O nascimento da Misericórdia
Quando Ele consolidava os céus, eu estava presente; quando traçava
sobre o abismo a linha do horizonte, quando condensava as nuvens nas alturas,
quando fortalecia as fontes dos abismos, quando impunha ao mar os seus limites
para que as águas não ultrapassassem o seu termo, quando lançava os fundamentos
da terra, eu estava a seu lado como arquiteto, cheia de júbilo, dia após dia,
deleitando-me continuamente na sua presença. Deleitava-me sobre a face da terra
e as minhas delícias eram estar com os filhos dos homens” (Prov 8, 22-31).
Ora a Sabedoria que anda a
brincar, toda maravilhada, por montes e vales, regozijando-se pela bondade da
criação, encontra um par humano que está a adulterar o projeto de Deus.
Acabaram de pecar por achar que podem viver sem Deus e de tentar criar o seu
próprio mundo sem Ele.
Junto do trono de Deus, acabado de
sair do tempo, entra um Arcanjo, despedaçado de tristeza. Chama-se Gabriel. A
Sabedoria, aninhada no colinho do Pai Celeste interpela-o:
– Querido Gabriel, acabaste de
sair do tempo e vens até junto do trono de Deus! Parece que não vens muito
animado. Que aconteceu?!
Gabriel responde, desolado:
– Tinha de vir! Não sei o que
hei-de fazer. É que… eles acabaram de fazer exatamente o que Deus não queria
que fizessem! Acharam que poderiam ser deuses, mas pior do que isso, que
poderiam substituir-se a Deus!
A Sabedoria ganha um ar firme,
como nunca:
– Só Deus conhece plenamente e
sonda o coração do homem. Eu sei o que aconteceu, fora e dentro deles!
O Arcanjo olha, de soslaio, a
Santíssima Trindade, da qual a Sabedoria é porta voz, procurando vislumbrar se
Deus está desiludido com a obra das suas mãos. A sua presença enche a
eternidade e Gabriel sente aquele júbilo infinito do seu acolhimento gozoso.
Também o sente quando entra no tempo, mas aqui é de um modo mais denso. De
facto, das três Pessoas da Santíssima Trindade também pende um laivo de
tristeza e isso nota-se bem na voz toda espiritual da Sabedoria, porque ela
chamara o homem, depois de este ter sido infiel a Deus, e este escondera-se. O
Arcanjo questiona-a:
– Como é possível que Deus tenha
criado um mundo capaz de permitir o mal?! Eu assisti à formação do Universo
inteiro, das estrelas e dos planetas. Vi o primeiro girar da via láctea e a
formação do sistema solar e tudo era maravilha. Acompanhei o nascimento da
terra e da vida que ela contém e tudo me era motivo de louvor e admiração. E
agora que formaste o ser humano… ele vai estragar tudo!
– O que queres dizer com estragar
tudo?
– Quero dizer que, antes, quando
toda a outra criação estava em marcha, tudo fluía sob um propósito: o propósito
de Deus. Agora o ser humano, que fizeste livre, pode interferir no propósito de
Deus, com o seu próprio propósito!
– Deus quis criar um ser livre. Se
o moldasse, como um ser extático e infalível, robótico, não incorreria em obter
dele a infidelidade, é certo, mas não teria a alegria de obter dele o seu amor.
Só a liberdade permite amar, é o amor que faz vibrar o coração de Deus. É esse
o propósito de Deus, porque Deus é amor. Todos os seres criados, sem liberdade,
obedecem a Deus mas não amam… e tudo foi criado por causa da liberdade, pois é
ela que permite amar!
– Mas a liberdade, se é o ambiente
para amar… também permite trair…
– É verdade, Gabriel. No entanto
para Deus um só ser humano que ame vale mais que mil pecados.
Gabriel ficou sem réplica e
pensativo. Depois arriscou:
– E Deus agora vai deixá-los
assim?! Impunes e estragados?!
A Sabedoria perguntou ao Arcanjo:
– Como avalias o seu estado?
