As Fontes da Eucaristia

 

O telemóvel primeiro boiou algum tempo à superfície do Danúbio, na altura em que uns cânticos de povo chegavam ao seu sistema de áudio, o qual se preparava para nunca mais captar nenhum som deste mundo.

Esforçou-se por se manter à superfície, com o apoio de uma brisa que ali se demorava, dançando com ela, sem contrariar os movimentos leves da ondulação.

Antes, porém, do derradeiro mergulho, o telemóvel lembrou-se da sua Leninha e reviveu todos os acontecimentos que experimentara nesse tão intenso dia 11 de setembro de 2021, desde a véspera, em que caíra de um bolso descuidado.

Durante toda a tarde sossegara no bolso lateral das calças e era frequentemente acariciado por uma mão que se assegurava da sua presença. Mas o corpo sentara-se num banco do autocarro e um cruzar de pernas cuspiu-o para fora e, finalmente, no repelão de um arranque, seguiu-se o silêncio no chão, para onde rolou. Sentiu passos que saíam e outros que entravam e, num desespero em que nem tinha capacidade para pedir socorro, sentiu-se abandonado. Seguiram-se horas e horas de tumulto, num vaivém pela cidade. Durante o tempo em que ainda teve bateria, sentia, de tempos a tempos, acender-se no seu colo o fogo de uma chamada e a sobrecarga de mensagens que assim rezavam: “Please call +351*******70”.  Mas debaixo de um banco obscuro, silencioso e frio, nem o visor que se acendia chamava a atenção de alguém. O repelão mais violento de uma curva mal feita impeliu-o, compartimento fora, até escorregar pela porta aberta e cair nas pedras da rua. Era madrugada sobre Budapeste e um frescor mais agreste acariciava as faces do telemóvel que tinha perdido a esperança de ser encontrado. A bateria esgotava e ele adormecia num sono profundo, do qual talvez ninguém mais o pudesse resgatar.

Mas um milagre aconteceu! Uns passos miúdos aproximaram-se dele, umas mãos quentes o envolveram. Foi ligado a um power bank e reviveu. Ao abrir os olhos, viu a Menina-de-vermelho-flor que o fitava de faces afogueadas sob o fresco matinal. Ela falou, mas era em Húngaro e o telemóvel nada percebeu. Então ligou os dados móveis e procurou um tradutor. Disse o telemóvel:

– Fala, outra vez! – E o som soou-lhe estanho e distorcido, não sabendo se a menina tinha entendido alguma coisa. Mas sim, tinha entendido!

– Finalmente encontrei-te! – Disse ela, fresca como a manhã.

– Como?! Tu não és aquela menina que dançava na escadaria de quem desce da igreja do Rei Matias?!

– Sim, sou eu. – Disse a menina como sorriso a balancear nas suas bochechas guarnecidas de um blush rosa escuro.

E, mal o disse, tirou de algures do corpo duas moedas prateadas que exibiu na mão muito branca. Quando as viu, o telemóvel corou até à raiz do power bank e não se podia saber se era do reflexo do rosto da Menina-de-vermelho-flor.

– Porque coraste? – Perguntou ela ao telemóvel.

– Como sabes se corei ou não?

– Eu posso ler as faces de um telemóvel, porque este power bank vem da energia do meu próprio coração. Diz-me, porque coraste? – Insistiu ela.

O telemóvel ficou em silêncio, mudo de vergonha.

– Eu sei porquê! – Disse ela, depois de um lapso de silêncio. – Eram as moedas da Ir. Estela, que me foram dadas pela tua Leninha. Elas mas deram de agrado…

– Mas eram uma ninharia, que elas deram sem pensar… Eu ouvi depois os seus lamentos amargos!

– Oh, que tontas! Estas moedas têm uma valia incomensurável, não pelo valor monetário em si, mas pelo sentimento que que as fez jorrar nas minhas mãos. Elas deram-me uma graça. E tu vais levar-me por essa história de amor que fez sair um grupo (do qual tu fazias parte) de um país, como exploradores de muitas fontes! Porque eu sempre fiz coreografias de fonte, sabes? Agora preciso de inspirar a minha coreografia, abrindo estas as oito fontes dentro de mim.

– Mas como será isso possível? Como posso ajudar-te a abrir oito fontes?!

