Benjamim e a estrela
Tudo aconteceu num país chamado Palestina, onde se situa uma cidade muito antiga, chamada Belém. Nesta cidade, rodeada de montanhas cor de sol, em que as casas se confundiam com a terra vivia um menino chamado Benjamim. Os pais eram pastores nómadas, levavam os rebanhos para longínquas paragens, e só vinham à cidade quando os montes começavam a ganhar uma pintura de verde.
Benjamim morava, com a sua avó, numa casinha onde terminava a cidade. Para lá do primeiro monte depois da casa de Benjamim havia uma gruta onde eles tinham algumas ovelhas. Benjamim chamava-lhe a gruta do rebanho frágil! Quando vinha, o pai de Benjamim deixava ali as ovelhas doentes, as que tinham tido algum ferimento, algum membro partido… ou os cordeirinhos que tinham ficado órfãos. A avó cuidava destas ovelhas com muito esmero e, quando melhoravam, era Benjamim que as acompanhava em busca de algum alimento perdido nas encostas mais férteis.
Logo cedo, a avó ia acordar Benjamim e acompanhava-o até à gruta, soltava as ovelhas que podiam caminhar e ele acompanhava-as, sozinho, durante o dia. Como a gruta ficava para lá do primeiro monte, logo a seguir à cidade, a avó dizia a Benjamim: “Só podes ir até ao cimo do segundo monte. É entre o primeiro e o segundo monte que as nossas ovelhas podem pastar!” Era por isso que Benjamim ainda não se considerava um pastor a sério, porque ainda era muito menino, e só podia acompanhar as ovelhas entre dois montes. E o seu pai, que era um pastor a sério, passava para lá do segundo monte.
Antes de cair a noite, Benjamim e a avó iam para casa e, depois de cearem Benjamim ficava no terraço a fixar os pontilhados que brilhavam na noite negra. Parecia-lhe que as estrelas eram berlindes a jogar desafios na negritude do céu. E sorria muito às estrelas. Benjamim trazia nos olhos o mel do sol e quando o luar se passeava feliz pelas escarpas da sua pupila negra, muito observadora, segredava-lhe que estava a ver o sol a passear-se pelos recantos mais maravilhosos do mundo, mas a lua não descrevia nada, nada a Benjamim.
A avó parecia gostar que ele olhasse as estrelas e quando vinha chama-lo para ele se ir deitar, cantava-lhe uma canção assim:
“Ó luz do céu que no escuro, abres caminhos ao dia!
Que do meu coração puro resplenda a luz da alegria!”
Nos dias de inverno Benjamim vinha mais cedo para casa e ambos se aconchegavam à lareira e ela contava-lhe também as suas histórias até se irem deitar. Sabia de cor muitos textos importantes do seu povo e contava-lhe que todos estavam à espera de um Salvador que seria uma luz para o seu povo, para todos os povos da terra. Os profetas diziam que nasceria na sua cidade de Belém!
E Benjamim dormia sempre sob os céus estrelados, sonhando com o Salvador que havia de chegar a Belém e cantava a canção da avó:
“Ó luz do céu que no escuro, abres caminhos ao dia!
Que do meu coração puro resplenda a luz da alegria!”
Eis que uma noite Benjamim teve um sonho diferente. Havia uma estrela linda que arrastava uma cauda longa e vaporosa e sorria-lhe desde um brilho especial. E dizia a Benjamim: “Quero que sejas o meu mensageiro!”. No dia seguinte falou à avó do sonho que tivera e ela, sorrindo, disse-lhe: “Tu és a minha estrela!”
Um dia Belém foi sacudida por um tumulto invulgar. Chegavam muitas pessoas desconhecidas. Diziam que estava a fazer-se um recenseamento para que o Imperador de Roma soubesse quantas pessoas havia na terra. A avozinha também foi dar o nome dela e o de Benjamim. As estalagens enchiam-se de gente muito barulhenta e as ruas coloriam-se de vendedores, nos seus pregões e mercadorias. Havia de tudo, até coisas que Benjamim nem sabia que existiam, nem para que serviam.