– Eles estão esmagados por um
sentimento de culpa acabrunhante, que lhes absorve toda a alegria. Vivem
asfixiados pelo medo permanente do castigo de Deus. Além disso, o medo de se
encontrarem consigo próprios, fê-los esconder a sua nudez. Têm dificuldade em
ver-se a si próprios, e temem serem vistos. Eles temem encetar um caminho novo
porque perderam a segurança de si mesmos. Eles continuarão a definhar pelo
remorso de uma confiança perdida, quebrada pela sua leviandade, que por muito
que se conserte, nunca ficará com a homogeneidade, a integridade original e
autêntica. Isso significará que talvez eles nunca terão forças para perseguir
uma felicidade plena. Mas temo verdadeiramente que busquem seguranças que
prescindam de Ti, e isso seria desastroso. Temo que percam o sentido da
maravilha, o sentido da gratidão e enveredem por uma acédia egoísta que embota
o dom. Temo que percam a sensibilidade e se deixem asfixiar na cegueira da sua
ciência para lhes não ser molesto viverem permanentemente sem Ti: ou seja temo
que não lhes faças falta! Com este estado de coisas não sei o que se pode
prever! Parece que todos os cenários são desastrosos…
– Quanto a ti, a única solução
seria recriar o ser humano? É isso?!
Gabriel responde, sem hesitar:
– Pois!… seria a grande solução!
Mas talvez Deus teria de os destruir e amassar de novo… Por outro lado, há um
inconveniente de monta: irias ter de fazer isso indefinidamente pois aqui
abriu-se um precedente maléfico que vai gerar sucessivamente, a sementeira da
iniquidade. Deus tem de exercer aqui uma justiça!!!
A Sabedoria, na sua inalterável
serenidade, respondeu ao Arcanjo:
– A justiça será criada! E,
querido Gabriel, será já exercida sobre estes…
– Oh, amorosa Sabedoria de Deus!!!
Mas, receio que, pela justiça, haja mesmo necessidade de os destruir, ou,
quando muito… castigá-los severamente.
– Fiel Arcanjo do jardim de Deus,
afianço-te: vamos recriá-los sem ter de os destruir, nem castigar. Há um
castigo próprio que advém da maldade que se semeia, mas não é Deus que o
aplica: é a consequência dos erros que por si fazem sofrer por danificarem a
caminhada, mas até para esse eu quero arranjar remédio! E vamos permitir que,
após cada queda, eles se possam regenerar na justiça de Deus!
– Mas como será isso possível?!
Poderem voltar a ser belos e novos como antes, terem confiança, e serem
poupados a castigo? Mas que justiça será essa? – Perguntou o Arcanjo, admirado.
– Deus vai exercer uma justiça,
sim, mas não será a justiça humana… Poderia parecer que a obra de Deus está
pronta, que a criação aconteceu de um momento para o outro, mas não: Deus está
a criar até ao fim dos tempos. E para os retoques mais subtis, para atingir as
nervuras mais recônditas da afinação desta obra, vamos fabricar uma ferramenta
muito especial, altamente especializada. Será a justiça de Deus! Com ela
queremos burilar o propósito mais sublime de Deus: um ser humano amante e,
portanto, livre.
O Arcanjo estava maravilhado. A
Sabedoria continuava entusiasmada:
– A ti, Arcanjo, a quem Deus vai
enviar, como mensageiro do seu amor, vamos revelar estes detalhes preciosos,
porque tu terás parte direta no nascimento da justiça de Deus.
Gabriel parece atrapalhado:
– Mas como? Onde nascerá essa
justiça de que falas?
– Nascerá no tempo!
Gabriel mostra-se incrédulo:
– No tempo?!
– Sim, é mesmo no tempo: será a
presença de Deus no tempo. A justiça de Deus é um remédio, mas é mais que isso,
é um bálsamo, é a arte suprema da medicina e da cosmética, ou seja, não apenas
serve a cura, mas trata da prevenção…. e também do embelezamento. Porque
regenera feridas, remove cicatrizes, aplana rugas, restitui a juventude. Esta
obra será um espaço em que o amor aprende a viver na liberdade e a nela
manter-se fiel, é um interstício em que os seres humanos poderão alcançar o
máximo da beleza entre as suas relações, porque ela terá o respeito e o perdão,
a tolerância e a bondade… será uma autêntica obra de arte. Esta obra deleita-me
e será feita com os ingredientes mais sublimes da essência de Deus: o amor.