– Já vais ver. Vou ligar-te à memória de uma pessoa do teu grupo…

A Menina-de-vermelho-flor colocou uma das moedas de 20 forint em cima do visor do telemóvel e carregou nela como se fosse um botão que lhe permitiu entrar na memória do telemóvel. Entrou todinha. Uma vez ali chegada, a Menina-de-vermelho-flor começou a vasculhar as fotos que ali se acumulavam. Achou-se na madrugada do dia 6 de setembro de 2021 junto à publicidade da marca de cerveja Heineken, no aeroporto de Lisboa. Ela percebeu que a estrela vermelha não precisava de quadrante para iluminar a rota e pediu ao telemóvel:

– Conta-me, conta-me o que aconteceu ao grupo que aqui vejo, o mesmo que acampou para uma outra foto, que eu vi, na escadaria da igreja do rei Matias.

E o telemóvel, revendo as fotos que trazia, uma a uma, assim rezou:

– Poder-se-ia este grupo comparar àqueles expedicionários buscam o ouro, ou como aqueles navegantes, seus antepassados, que cruzaram mares e oceanos. Mas não! Ao que posso comparar esta aventura é à peregrinação dos filhos de Jacob que, grassando a fome na sua terra, foram ao Egito onde se dizia que um tal Governador teria os celeiros cheios de grão. Ide a José, dizia-lhes o Faraó. A estes dizia-lhes uma inquietação, um apelo espiritual, uma busca. Ide a Budapeste.

– Pois, mas o Congresso começou dia 5! Como posso saber o que aconteceu nesse dia?!

–É fácil, – disse o telemóvel – tenho os dados móveis ligados e vou procurar… procurar… aqui no site da Vatican News! Olha, o Cardeal Angelo Bagnasco: “A Igreja não tem outro nome para anunciar e adorar: Jesus Cristo. O seu rosto é o Evangelho, a sua presença é a Eucaristia.”[1] Não achas esta frase estupenda! E mais: “a Eucaristia vai além de toda solidão, toda distância e toda indiferença”.[2]

– Ah! Então quando chegastes a Budapeste, já tinha sido aberta a primeira fonte!

– Sim, e era a fonte da felicidade, pois "Deus não é um concorrente da liberdade, e a fé não é uma série de proibições, mas um grande sim à alegria, mesmo quando é exigente, porque o amor é uma coisa séria".

– Então a fonte da felicidade é a Eucaristia!

– Claro que sim! Pela tardinha desse dia todos os do meu grupo estavam a preparar-se para a viagem. Concorreram de todos os lados até àquela estrela vermelha da Heineken, onde tiraram esta foto de grupo que aqui vês. Alguns deles iniciaram no recinto do santuário de Fátima, com uma oração presidida por D. José Cordeiro! Não tenho fotos dessa hora, mas eu estava lá! Olha-os agora com as suas bagagens e aquele ar de expectativa! Essa, de calças cor de rosa, é a Cristina, a maestrina dos nossos passos, a guia da nossa agência de viagens. Mais do que guia dedicada, companheira de Jornada. A primeira coisa que ela nos deu foi a bolsinha bordô, que continha todos os documentos que nos podiam livrar de apuros. Não consegues ver o Delfim, porque era ele que estava a tirar as fotos!

– Quem é o Delfim?!

– Vais saber logo, logo. Mas como era ele um dedicado gestor e companheiro do grupo, o que nos distribuía a maioria das fotos, pouco se vê nelas. Nem imaginas o quanto trabalhou pelo bom êxito desta peregrinação! Quando chegámos ao aeroporto de Budapeste no dia 6 ao final da manhã, foi-nos apresentada a Kristina que nos fez conhecer logo um pouco da tua cidade e nos ensinou a palavra mágica “köszönöm”.

– Ah! Pronuncias bem! Essa palavra faz abrir sorrisos e um “szívesen” que vem do coração.

– Isso mesmo! Chegámos junto da Basílica de Santo Estêvão durante a tarde e, ao fazer a confirmação da nossa inscrição, recebemos aquela tão saudosa pulseirinha que nos abria todas as portas! Ali ainda pudemos gozar um momento de manifestação da cultura Húngara, em música, canto e dança.

– Estou a ver! E essa bandeira vermelha e verde, que se vê nas fotos?!