Também os pais de Benjamim tiveram que vir para tal recenseamento trazendo os gados que pernoitavam nos campos de Belém. Esses dias eram tão felizes para Benjamim! Durante o dia a mãe ficava com a avó a fazer queijos, porque havia leite e encomendas em abundância e ele ia com o pai até pastagens mais longínquas, porque ele juntara aos seus gados quase todas ovelhinhas que viviam na gruta. Ali só tinham ficado mesmo as mais frágeis. Era a gruta do rebanho frágil. Que felicidade andar com o pai por paisagens diferentes! Benjamim já se sentia um pastor a sério, pois podia passar para lá do segundo monte! Ao anoitecer a mãe levava-lhes comida e trazia Benjamim com ela de volta para Belém.
Como a gruta do rebanho frágil estava mais vazia, a avozinha pôde dar pousada a um ou outro forasteiro pobre que não tinha com que pagar uma estalagem. E, aos que pediam, dava também de comer.
Ao fim de um certo dia, como de costume, Benjamim colou os olhos ao firmamento negro onde começavam a respingar brilhos nas constelações tremeluzentes. E pôs-se a cantar baixinho:
“Ó luz do céu que no escuro, abres caminhos ao dia!
Que do meu coração puro resplenda a luz da alegria!”
A mãe e a avó tinham ido a casa de uns clientes e ele, que estava à porta, pareceu-lhe que uma claridade diferente se difundia no ar. Era como quando o sol está prestes a nascer… mas o sol já se pusera há muito!!! Apareceu então um homem peregrino, com ar extenuado, que conduzia um burrinho magro sobre o qual pousava uma mulher mais leve que uma pena. A mulher estava grávida! Era deles, especialmente da mulher, que emanava um brilho que lhe fez lembrar a estrela especial com que sonhara na noite anterior, que se assemelhava à luz da aurora que prepara o amanhecer. Eram Maria e José, soube ele mais tarde.
Esta aparição luminosa era, para Benjamim, um sinal de alerta. Instintivamente aproximou-se e perguntou se precisavam de ajuda. “Sim, respondeu o homem com urgência na voz, precisamos de abrigo para esta noite. Percorremos toda a Belém, mas não encontrámos um lugar adequado para ficar.” Benjamim rejubilou quando pôde indicar-lhes a gruta do rebanho frágil, praticamente preparada, porque ainda na noite anterior também lá tinha dormido outro casal. Ele mesmo os acompanhou e desejou-lhes as boas noites.
A avó foi a primeira a chegar a casa e Benjamim contou-lhe o sucedido. Ela sorriu: “Muito bem, meu querido!” Mas como Benjamim não tivesse dado nada de comer aos peregrinos, ela foi buscar um pãozinho que cozera, um pedaço de carne salgada, uns punhados de tâmaras e uma bilha de água. Meteu tudo num saco, pegou numa candeia e saiu dizendo: “Deixa-te ficar aqui a esperar a tua mãe!”
Era uma noite fria, com um luar ressequido de quarto minguante. Mas depois de ficar algum tempo esperando a mãe, Benjamim não resistiu e correu à gruta. Logo que a avistou, ao cimo do primeiro monte, esta aparecia toda inundada de luz. A princípio assustou-se a pensar se seria algum incêndio. Mas não. Não havia chamas, era puro brilho que ele reconheceu como o da tal estrela dos seus sonhos.
Espreitou a porta tosca e deslumbrou-se na luz que de dentro vinha, harmonizada com um choro tenro e luminoso! “Avó, é este o Salvador que o nosso povo está à espera!” A avó de Benjamim sorriu luminosamente e disse à mãe do Menino: “Precisas de descansar!” e foi buscar palha, tentando fazer um ninho para deitar a criança, que resplandecia de brilho. Então Benjamim teve uma ideia melhor: foi buscar a manjedoura das ovelhas e colocou lá a palha mais fofa que encontrou, de modo a preparar um bercinho para aquele que reconhecia como o esperado pelo seu povo. Quando a mulher lá enfim o colocou, sem deixar de o olhar com ternura, abeirou-se dele e beijou-o, comovido. José sorria, e Maria afagou os cabelos de Benjamim e murmurou: “Só os humildes percebem as mensagens da Luz!”