Esta obra será toda amor, porque Deus é amor! Sim, e será criada no tempo
porque é no tempo que vai ser aplicada.
Gabriel parece atrapalhado:
– Querida Sabedoria, arquiteta
operante de Deus, essa é uma belíssima ideia, mas no tempo, tal como eu o
conheço, haverá ingredientes próprios para tudo isso de que falas?!
– Vai haver tudo! Esta justiça
frutificará numa árvore! – Replica a Sabedoria sorrindo. – Vamos criar uma
árvore que possa produzir um fruto capaz de anular os efeitos perversos deste
ato de insubmissão… É do sumo e da polpa deste fruto, prensado pelo sacrifício,
que se obterá a justiça de Deus!
O Arcanjo Gabriel mostra-se
admirado. Mas ajunta:
– Vais criar uma nova espécie de
árvore?
– Não, querido Gabriel, esse fruto
será o próprio Deus na prova máxima do seu amor. Vamos escolher uma qualquer
madeira das florestas humanas e aí eu frutificarei! Serei uma resposta à sede
que a criatura tem de assumir o lugar de Deus: Deus assumirá o lugar da
criatura, porque o próprio Deus vai entrar no tempo!
O Arcanjo parece embasbacado:
– Deus vai entrar no tempo, dizes.
Mas não entrou já?! De um modo espiritual?! Está sempre ali, porque a
eternidade possui o tempo… Teve de entrar para criar! Ao dizer que frutificarás
numa qualquer árvore estás a usar uma imagem… certo?
A Sabedoria explica:
– A forma de o dizer é uma imagem,
e será uma imagem salvadora para sempre, de forma a poder ver-se como a Graça
vence o mal. Mas o molde dessa imagem é realidade material, palpável, física…
Eu, a Sabedoria incriada, vou encarnar, vou fazer-Me homem, enviada por meu
Pai. Vou crescer como qualquer ser humano e passarei pelo mundo fazendo o bem e
anunciando o amor de Deus e, por fim, como mostra desse amor, vou morrer numa
cruz, aí cravada de pés e mãos!
– Ó Sabedoria!!! Tu não sabes o
quanto isso é doloroso! Eu tenho visto como eles se queixam com uma feridinha
qualquer… Isso é uma loucura!
– Mais doloroso é ver a minha criatura
predileta perdida…
– Valerá a pena tanto esforço?!
– Claro que sim. Serei vítima de
um julgamento sujo, injusto e prepotente. Mostrarei aos inocentes que é
possível perdoar, aos maus que é possível serem perdoados, mostrarei que o amor
vence a dor, que a humildade vale mais que prepotência, demonstrarei que a
verdade nunca poderá ser vencida por qualquer artimanha. No meu corpo assumirei
as dores do mundo, no meu sacrifício pagarei o preço dos pecados, porque os
assumo na minha humanidade. E do meu corpo sairá um sumo, quando o meu coração
for aberto por uma lança! Assim todos poderão decifrar, humanamente, o
verdadeiro e louco amor de Deus por eles… Será, pois, necessário pregar-me
nesta árvore para dela ser Eu mesmo um fruto permanente. Porque ressuscitarei
para estar sempre como irmão da humanidade. E nem imaginas o surto de bem que
daqui vai surgir! Todos terão onde se agarrar, para saírem dos círculos do mal,
todos terão brancura para começar uma escrita nova, todos terão caminhos para
perseguir a meta fundamental…
Gabriel fica silencioso, sem se
atrever a nova pergunta, que nem sabe formular. Mas declara, quase gaguejando:
– Eu ainda não compreendi como é
que Deus se vai fazer homem, como pode o Deus, que preenche todo o Universo, a
eternidade e o tempo, que é inenarrável, absoluto, infinito, imenso,
omnipotente, pode fazer-se pessoa humana, irmanando-se com eles…
Mas a Sabedoria declara:
– Isto só é compreensível pelo
amor. Deus é amor!
– Oh, meu Deus! Que amor tão
grande! Como será possível apresentarmos esta árvore aos seres humanos? Creio
bem que eles nem irão acreditar que esta obra é possível. Sim custará a crer em
tamanho amor. E esta obra não será confundida com impunidade?!