– É a de Portugal, claro, não é linda?! Transportada pelo nosso veterano dos Congressos, o Senhor Manuel, da Diocese de Aveiro, sempre avistado pela sua guarda de honra, a Alcina e a Céu! Nesse dia 6 de setembro estava a abrir-se a segunda fonte, a bondade. A cidade estava tomada por uma atmosfera em que pairava um jogo de sedes… deixa cá ver o que diz a Vatican News: “o homem moderno acha que a sede e a fome que levam dentro de si podem ser saciadas com o consumismo”. Mas isto só quando não percebe logo que o destinatário da sua sede é Deus. Sim, havia um desígnio no ar e era sobre a “correspondência entre o desejo do coração humano por Deus e a gratuidade do desejo de Deus pelo homem que, despojando-se de sua majestade, se fez um de nós”[3]

– Ah! E quem disse isso? – Perguntou a Menina-de-vermelho-flor.

– Foi na única Catequese que falou em português e on-line, a do Cardeal João Orani Tempesta, do Rio de Janeiro.

– Até ficas todo vaidoso por causa dessa língua!

– Podes crer! É a língua de Camões!

– Quem é Camões?

– Depois, se puder, explico-te! Temos de continuar! Por ora, aí tens a segunda fonte aberta: a bondade, pelo encontro com Jesus na Eucaristia, pois “o extraordinário encontro pessoal com o Senhor, que responde aqui e agora às exigências profundas do coração humano, leva necessariamente a anunciá-lo. Ao amor que nos alcança correspondemos com uma vida transformada e que transborda em anúncio”[4]. E o anúncio é sempre bondade. Esta é a abertura da fonte!

– Então a fonte da bondade é a Eucaristia!

– Sim. A este dia de tanta expectativa e de tanto deslumbramento, seguiu-se uma noite de sono cerrado, lancetado por um acordar prematuro. É que alguns tinham feito direta, na noite anterior!

– Heróis do mar…

– Ah! Também sabes alguma coisa de nós! A partir deste dia 7 seguimos integralmente o programa!

– Conta como foi a entrada na Hungexpo?

– Foi um deslumbramento! Primeiro o controle das mochilas, depois a entrada no pavilhão de acesso. A seguir o encontro com a multidão no pavilhão A, onde os acordes suaves de um órgão nos saudavam e sorrisos, entrecortados de palavras mudas, nos encaminhavam para os lugares!

– Estou a ver… Cá estais! Quem é este homem que se vê no videowall?

– É o Cardeal Gérald Lacroix, do Quebec (Canadá)! Era o dia da paz e este homem, que desenvolveu um serviço pastoral na Colômbia, zona marcada por variados conflitos, pediu para nos abrirmos à “pedagogia da Eucaristia”, para nos sentirmos enviados, pois “a paz oferecida pela eucaristia é tudo menos um bem estar. É um compromisso de evangelização. Uma paz para ser partilhada.” Ter Cristo na Eucaristia abre a nossa vida em perspetiva missionária para o coração do mundo porque nos alimenta e envia. Mas já antes tínhamos celebrado as solenes Laudes e o arcebispo de Eger/Hungria, incentivou-nos a ser instrumentos de paz na senda dos santos… na senda de Jesus.

– E depois?!

– Oh! Depois de um belo momento musical com a cantora lírica Erika Miklósa tivemos o testemunho do Cardeal Sako, Patriarca Caldeu Católico da Babilónia, que partilhou com o Congresso o drama da Emigração e da vida difícil de quem fica no Médio Oriente. “Olhar a cruz vazia dá-nos esperança”, disse ele. Então já sabes qual é a fonte da paz?!

– A fonte da paz é a Eucaristia!

– Sim!!! Vê agora as fotos da Eucaristia, a procissão dos Bispos, a face de D. José Cordeiro que presidiu à nossa Delegação Portuguesa… e a simpatia dos nossos padres que, na sua variedade, fizeram da nossa peregrinação uma experiência tão rica!

– Têm caras bem simpáticas, realmente!

– As celebrações da Eucaristia foram sempre momentos tão especiais, solenes e de tocante beleza!

– Estou a ver que o nosso povo Húngaro te deixou boa impressão!

– Muito boa! – Disse o telemóvel, saltitando pela margem do rio, com a Menina-de-vermelho-flor dentro da sua memória. E depois continuou – Os coros deliciaram-nos com tão boa música! Levaram-nos ao Céu! A harmonia dos ritos, a profusão da manifestação de fé da Assembleia! Agora vou falar-te da bela experiência do almoço, partilhado no pavilhão G.