A estas palavras levantou-se e entendeu o recado da estrela: ele tinha de ser o mensageiro desta boa notícia! Saiu desenfreadamente e correu pelas ruas de Belém gritando a todos: “Vinde ver! Hoje nasceu o Salvador de que o nosso povo está à espera! Está na nossa gruta!” Mas ninguém parecia ouvir a voz de Benjamim.
Os que se levantavam dos leitos, arreliados, diziam: “Quem é esta petulante insistência que vem fustigar a nossa dormência? Vai-te daqui!”
Os vendedores diziam: “Quem é este ridículo pregão que nos vem comprar atenção? Vai-te daqui!”
Os que jogavam a dinheiro nas tabernas diziam: “Quem é esta singela inocência que vem perturbar a nossa inteligência? Vai-te daqui!”
Os bêbados diziam: “Quem é esta voz tão estranhamente pura, que faz rir a nossa loucura? Vai-te daqui!”
Os que ainda trabalhavam àquela hora, nos seus ofícios, diziam: “Quem é esta interrupção no nosso tempo tomado, que nos vem dar tal recado? Vai-te daqui!”
Uns sábios que rodavam à volta de uns frascos misteriosos diziam: “Quem é esta súbita alegria, que vem destabilizar a nossa sabedoria? Vai-te daqui!”
Os soldados Romanos que patrulhavam a cidade diziam: “Quem é esta frágil ameaça que provoca a nossa indómita raça? Vai-te daqui!”
E uma mão pesada o ergueu nas roupas contra uma lanterna que fazia piscar os olhos habituados à escuridão e arremessou-o para a sarjeta da estrada.
Desiludido e cansado com tanta rejeição, Benjamim compreendeu porque Maria e José tinham atravessado Belém sem encontrar um lugar adequado para ficarem e também o que ela dissera: “Só os humildes percebem as mensagens da Luz!”. Lembrou-se então do pai e dos outros pastores que pernoitavam nos campos de Belém. Levantou-se e foi a correr com um novo destino. Quando a cidade adormecida se ficava para trás, imersa numa neblina de fumo que se difundia desde as chaminés, Benjamim só tentava descortinar o sorriso das estrelas no meio daquele quadro salpicado de desassossegos brilhantes. E ia cantando:
“Ó luz do céu que no escuro, abres caminhos ao dia!
Que do meu coração puro resplenda a luz da alegria!”
Depressa chegou, afogueado, ao campo dos pastores. Uns já dormiam, outros conversavam, outros discutiam. Aqueles eram homens rudes, mas estavam habituados à leitura dos céus, das estrelas e da natureza. A cidade já tinha a sua luz, artificial e pequena mas ali, na mais completa escuridão, foi nítida a luz que Benjamim trazia da gruta do rebanho frágil. E ele repetiu o seu pregão entusiasmado: “Hoje em Belém, na cidade de David nasceu-vos um Salvador, Aquele que o nosso povo está à espera! É um Menino vestido de luz! Vinde vê-lo numa manjedoura!” (Cfr. Lc 2, 1-11). E os homens, um após outro, foram-se levantando e escutando. Disse um: “Olhai um Anjo do Céu que nos vem falar!” Nem o pai reconheceu Benjamim, tão brilhante ele vinha! De repente, toda a abóbada celeste se transformou num recado de alegria. As estrelas movimentavam-se, lançando serpentinas de luz. Não era como os relâmpagos acompanhados do rugido feroz do trovão, eram como luzes de silêncio cantando uma canção de paz: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que Ele ama” (Lc 2, 14). Todos ouviam e um disse: “Vamos a Belém ver o que aconteceu!” (Cfr. Lc 2, 15). E vieram todos, correndo atrás de Benjamim, que vinha cantando:
“Ó luz do céu que no escuro, abres caminhos ao dia!
Que do meu coração puro resplenda a luz da alegria!”
Quando chegaram à gruta do rebanho frágil, encontraram José e Maria arrolando o seu Menino na manjedoura, feita berço.
Todos se ajoelharam. Benjamim também. E foi então que Jesus lhe sorriu. Que momento tão lindo! Foi desse sorriso que Benjamim levou muita a luz para a vida… para ser luz da alegria!
Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs


Comentários
Postar um comentário