A via sacra abre-se?
Passava eu para a igreja, e
tinha dito à tia Palmira – que era a avó dele – que ia à Via Sacra. Ora o miúdo,
mais à frente, travou-me o passo e saiu-se-me com esta, deixando-me a olhar
para ele, embasbacada, e sem saber o que responder. Eu era ainda adolescente,
mas já fazia catequese na igreja e os miúdos tinham-me como muito entendida em questões
religiosas.
“A via sacra abre-se?” Sorri
e perguntei-lhe, fazendo jus ao meu estatuto de entendida, como se nenhuma
pergunta de igreja me atrapalhasse: “Mas o que é que tu pensas que é a via
sacra? Algum cofre? Alguma gruta misteriosa? Alguma paisagem que a janela
esconde? Não, a via sacra é uma oração que fazemos para recordar os passos de
Jesus, desde que foi condenado à morte até morrer e ser sepultado.”
“A Via sacra abre-se?”
Pergunta ainda hoje o Micael, com aquela face que atravessa os tempos e me bate
à porta. E já não é apenas o Micael que cresceu e que hoje é um homem feito,
com uma família e uma vida que escapa à infância e ao meu escrutínio. A que me
chega hoje é a face daquele Micael menino, de face muito branca, salpicada de
sardas suaves, aquele rosto redondo como a lua cheia, onde o sol se compraz em
brilhar. E traz a mesma pergunta e a mesma expressão de curiosidade inquieta,
completando, muito seguro: “Se é como dizes, a verdade, verdadinha, é que a via
sacra se abre mesmo!” Agora sou eu que fico pasmada a olhar para ele. “Como
assim?” Pergunto perturbada.
A face do menino mais bem
comportado da catequese, o irmão do Nelson, traquina e desinquieto que
provocava os meus ralhos, mil vezes vãos, volta a olhar-me para o fundo dos
olhos a aguardar uma resposta que tenho de indagar com o Espírito Santo. E digo
vencida:
Tens razão Micael. A via
Sacra abre-se mesmo. Vem então connosco, vem ver descerrar-se um milagre diante
dos nossos olhos!
Quando começas a abrir tremes,
pois logo te deparas com uma tonalidade ameaçadora de chuva que corta quando
cai, nuvens muito negras e salpicos de tristeza. Talvez possas encontrar
trovoadas medonhas, quando os rugidos do mal se injustiçam sobre o porte dos
puros. Ouves o som nojento da cobardia de Pilatos que delega numa bacia de água
suja a limpeza das suas mãos assassinas. Abres aquela porta que dá para a
concertação de interesses na trapaça e na corrupção que negoceiam o valor
incalculável da vida humana pela bagatela de interesses de poder e de lucro. E
pensas: “Não é um pouco isto o que ouço todos os dias?! Qual é a novidade? Há
dias e dias que os noticiários nos despejam em cima notícias deste teor!”
Continua, Micael, não
desanimes, se deres mais uns passos, encontras a verdadeira face do amor a
fazer florir pétalas de primavera no tenebroso dos caminhos, a semear passos que
hão de florir em pura beleza.
Tu podes pensar, "Mas
como isso é possível?! Se este indivíduo condenado, andou a proclamar um
messianismo tão potente, que subjuga até as forças da natureza, como é que
deixa assim usurpar a sua liberdade?" E continuas: “Será que é um cobarde?
Será que ele omite uma reação e assim pactua com a injustiça?" Mas repara,
Micael, que defender-se, para obter um êxito sobre estes algozes, exigir-lhe-ia
respostas violentas e uma paga na mesma moeda. Percebes bem isso. Ele iria converter
a injustiça numa progressão exponencial. Porém, Ele travou aqui as forças do
mal. Talvez tenhas medo que o teu Deus seja um fraco, que se fica, e receias
que te possa exigir a mesma atitude que tu não estás disposto a dar. O sonho da
vingança está-nos no sangue. Tu vês aquele homem e consideras que, certamente,
é assediado por essas tentações de vingança. Mas não, nele não há cobardia. O
seu amor é forte, ao ponto de estancar a proliferação do mal.
E agora já te perguntas: “E
isso também pode acontecer nos nossos dias?”
Continua a abrir, Micael,
vais ver que sim! À medida que se abre o cenário vês que outros tomam também parte
no caminho da cruz. Ao chegar a um certo ponto, vês mais que o mundo que te
rodeia, vês abrir-se a tua própria vida, feita de pessoas e de chagas, feita de
contrariedades e de ilusões… e desilusões. Feita de tantos materiais com que se
constroem os seres humanos. Reconheces logo que os materiais de construção da
tua vida são os que passam neste cortejo. Mas tens opções: das tuas perdas e
faltas podes fazer um vitimismo, queixar-te da tua sorte, achar que aos outros
lhe corre a vida bem e entrar nos nódulos da inveja… mas também podes agarrar o
que tens, seja o que for, muito ou pouco, como uma renda milionária e fazer um
investimento de vencedor. “Mas como?” pensas.