– Pois que tens de me falar! Tens fotos?

– Claro que sim! Hmmm! Olha o menu!

– Csirkemell rozmaringos vajas mártásban, rizzel ou  Zöldségpörköit hajdinával - vegan… Foi bom?!

– Evidentemente que eu, na minha condição de máquina, não comi, mas apreciei as caras de satisfação da minha gente. Podes ver nas fotos… Depois o D. José Cordeiro trouxe-nos, para nos apresentar, desde os seus misteriosos domínios onde almoçavam os Bispos, três companheiros de jornada Angolanos, os Bispos de Angola presentes no Congresso!

– Estou a ver! E esta senhora, que aqui aparece?!

– Ah de tarde, nas sessões optativas, deslumbrou-nos o testemunho de Barbara Heill, antiga missionária protestante e fundadora de várias comunidades pentecostais pelo mundo. Descobriu que Deus pode mudar radicalmente a sua vida porque Jesus está lá… escolhe-nos, precede-nos “e tira da escuridão aqueles que O percebem e ouvem no Evangelho”.

– Uau! E os sete desta foto, quem são…?

– Ah! Essa era a Delegação de Bragança-Miranda, a mais numerosa e completa de Portugal, com Diácono e tudo! E, se eu fosse gente, aqui me incluiria!… – Disse o telemóvel quase num lamento. Mas de seguida acrescentou:

– Olha aqui os Padres do Patriarcado de Lisboa com o Cardeal Jean Claude Hollerich, todos contentes!

– Bom, adiante! Continuamos o desfile de fotos… Foi nesta tarde – tarde inesquecível – que a Kristina, com o Thomas, vos levou para junto do palácio imperial e da igreja do Rei Matias, dia memorável em que vos conheci! Cá estão as vossas carinhas larocas!

– Sim, ao final desse dia todos nos deitámos muito felizes e descansados, exceto o Pe. Pedro Manuel que até às tantas da noite fez a sua crónica do dia para a “Folha de Domingo" da Diocese do Algarve! E para o site do EDUCRIS!

– Ai sim?!

– Muito trabalhador, esse sacerdote, ainda que um pouco… “torturador” da nossa guia, mas mentor de muito boa disposição, juntamente com o Pe. Miguel Melo, Jesuíta, a quem o Pe. José António estava sempre a provocar com anedotas franciscanas. Mas é verdade, o Pe. Pedro todos os dias nos deliciou com um completo resumo!

– Boa! Vou procurar estes resumos para os ler! – Disse animada a Menina-de-vermelho-flor.

– Aconselho-te vivamente! Mas vem aí outro dia muito especial: no dia 8 celebrámos a festa da Natividade de Nossa Senhora e em Budapeste era o dia da paciência. O cardeal Charles Maung Bo, arcebispo de Yangon e presidente da Conferência dos Bispos Católicos de Myanmar, proferiu uma desafiante Catequese em que nos fez ver a história da salvação à luz da paciência de Deus e apresentou a sua Igreja local como “de muita paciência”. Falou da Eucaristia como um processo de paciência e lembrou uma imagem muito sugestiva de Maria desatadora de nós. “A salvação chega através da paciência de Maria. Maria não poderia ter cortado o fio, senão estaríamos perdidos.” Fez-nos ver também que a velocidade é a doença dos nossos dias que o “Covid-19, nosso irritante mestre da paciência, nos veio refrear. Ensinou-nos esta virtude, dolorosamente.”

Com este Cardeal aprendemos os dez mandamentos da paciência, a partir da experiência do nosso Deus, “que se define a si mesmo como um Deus de paciência e compaixão”!

A Menina-de-vermelho-flor fitava deliciada com o seu amigo telemóvel e disse:

– Então a fonte da paciência é a Eucaristia!

– Pois é, minha amiga! E ao final da manhã nas sessões optativas deste dia a que mais causou impacto foi a de Mons. Justo Lofeudo que falou das graças que se podem obter a partir da adoração ao Santíssimo Sacramento e testemunhou a revitalização de paróquias que incentivaram a adoração perpétua ao Santíssimo.

– Ao final da manhã?! Então nessa hora não era a celebração da Eucaristia?!

