também saíra sangue, um
sangue vermelho, como as borlas saídas do aplique do meu sapato mutilado. É
como se Jesus quisesse sair da Cruz para ir comigo, e caminhar sobre os meus
pés. E diz-me que os meus sapatos têm de ser sempre os de uma pessoa peregrina,
os de uma anunciadora da Ressurreição.
Vou ainda dar o sétimo beijo a Jesus a casa da Jacinta,
que se segue à do meu padrinho e já vou mais animada e com um ardor no coração.
Agora vou para minha casa, almoçar. De tarde ainda tenho de voltar ao Bairro de
Cima, fazer algumas visitas prometidas: a casa da tia Guiomar, para ver a
pequenita Elisabete e a família, à tia Matilde e à tia Luísa.
Os sinos parece que pararam um pouco. É hora de almoço. O
súbito silêncio sabe bem, para apreciar o som das árvores e os gorjeios dos
passarinhos que também querem entoar os seus cantos de ressurreição. O cuco
acorda lá para os lados de Pante e uma leve brisa faz com que as folhas das
heras o aplaudam, de mansinho. Subo o calinhão e tento encontrar os berloques
vermelhos do meu sapatinho esquerdo. Encontr0-os, claro, muito encarnados sobre
a vegetação forte, como se fossem um pingo de sangue no caminho. Lembro-me do Evangelho
que lemos na Sexta feira santa e do sangue de Jesus que lhe sai do Coração.
Tomo os berloques vermelhos na minha mão e sorrio. Com a
sua paciência de costureira, a minha mãezinha depressa os devolverá à gáspea
desconsolada. E o mais importante é que Jesus já me diz que quer fazer dos meus
pés a locomoção da sua misericórdia, do testemunho da sua presença ressuscitada
neste mundo. Lembro-me que o Pe. Mário me pediu para ser catequista. Sim,
serei. Sinto vontade de falar de Jesus e Ele pede-me para levar o seu abraço de
ternura, sobre os meus sapatos de páscoa, sobre os meus pés ressuscitados.
#páscoa #visitapascal #domingodepascoa #compassopascal #Jesusressuscitou


Texto encantador, escrito com sinceridade, sem adornos ou imposturas, que só poderia ser escrito por uma alma que adora Deus acima de tudo e os seus como a si mesmo...
ResponderExcluirMuito bonito! Boa companhia para esta tarde de Domingo de Páscoa enquanto espero que a Cruz florida venha trazer notícia da Ressurreição!
ResponderExcluirRevivi neste tão belo texto o que eu vivia no Domingo de Páscoa. Como morava perto da Igreja de S.Vicente, éramos dos primeiros a ser visitados. Depois era uma correria para o Bairro de Além do Rio onde viviam a maior parte dos meus familiates. E apesar de sermos uma familia pobre, também não faltavam os vestidos e os sapatos para o Domingo da Ressurreição.
ResponderExcluirGratidão por me fazer reviver dias tão felizes da minha meninice.bjd
Lindo texto! Lembrei-me de outras Páscoas, em outras paragens, mas em tudo semelhantes a esta.
ResponderExcluirTal como muitos, também me lembrei da minha adolescência, nos anos 50, numa simples cidade de Moçambique, chamada Beira. Era sacristão da Igreja do Imaculado Coração de Maria, que tinha como Pároco o Mons. Serafim Brum do Amaral. Não tínhamos sapatinhos, nem ovos de Páscoa, pois eramos muito humildes, mas sim tínhamos nesse Domingo, o folar, creio que é assim que se chama aquele pão especial. Percorríamos o Bairro, tocando uma sineta e levando connosco a cruz, água benta, uma vela acesa num vidro, o estandarte da Paróquia e entravamos em todas as casas, cujas famílias se haviam inscrito para receber a Bênção Pascal. Era uma tarde em pleno de alegria, de pequenos lanches que nos ofereciam e o calor da Amizade Cristã.
ResponderExcluirIrmã Maria José: por aquilo que a conheço e admiro, só o Senhor a pode inspirar a escrever tão lindas palavras, que nos sossegam a alma.
Que Cristo esteja sempre presente no seu coração