Olhas Jesus, deixas-te
interpelar pela sua verdade – Ele é a Verdade! – e começas a ambicionar fazer
da tua própria via dolorosa, essa que tantas vezes é a tua vida, uma via sacra,
uma via sagrada em que tens a Deus como companheiro de viagem, como
impulsionador da marcha! Sim, a via sacra é a via de Jesus, mas pode ser também
a tua via, em que caminhas com a tua própria cruz, vendo como Jesus leva a
dele, com dignidade, como um general que comanda a sua própria vontade e não
descompõe a sua majestade, mesmo quando cai. Tu aprendes, neste quadro, como é
que um homem se levanta, sem se envergonhar de ter caído, mas sabendo que o
breve tempo em que visitou com a sua face, a face da terra esta lhe sorriu e até
lhe permitiu recobrar forças escondidas. Ele levanta-se e progride na marcha. À
tua volta também há esses soldadecos que se apanham com uns tostões de poder na
mão e pensam que são donos de tudo e de todos. Exibem uma cana com porte de
quem governa o mundo e até te batem com ela na cabeça! E tu não olhas a ponta
da cana, mas o horizonte, infinito e belo, que ela aponta.
Sim, a via sacra abre-se,
Micael! E, nesta abertura sucessiva da nossa via, vemos surgir as mães, e todos
os que de mãe ao longo da vida semearam e hão de semear realidades em nós.
Também aparecerão mulheres que se encantarão do nosso rosto e dele partirão
para uma descoberta do que somos. A via sacra também nos abre ao mistério dos
outros e ao milagre de um caminho partilhado, pontuado por pessoas que o
enriquecem de lágrimas e de sorrisos, de compaixão e de estímulo. E irão
aparecer Cireneus que musculam a nossa energia quando nos parece não podemos mais!
Vem, Micael, vem comigo abrir
a via sacra e contemplar a nudez de Cristo. É muito mais do que uma curiosidade
epidérmica. Vem ver as linhas que moldam o corpo cuja estatura desejamos
adquirir. Ele é o modelo, a linha perfeita, a coluna que suporta o nosso
desamparo, o ideal de beleza onde desejamos copiar, para esculpir em nós formas
e sentidos. Mas este corpo, Micael, de tanto
ser contemplado por fora, vai ser contemplado por dentro também! Eles vão
abri-lo. Como vês, a Via Sacra abre-se, mais do que uma vez, e sempre que se abre
este mistério de amor deixa-nos cenários incríveis de energia.
Eles vão cravar os seus pés e
mãos num tronco de árvore. Eles vão
segura-lo, como a Esposa do cântico dos cânticos, segurá-lo para que não possa
mais partir (Cfr. Cant 3, 4). Até eu penso fazer o mesmo, mas creio que não são
precisas medidas tão drásticas, porque os laços do amor são bem mais fortes que
todas as correntes e do que os cravos que dilaceram aqueles adoráveis membros.
Mas logo, neste ponto, situam-se mais dois grandes acontecimentos de abertura. Jesus diz: “Tudo está consumado”. E
expira. Ele abre os orifícios da respiração para nos presentear todo o ar que
tem dentro, para purificar este mundo e oxigená-lo. Nós podemos respirar o ar
que circulou no Corpo de Deus. Depois é a abertura do Coração de Deus. Vê,
Micael, se podes espreitar para dentro deste Coração, porque todos os Santos,
ao longo da história, o mesmo desejarem fazer e o fizeram, e foi de lá que encontraram
a delícia de um amor que os fez perseverar no caminho. Dali sai um rio, de
sangue e água, um curso que rega e dessedenta todas as formas de aridez. Bebe,
Micael. Prova e contempla ao que sabe a fidelidade, a autenticidade e a
verdade, pois tu podes alcançar tudo na vida, mas de nada te aproveita se fores
um homem podre por dentro. É preciso ser são por dentro.
Por fim abre-se um túmulo para
colocar um corpo. E encerra-se com uma
porta de pedra! Parece que deste encerramento não deverá haver mais aberturas, que
aqui está um ponto final, mas nesta história tudo fica ao contrário. Dali a
três dias o túmulo abre-se, como se fosse um ventre, a dar à luz o corpo. É uma
verdadeira história de maternidade em que a terra se abre e não é um vulcão,
uma erupção, um geiser, uma lava destruidora que sai, é uma germinação. A germinação é o exercício de maternidade da
terra e a ressurreição de Jesus é a mais bela obra de gestação da terra.
Já não sei o que te respondi naquela
altura em que eras um menino curioso, Micael, e eu uma jovem também à procura
de respostas. Talvez me risse, talvez te dissesse que não, a desdenhar da tua
inocência. Hoje ainda procuro entrar por esta via, que me faz abrir, a mim
própria, ao mistério de Deus. Obrigada por me teres feito uma pergunta tão
desafiadora, Micael. Porque a Via Sacra abre-se!
Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs
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A Via Sacra abre-se?
ResponderExcluirApraz-me dizer, ben haja por tão bela reflexão de uma caminhada comunitária . Somos todos desafiados a questionarmo-nos aceitarmos a experiência de caminharmos para a grandeza de saborearmos todos passos da Via Sacra. Permita-me transcreva aqui:
" como vês , a Via Sacra abre mais que uma vez, e sempre que se abre este mistério de Amor, deixa-nos cenários incríveis de energia, " repletos de Esperança, Alegria e consequente descoberta do Amor de Deus, por cada ser humano".