– Não, nesse dia foi diferente: a celebração da Eucaristia, foi da parte de tarde, numa das paróquias de Budapeste, em Português. Além de nós estavam presentes os três Bispos Angolanos e alguns jovens brasileiros residentes em Budapeste que também participaram na animação da Eucaristia. D. José Cordeiro, que presidiu, lembrou Maria como “a aurora, a estrela que anuncia o sol e, n’Ela, o cristão é como que uma nova criação irradiada pela luz radiante da manhã de Páscoa.” Ligando esta festa ao contexto da Celebração do Congresso Eucarístico Internacional fez notar que “na diversidade das línguas e culturas é que se encontra a unidade da fé da Igreja una, santa, católica e apostólica. A língua comum manifesta-se no bem comum da pertença ao Evangelho.” E desafiou-nos a “que este 52º Congresso Eucarístico Internacional seja um autêntico sinal de fé, de esperança e de caridade para a unidade a paz na Europa e em todo o mundo, porque a Eucaristia é sacramento que forma o corpo eclesial e é «fonte e centro de toda a vida cristã» (LG 11).”

– Ah! Ele disse isso? – Perguntou maravilhada a Menina-de-vermelho-flor.

– Disse muito mais: tens aí a cópia da homilia completa que o Delfim mandou. Podes ler!

– Vou ler, claro!

– Foi um acolhimento tão caloroso o que esta Paróquia nos fez! Uma miríade de acólitos, como anjos. Alguns dos jovens brasileiros ajudaram-nos a animar o canto! O Pe. Vasco Figueirinha manobrou admiravelmente o órgão, no coro alto, e depois acompanhou o pároco no momento musical com que este nos brindou, também com o seu trompete. E, para finalizar, o magnífico Avé de Fátima levou-nos ao delírio!

– Budapeste recebe bem as suas visitas, que pensas?! – Rejubilou a Menina-de-vermelho-flor com um laivo de orgulho na face, reforçando o encarnado do blush!

– É verdade! E não se ficou por aqui esta paróquia: os sacerdotes presentes foram convidados para uma sessão solene. Bom eu não estive, pois permaneci no bolso da minha Leninha, mas eles é que contaram quando chegaram, depois de nos fartarmos de esperar por eles!

– Imagino que o dia se ficou por aqui!

– Sim. Mas revê primeiro bem as fotos deste dia! Nesta estão os Padres do Algarve, em grande plano o Cón. José Pedro. Olha aqui os Padres do Norte, os de Braga… de Vila Real o Pe. Hélder, com o seu escudeiro Frederico, os de Lamego e Viseu…

– E este senhor com um caderno e uma paleta de cores, quem é?!

– Oh! O nosso artista plástico José, cujo olhar captava admiravelmente qualquer paisagem e rosto ao lado da sua musa inspiradora, a Manuela que também sabe tirar boas fotos!

– E esta senhora de branco, que parece um Anjo?

– É a Isabel, do Patriarcado de Lisboa! De facto, um verdadeiro Anjo evangelizador!

– Que grupo fantástico!!!

– Uma maravilha! Terminámos este dia em beleza. Jantar no hotel Ibis City South e cama! Esperava-nos o dia 9 de Setembro…

– Espera, vejo aqui uma cruz, junto a um ícone…

– Ah! Essa era a cruz missionária! Então tu que és daqui e não ouviste falar dela?!

– Até agora só dançava… Fala-me da Cruz.

– A Cruz Missionária acompanhou a preparação e a realização do Congresso onde, a par de uma relíquia do Santo Lenho, estavam incrustadas relíquias diversas de santos e beatos do povo Húngaro e dos povos vizinhos. É a expressão da história, do teu povo, regada por sangue de mártires e de testemunhas da fé cristã!

– Que orgulho! E então, agora, conta-me sobre o dia 9!

– Foi forte a catequese do cardeal John Onaiyekan, arcebispo emérito de Abuja, Nigéria. Começou por nos recordar que “não podemos ter medo porque Jesus está connosco”. Lembrou que “cada Eucaristia tem um valor infinito diante de Deus” e que “esse é o motivo pelo qual, independentemente de quem celebre a missa, deve observar um mesmo ritual, especialmente no que diz respeito aos elementos centrais da oração eucarística”. Recordou-nos que, “a Eucaristia como fonte e cume de toda a vida cristã, é mistério para acreditar, celebrar e viver, e por isso na presença real do Senhor, no sacrifício eucarístico e na comunhão todos somos chamados a alcançar a certeza de que Deus vai além da ação”.

