Não havia lugar para eles na hospedaria
Não havia lugar para eles na hospedaria (Lc 2, 7)… E quanto lugar haverá em mim?!
Jesus, quando hoje ouço
dizer que, com Maria e José, foste rejeitado no momento em que ias nascer,
considero a insensibilidade das gentes de Belém. É claro que eu te acolheria!
Mas quando hoje ouço dizer que voltas de novo, tenho de fazer um esforço para te
levar a sério, penso-o como uma ideia metafórica e poética, que me dá aso a
fazer o presépio e a celebrar um Natal de há muito, muito tempo atrás!
E… voltas mesmo, Senhor?!
Mas não é hoje, pois não?! Se fosse numa urgência, eu algum cantinho havia de
arranjar para ti, mas quando vieres quero que tenhas instalação condigna para
um Deus! Se viesses hoje, virias em muito má hora. Hoje juntaram-se-me tantos
hóspedes em casa!
A presunção cavaqueia com
o orgulho, na sala de estar: sentiria pavor que ali te deparasses com eles!
Teria de arranjar modo de os despistar ou desalojar. O comodismo visita-me com
frequência e traz com ele a indiferença. Ambos se apossam dos meus quartos: não
sei como os acordar para lhes dar uma ordem de despejo!
Ainda ontem chegou uma
peregrinação de vendedores de ilusões e ardo de curiosidade em consultar os
seus catálogos extensos… Hoje, como vês, é um tempo mau para te dispensar a
atenção que mereces.
Para te acolher teria de
fazer uma limpeza séria ao átrio da minha entrada. Não ficaria bem que
entrasses e tropeçasses na ostentação que intimida o hóspede, que te resfriasse
a astúcia que cobra a hospedagem, que sentisses desconforto ante as câmaras de
vigilância que comprometem a confiança…
Mas há outra coisa que
tenho de resolver, antes de te dar guarida: controlar as minhas
idiossincrasias. É um problema lidar com elas! Deixo-as a entreter no ginásio,
sem ter tempo, nem coragem para lhes domesticar os critérios… ao teu modo! Confesso que as tenho um pouco selvagens, sem
muito rigor no modo de as deixar manifestar!
Se tu viesses hospedar-te
em mim teria de me decidir fazer manutenção aos aposentos da alma… tenho vindo
a adiar este passo pelo muito trabalho que me dá, Senhor! Tenho o mobiliário
danificado por vícios e impaciências, o chão salpicado por estilhaços de
conflitos, as superfícies poeirentas de intrigas, as paredes manchadas de
desleixo, ornadas de convenções… umas compradas na feira, outras em lojas de
marca, as prateleiras inundadas de reflexões derrotistas… Tudo teria de arejar
com a leveza da alegria! E bem sabes como está cara a alegria nestes tempos
depressivos!
Tenho presente também que
os vidros das janelas teriam de ser limpos, com o apuro da atenção e da
compaixão. Tu logo alterarias o sentido das minhas janelas… desde o meu espelho
narcísico para as ruas carregadas de olhares carentes e caminhos desafiantes.
Tu, de imediato, me voltarias a face para onde nascem os rostos dos outros e
far-me-ias abrir as cortinas, deixando-os entrar como o sol da manhã… E isto,
assim, de repente, dá-me calafrios! Tenho de me mentalizar para tanta mudança.
Contigo por perto, o teu
Evangelho invadiria o ambiente do meu pensamento, mas por desgraça tenho o ar
pesado por juízos pulverizados, por preconceitos instalados, e nem sempre faço
uso do inseticida da prudência para combater a praga das fantasias voadoras.
A tua presença na minha
morada obrigar-me-ia a dar uma volta aos trastes que repousam nos sótãos da
memória e que, às vezes, até me custa identificar. Levaria mesmo muito tempo a
arrumar as velharias destes espaços densos: teria de aspirar o cotão do
egoísmo, deitar ao lixo aqueles projetos meados, à espera do apoio do
oportunismo, salvar montes de intenções boas, interrompidas por orçamentos
mesquinhos, resgatar a gratidão, esquecida sob tantos dons adormecidos…
Se tu viesses teria de
apurar a arte culinária. A mesa das refeições tenho-a reservada às minhas
fomes, alimentada pelos recursos das minhas possessões. Tu logo repartirias o
meu ser, a modo de Eucaristia. Até tremo só de pensar que, na tua presença, os
meus celeiros, acumulados para os tempos de incertezas, seriam arrombados para
alimentar as bocas dos órfãos…
Confesso que temo
hospedar-te, Senhor! Tu irias colocar escadas de emergência junto às minhas
mãos, e todos saqueariam o depósito do meu trabalho e das minhas habilidades.
Todos te seguiriam até às portas da minha casa: estaria comprometido o meu
sossego!
Mas pronto, eu tenho
intenções de sujeitar-me a isto tudo! Prometo que sim, que te receberei, que
não quero de modo nenhum ser incluída no catálogo dos insensíveis. Mas dá-me
tempo, Senhor! Tu podes prever a hora do teu nascimento. Como Filho de Deus,
tens direito a marcar a hora, não?! Bom, de qualquer modo, hoje não venhas, por
favor… Hoje estou ainda a roer um tempo de urgências duras. Amanhã ainda é
muito prematuro também. Deixa ver… daqui a um mês?! Não, espera… não
arrisquemos, vamos fazer assim: quando vir que tenho o espaço adequado para ti,
dou-te um “toque”, pode ser?
E é então que te ouço
dizer: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a
porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo. (Ap 3, 20) Desejo
ardentemente comer contigo» (Cfr. Lc 22, 15)
Oh, Senhor, atacas-me na
ferida mais sensível com este desejo que afinal é teu… És Tu que queres
encontrar-me?! Sabes, Tu és também o meu esperado. Mas pensava em Ti como um
esperado ornamental, calado e passivo… Assim, declarado o teu desejo, fazes-me
tremer! No entanto quero fazer como Tu queres. Esquece as minhas justificações
gastas, os meus propósitos inconsequentes, as minhas agendas lotadas, o meu
desejo adiado e vem! Vem, Senhor Jesus! Sei que não tenho capacidade de
renovar-me por mim, mas faço erguer este grito do fundo das minhas entranhas,
enquanto invoco o fogo que me queimará as possessões. Sim, Senhor Jesus, só
esse Espírito que lavrou o ventre puríssimo de Maria para te semear terá poder
para me inundar da água da humildade que me lavará a alma até ao fundo. Quero
acolher-te na totalidade, na genuinidade do meu ser, porque Tu não és um
hóspede, és a minha habitação, o meu abrigo e fortaleza. Tu és o Alimento que
perdura. Tu és a Vida que me faz viver!
Oh, Senhor, Tu és o Amigo de todas as horas, que podes conviver com as misérias que de todo não consigo expulsar dos antros da minha fraqueza, mas me vais ajudando a ser o que Tu, como amante divino, queres encontrar de melhor em mim. Não, não posso prescindir de Ti! Tu embelezas-me, só em Ti posso aspirar à beleza, à luz imortal! Tu és o Esposo desejado, não te posso adiar, não posso resistir ao teu bater à porta… abro-te, escancaro o meu ser para ti: vem, Senhor Jesus, vem cear comigo! E fica…
Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs
in "Que verdade nos habita?, Ed. Paulinas 2021
#advento #conversão #queverdadenoshabita #natal #exame de consciência


Comentários
Postar um comentário