– Não Arcanjo de Deus! É
precisamente isso que a fará inconfundível, pois só os atentos se servirão
dela, os desatentos passarão por ela e nem advertirão em que amor foram
amados!… Mas também é para isso que eu desço: para advertir os desatentos. Esta
obra será a minha opção pela vida, porque ela é a súmula do amor, que é a nossa
essência divina. Todas as traições e rejeições poderão ser sanadas aqui. Ou
apenas os descuidos… Porque muitas vezes o mal surge de um pequeno descuido que
pode tornar-se num enorme obstáculo! Estes obstáculos serão dissolvidos no amor
de Deus e libertarão os caminhos…
– Tu pensas em tudo!!!
– Vê, Gabriel, como amamos a nossa
criatura! Olha que esta não é uma graça barata, mas os que forem tocados pelo
amor, só quererão amar. Esta árvore é o limite de Deus imposto ao mal, o
sacrifício que trava o mal. Ainda que ela não seja negada a nenhum ser humano,
exige acolhimento. Esta árvore terá um amplexo frondoso, debaixo dela todos
sentirão o abraço quente de Deus, à sua volta faremos um banquete, que se chama
Eucaristia. Eu tornar-me-ei em pão e vinho. Deus será alimento real…
O Arcanjo chora de emoção:
– Ainda mais isso?! Vais fazer-te,
não apenas ser humano, irmão de todos os seres humanos, vais, não apenas morrer
por eles, mas ainda fazer-te coisa?!
– Sim, Gabriel! – Gabriel fica
silencioso e a Sabedoria continua: – E agora tu tens uma missão: vais preparar
tudo para eu nascer…
Gabriel quase se mostra chocado:
– Mas isso é uma missão
impossível! Terias de ter uma mãe… humana, uma família. Viver num país.
– Exatamente. A Mãe Eu já a
escolhi. Mas tu tens de lhe pedir permissão para ela ser a Mãe de Deus.
– Mas eu não sei localizá-la no
tempo, nem no país…
– Saberás! Percorre o tempo e não
encontrarás alma mais brilhante, nem mais ardente de amor, mais cheia de Graça.
Se vires o tempo de longe reconhecerás na sua linha um clarão!!! É aí que Eu
nascerei! Reconhecerás logo a minha Mãe, mal a vires. Quando ela der o seu sim,
eu encarregar-me-ei do resto. Aliás, querido Gabriel, se tu ficaste desolado
com o pecado destes, quando vires esta mulher perceberas como é de muita mais
beleza o fruto da Graça acolhida na liberdade… E tantos, tantos… que
aproveitarão a Graça! – A Sabedoria sorri: – E outra coisa, Gabriel, quero
nascer na mais absoluta simplicidade daquele mundo… irmanando-me com os seres e
com toda a criação. Será assim que iniciará a minha lição de amor. Quero viver
com os recursos que a terra me dá, sendo parte dela, porque a composição do meu
corpo será a mesma que a de tudo o mais no universo.
Gabriel exulta repetindo:
– Será assim iniciada a lição de
humildade de Deus que é amor! Estou cheio de entusiasmo para encetar a missão
que me confias e para procurar essa mulher que dizes ser cheia de Graça!
– Sim, Gabriel, mas quero também
que prepares mais alguns intervenientes diretos no meu nascimento, o esposo que
a há de acompanhar… (claro que logo o vais reconhecer também!), o nascimento do
primo que me há de anunciar, os mais indigentes da terra que quero que sejam os
meus primeiros visitantes… bom, trata lá de tudo como te aprouver. Já sabes os
meus gostos! Depois, quando a árvore florir com o meu corpo, o Espírito Santo
vai espalhar os seus nutrientes pelos séculos…
Fez -se um silêncio solene. Depois
a Sabedoria sorri ao Arcanjo:
– Queres sugerir o nome havemos de
dar a esta obra que nomeámos como a justiça de Deus?
– Olha, Senhor, eu chamar-lhe-ia
misericórdia porque evoca o encontro da miséria humana com o coração
inenarrável de Deus.
Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs
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