– Estou maravilhada! – Exclamou a Menina-de-vermelho-flor.

– Bem podes! Este era o dia da Esperança! Da parte de tarde numa das sessões optativas tivemos uma dupla preciosa: O Cardeal Angelo Bagnasco e o Cardeal do Luxemburgo Jean Claude Hollerich. Ambos trouxeram desafios muito precisos para o homem de hoje. O Cardeal Angelo Bagnasco lembrou: “Tendemos a perder o sentido da necessidade de salvação. A grande doença do tempo é o isolamento que gera o individualismo”. Hoje fala-se muito de secularismo e ele explicou que “o secularismo não é a negação de Deus, mas uma vida vivida como se Deus não existisse. Crê-se em Deus, mas vive-se sem Deus. Pratica-se a fé, mas não se vive da fé.” Todavia, disse ele “Deus criou o homem com um anseio de vida de infinito, de felicidade, de alegria, de beleza. Somos temporais e desejamos um para sempre. E este para sempre faz-nos mendicantes de Deus. Aqui a Eucaristia é a resposta!

– Bom, então a fonte da esperança reside na Eucaristia!

– Claro! E o Cardeal Jean Claude Hollerich falou sobre na velha Europa e as suas crises, lembrando o contributo que os cristãos podem dar. Crise migratória, crise ecológica, crise de identidade. A Europa tem uma raiz cristã… e realçou que é a Eucaristia que faz a igreja.

– Estou rendida ao manancial…

– Mas esta tarde foi para experimentar Budapeste à flor da pele. Quatro ou cinco “caseirinhas” perderam a oportunidade e foram comprar sapatos para o Centro Comercial rente ao Hotel. Regressaram como damas de companhia da nossa Cristina que se encerrou no quarto a tratar dos nossos “Passenger Locator Card”.

– Oh! Vida dura!

– Nada disso! A Cristina viu-se livre de nós nessa tarde, foi o que foi, uf! O resto do pessoal espraiou-se pelas ruas de Budapeste, autocarros e gelados, cerveja e passeios, Danúbio e monumentos. Olha para estas fotos e repara nas caras felizes desta tarde de turismo! Hoje sim, foi turismo… do bom!

– A minha cidade!!! – Exclamou a Menina-de-vermelho-flor, com vaidade.

– Que a Kristina orgulhosamente nos desvelava nas idas e vindas entre o Hotel e a Hungexpo! Juntamente com a história do teu povo que "veio das estepes da Eurásia, onde pastava rebanhos..." Bom, mas vem agora a descrição do meu derradeiro dia…

– Esse foi ontem, dia 10 de Setembro! Mas ainda tens o dia de hoje…

– Ontem foi o derradeiro dia com a minha Leninha! Temos sido tão felizes juntos!

– Vais ver, ainda a vamos encontrar! Conta-me como correu o dia de ontem!

– A rotina foi a mesma dos dias anteriores, mas viveu-se o dia da fé! A catequese do Cardeal da República Checa, Dominik Duka, deu ao sacramento da Eucaristia a ideia de uma dimensão cósmica, que particularmente me tocou. “O homem como um ser que pertence à terra, leva a centelha que aponta para o céu”, disse. E lembrou que a Eucaristia é a plenitude do Universo, é onde o criado encontra a sua maior elevação. A Eucaristia, referiu, “é um ato de amor cósmico, une o céu e a terra, eleva e penetra a criação que surgiu das mãos do Pai e a Ele regressa”. Este Cardeal incitou-nos a “desfossilizar” a Igreja, pois a Eucaristia faz da igreja um acontecimento dinâmico e vivo.

– Não foi neste dia que o Presidente da Hungria deu o seu testemunho?

– Sim. Falou de algumas das suas vivências de fé… Belo testemunho!

– Como me orgulha o meu Presidente! E de tarde?!

– A tarde foi, mais ou menos, como a do dia anterior. Vê as fotos! Ainda tenho algumas da tarde de ontem. Muitos aproveitaram para adquirir provisões para o almoço de hoje. E no final a Leninha perdeu-me! Presumo que me procurou, mas não sei como, desencontrámo-nos e aqui estou eu, nas mãos de uma Menina-de-vermelho-flor!

