Uma expedição de ternura

A igreja está agora em silêncio. Sobre o altar ergue-se uma imponente custódia, por cima de uma base de gradativos patamares, que ostenta o Rei dos Reis, sob o véu do Pão Eucarístico. Em ambos os lados do altar dois candelabros com uma fiada de lâmpadas dispostas em espiral, vão tremeluzindo como sentinelas da grande Luz. Nos bancos da frente uma franja de senhoras adoradoras, expõe-se aos olhares do Sol Divino. Mais atrás, outra enlevada adoradora solitária quase a roçar a coxia esquerda…

E eis que, pela coxia esquerda, começa a progredir um som rítmico, combinando pés e bengala. A velhinha passa, na sua regularidade de batimento cardíaco – toqui tó, toqui, tó – e detém-se ao cimo da coxia, em frente a um lampadário elétrico. Puxa da carteira e, contra a luz escassa, levanta duas ou três moedas para se certificar do seu valor, antes de enfiar uma delas na ranhura disponível e… eis que nada acontece. A idosa senhora olha perplexa a mudez do lampadário que nada lhe retorque. O olhar volta-se para trás, numa dúvida: “Estará avariado?” Da franja de senhoras irrompe uma socorrista que abana o lampadário na sua teima de não dizer mais nenhuma luz. E não diz mesmo, ainda perante alguma insistência! Mas a piedosa velhinha conforma-se com a insensibilidade do lampadário e coloca o seu coração a arder quando já está a galgar para o presbitério, detendo-se em frente ao altar de Nossa  Senhora das Graças. Com um enorme sinal da cruz, rematado por um beijo nos dedos, inicia um devoto olhar à Mãe do Céu e ao seu manancial de graças prateadas. O olhar da velhinha ressuma tanta ternura que até escorre, enche o chão que pisa e, ainda que visto de perfil, chega até à adoradora. O olhar da piedosa voa até ao olhar da Mãe e a mão ousa um toque no mundo que sustenta a imagem. Recompensada por um beijo, a mão atreve-se a mais outra investida… um esforço para se colocar em bicos de pés e… conseguiu chegar às Graças de Maria! Um novo beijo premeia a mão, depois de tão árdua conquista.

Terminado este momento de intimidade, a rítmica cadência, entretecida de pés e bengala, recua e chega à frente do altar para colher aquele jorro do olhar divino. Um novo sinal da cruz com o indispensável beijo, o olhar certamente cúmplice a avaliar pelo sentido que levava o rosto, e as mãos… aqui ficam quietinhas, apenas muito unidas, em oração. Instantes depois, a adoradora pensa: “Que belo percurso devocional: primeiro a Mãe, agora o Filho!” Mas… a expedição não estava completa. 

A combinação de pés e de bengala, depois de uma vénia respeitosa, retoma o caminho até ao altar de Nossa Senhora das Graças, mas continua em frente até chegar ao limite do arco que antecede o altar-mor. Ali está a cadeira do presidente por baixo de uma pianha que sustenta a imagem de Nossa Senhora da Assunção sobre uma nuvem amparada por Anjinhos. A velhinha certamente terá de fazer também uns carinhos a esta Senhora, não vá a santinha ter ciúmes da sua vizinha!!! Decerto o mesmo olhar inicia outro secreto diálogo, porque o mesmo sinal da Cruz, rematado por um beijo, se faz. A cabeça eleva-se tanto como se quisesse atirar-se diretamente para os olhos da Imaculada, mas a distância é de respeito e aí, pensa a adoradora: “Não há possibilidade de tocar a imagem, não há!”. Mas perante aquele esticar de cabeça que lhe revela um desejo imenso de chegar à imagem… “Será que se vai empoleirar na cadeira do Presidente?” Seria de mais! Não, não vai. Mas vai ter uma ideia brilhante! Sem poder acreditar, pasmada, a adoradora vê a bengala subir, subir, subir muito delicadamente, beliscar a face de um anjinho mais insinuado e tocar o manto azul da Virgem! Se alguém, ainda que fosse um santo, visse vir contra si a ponta de uma bengala certamente se retrairia, mas não a Mãe Imaculada que, ao invés, pareceu sorrir com aquela “pancadinha de amor” e a adoradora não sabe o que Ela colocou de volta, na ponta da bengala porque logo que esta desceu foi recompensada com um rechonchudo beijo da parte da velhinha! 

Depois de rápido olhar, certamente à Santa Ana que se encontra por cima, a adoradora pensa que a missão da velhinha está cumprida… Ora, ora, qual quê?! O entendimento entre pés e bengala volta a fazer-se sentir, abafado contra a alcatifa bordô. E a velhinha dirige-se para a área do altar-mor, acariciando com as mãos, já tão abençoadas, a talha dourada que está no caminho… Afinal pertencem a um espaço sagrado. 

A adoradora fica já em suspenso a adivinhar qual vai ser o destino… Uma vistinha de olhos pelo retábulo onde o Imaculado Coração de Maria está pintado, mais umas festinhas à talha que acompanha o percurso e agora quem se vai consolar com o calor daquela mão tão doce são os rabiosques de dois anjinhos desnudados que fazem guarda de honra aos lados da porta do sacrário. Habituados às agruras do clima transmontano, decerto até um rubor ganham no rosto… Mas aqui, que está o sacrário e por cima dele o tocante crucifixo…os colóquios sobem de intensidade… em sinais da cruz, em beijos à mão bem-aventurada que tudo acaricia, até o ar por onde passa… e aquele olhar ternurento… a adoradora não o vê, mas bem o pressente. 

Mas ainda há caminho a percorrer, vamos lá! E a velhinha, sem pensar que teria algum Herodes pela frente, faz como os reis magos e regressa por outro caminho, fazendo a volta completa ao altar-mor e ao presbitério…

Logo que passa o arco, quem há de encontrar?! A Santa Teresa de Ávila. Olha, olha para ela, com aquele olhar que até quer saltar das órbitas, mas aqui, dada a elevação, se a velhinha quer tocar a Santa espanhola terá de voltar a recorrer aos seus métodos mais drásticos. Claro que a quer tocar, nem se duvida! E a bengala embaixadora é encarregada de uma nova missão. Sobe, sobe e acotovela o êxtase da mística doutora da Igreja que não se assusta, depois de assistir ao que já assistiu. E claro que a recompensa do beijo final à ditosa bengala não é esquecido! 

A esta altura a adoradora, com o coração derretido por tanta manifestação de carinho, vê que a franja de senhoras dos bancos da frente está sacudida por uma agitação, por cochichos insistentes…

Agora a adoradora está a adivinhar tudo… falta chegar à imagem de Nossa Senhora das Dores e, para um plano tão elevado, de certeza que a bengala vai ser incumbida de uma nova missão. Mas… não vai! Uma das senhoras, da franja de adoração, atalha o caminho à velhinha: “Não pode tocar com a bengala nas imagens, pois podem-se estragar!” E… maravilha das maravilhas… a reação da velhinha é a mais doce: “Ai, desculpe, desculpe!” Nem argumenta que já lhe podiam ter dito, toda contente por ter podido chegado onde chegou. Olha de soslaio para o rosto dorido da Senhora com sete espadas no coração, como a dizer-lhe toda a ternura que só assim lhe podia agora dizer. E a adoradora bem vê que as duas perfeitamente se entendem. 

Agora a velhinha engrossa a franja de senhoras adoradoras… não perceberá muito de teologia, mas a ternura do seu coração continua a escorrer e enche todo o espaço da igreja!

À honra de Cristo. Ámen.

Ir. Maria José Diegues de Oliveira

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