A roupinha dada pela mamã
Fernando
fita a religiosa muito branca, com cara pintada de cal e umas vestes de missa
dominical, e diz a medo, uma voz que sabe a mel, sotaque de um catraio dos
arredores de Maputo:
– Fernando.
Todos os
dias a Ir. Anunciação e a Ir. Lisete, enquanto se deslocam para a Eucaristia da
manhã no Bairro da Coop, um marulhar de pequenotes lhe sai ao caminho. Um dos que
vem quase sempre na onda é o Fernandinho, que salta do cimo dos seus quatro
aninhos, por aí, despenha-se no caminho, mesmo junto aos passos delas e enreda-se
nas saias brancas da Ir. Lisete, que lhe afaga a carapinha crespa, com carinho,
e o cobre com o nome:
– Bom dia, Fernandinho!
Na cara
redonda, de um castanho achocolatado muito suave, acende-se um sorriso que
ombreia com um raio de sol e o menino dispara como se recebesse o prémio mais
valioso do dia.
Na manhã seguinte
lá está outra vez a criança afeiçoada aos dedos que voltam a deter-se numa
carícia, à carapinha crespa.
– Olá
Fernandinho, como estás?
Salta como
um cabrito e, só a sorrir, revela o seu estado de espírito feliz.
Hoje vem com
as Servas Franciscanas a Ir. Clara das Irmãs Concecionistas ao Serviço dos
Pobres. A Ir. Lisete já conta com a investida do Fernandinho e acolhe aquele
cabriolar feliz que diz, sem prévio aviso:
– Quero um
pente.
A carapinha denuncia
um desmazelo furtado aos cuidados da mamã. Mas a Ir. Clara, parece que pelo
Espírito Santo pré-avisada daquela necessidade premente, mete a mão ao bolso e,
como num passe de mágica, sai de lá um pente branco miudinho como o dos aviões
de classe executiva. O menino arrebata a aparição das mãos da religiosa e salta,
exibindo-a como preciosidade perante os amigos que nem valorizam
verdadeiramente tal dom, como ele. Depois enterra-o no pantanal da carapinha
negra, como uma vela de barco imersa na ondulação dos seus pensamentos, e corre
desenfreado a terminar a higiene matinal.
Dali a uns
dias, da mesma rua pintalgada de gritos tenros, sai o inconfundível sorriso do
Fernando a correr até às mãos carinhosas da Ir. Lisete. Hoje traz o tronco nu e
uns calções muito amarelos como se fosse um pingo de sol a desprender-se do
amanhecer risonho.
De encontro
aos braços da Ir. Lisete exibe-se festivo. Ela, dando-lhe umas palmadinhas de
carinho no dorso nu, repica uma solene exclamação:
– Ó
Fernandinho, hoje trazes uma camisa muito bonita! Quem te deu essa camisa?
O menino
recua, olha espantado para o rosto ensolarado da religiosa e depois mira e
remira o seu próprio tronco, no estado em que veio ao mundo, e responde numa
convicção mais sólida do que o chão que pisa:
– Foi a minha
mãe!
E corre,
sorridente de certeza, no encalço da vida, seguro do vestuário tão valioso que
a mamã ainda tem para lhe dar.
Em honra de
Jesus Sacramentado. Amén!
Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs
in Florinhas das Servas Franciscanas Reparadoras
#ServasFranciscanasReparadoras #moçambique #caridadecristã #crianças #simpatia


Lindo demais, parabéns irmã Maria José.
ResponderExcluirPaz e Bem
A camisa que se revelou na simplicidade do Fernandinho, pelo reconhecimento que manifestou numa simples palavra , GRATIDÃO para a sua Mãe.
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