– Estou bem feliz por te ter encontrado…

 – Sei que hoje eles iam à Ilha Margarida e agora estão de regresso acolá, na praça Kossuth, para participar naquela grandiosa Eucaristia, a coroar o dia da fidelidade.

– Ah! Então a Eucaristia é fonte de fidelidade.

– Sim… Escuta, ouve-se daqui. Está a começar a Eucaristia.

– Quem está a falar?!

– Que eu saiba no início da Eucaristia ia falar o Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Sua Beatitude Bartolomeu I. E que a Eucaristia vai ser presidida…

– Pelo nosso Arcebispo Primaz da Hungria Péter Erdö! Só podia ser. Vamos escutar atentamente a sua homilia…

– Está a terminar a Eucaristia… escuta! É o Avé de Fátima que estão a cantar. Lembrei-me de uma coisa: tu podias levar-me novamente até à Leninha! Eles estão na Praça…

– Estás doido! Como iria eu procurar a Leninha neste mar de multidão?!

– Pela bandeira. De certeza que eles estão a agitar a bandeira portuguesa e tu logo a havias de lobrigar! Vá, leva-me até lá…

– Mas primeiro tenho de sair de dentro de ti!

– Então sai! – Disse o telemóvel impaciente.  Depois pareceu refletir. – E como o farás?

A Menina-de-vermelho-flor ficou comovida e resolveu fazer a vontade ao telemóvel. Procurou a segunda moeda de 20 forint, carregou nela em cima do visor do telemóvel e saiu de dentro dele. Depois segurou-o nas mãos e, enquanto escutava o Avé de Fátima, levantou-se de junto das margens do Danúbio para levar aquele memorial em triunfo até à Praça Kossuth. Nesse momento uma enxurrada de gente desabava da praça. A Menina-de-vermelho-flor levou um encontrão valente e o telemóvel saltou-lhe das mãos, escorregando por uma rua íngreme que dava novamente às margens do Danúbio. Ela correu, mas já não o viu. Ele tinha sido espezinhado por pés, pontapeado e levado nas rodas de um automóvel, sendo depois cuspido para as águas amenas do Danúbio, quando a procissão Eucarística se escoava da praça.

Anoitecia sobre a cidade de Budapeste e as fotos que trazia dentro do seu corpo começaram a agitar-se e a arder de tal forma que, em frente do edifício magnífico do Parlamento Húngaro, o telemóvel se incendiou nas águas do Danúbio e aquela chama foi uma entre as milhares de outras que ardiam já pela Avenida Andrássy. Ninguém dos que contemplava o rio percebeu que aquela era uma chama diferente, pois parecia apenas o espelho de alguma mais afoita das que galgava em terra. A seguir mergulhou.

 Epílogo

A 12 de setembro a Eucaristia de encerramento, a Statio Orbis com o Papa Francisco na Praça dos Heróis! Foram momentos inesquecíveis desta jornada Eucarística. O Papa passou rentinho a nós e na homilia, a partir do Evangelho, convidou-nos a uma "renovação que se realiza através de três passagens que fizeram os discípulos e que podemos realizar também nós: o anúncio de Jesus, o discernimento com Jesus e o caminho atrás de Jesus". E concluiu: "Deixemos que o encontro com Jesus na Eucaristia nos transforme, como transformou os grandes e corajosos Santos Estêvão e Santa Isabel. À semelhança deles, não nos contentemos com pouco; não nos resignemos com uma fé que vive de ritos e repetições, abramo-nos à novidade escandalosa de Deus crucificado e ressuscitado, Pão partido para dar vida ao mundo".

Entre as cerca de 100 mil pessoas cada um se sentia uma gotinha, mas desejosos de ser sementeira e fermento para a Evangelização. Os que participámos neste Congresso trouxemos um enorme entusiasmo não apenas para celebrar a Eucaristia de um modo mais consciente, ativo e ardoroso, mas também para assumir o rosto Eucarístico da Igreja, para mergulhar na Eucaristia, para deixar que Jesus possa pulsar na nossa maneira de ser. Para levar uma vida Eucarística.

 Ir. Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs

 

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[1] Card. Angelo Bagnasco, Missa de abertura do Congresso Eucarístico Internacional

[2] Idem

[3] Card. João Orani Tempesta, Catequese dia 6 de setembro

[4] Idem

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