O atendimento de Deus
“Nesta igreja só se podem atender telefonemas de Deus”. Era o que dizia, em letras garrafais, o cartaz que estava afixado à porta da igreja onde o senhor Floriano participava na Missa, todas as tardes. Modernices do Padre Sérgio, pensavam as beatas sobre um padre novato que tinha vindo no ano anterior para a Paróquia.
O senhor
Floriano sempre sorria ao entrar, procurando no bolso o aparelho para acautelar
que dele não saísse qualquer som descarado que o pudesse deixar em vergonha no
meio das hostes do templo. Mas logo naquele dia se havia de esquecer de tal
bendito e salvador gesto!
Não, nem era
tanto o temor de ficar em vergonha, no meio de um ruído espúrio que ecoasse
desde o seu bolso! Era a convicção de que, quando vinha para uma celebração,
era para a viver em pleno e deixar às outras pessoas espaço para a viver. Era o
que ele pensava e, por isso, tanto lhe repugnava ouvir estes aparelhos no meio
da celebração!
A nave,
medianamente iluminada, dava um ar místico de recolhimento e fervor. Pois foi
precisamente na hora da elevação da Sacrossanta Hóstia que o traidor do
telemóvel havia de colocar o senhor Floriano na mira das beatas implacáveis.
Nunca tal tinha acontecido àquele angélico homem!
Mal tirou o
telemóvel do bolso, atrapalhado e trémulo, os olhos arregalados do senhor
Floriano, porém, suplantaram em perímetro as lunetas das beatas que, de
imediato, se voltaram, despejando sobre ele toneladas de censura.
No centro do
visor uma palavra irradiava assombro, em letras convenientemente maiúsculas:
DEUS. Não sei se foi por precisamente o cartaz da porta dizer que nesta igreja
só se atendia Deus, se foi pelo temor do nome, o Senhor Floriano premiu o botão
verde num ato de irreprimível obediência e temor divino. E, no meio do total
silêncio, enquanto o padre ajoelhava, perante a sagrada Eucaristia, o senhor
Floriano disse o que sempre se diz quando se atende um telefone no meio de um
local inconveniente, informando o interlocutor acerca do seu paradeiro… “Estou
numa reunião, estou numa consulta… estou na Missa". Agora a gente nova
despede o promotor da chamada com uma sms seca e desesperada. “Não posso
atender, neste momento, ligue mais tarde", etc. Mas o senhor Floriano
ainda não tivera oportunidade de ensaiar essas coisas que os telemóveis sabem
inteligentemente fazer. Nem lhe passou pela cabeça pensar que, se o ligante era
Deus, bem saberia Ele do seu paradeiro, quando até os seus pensamentos ocultos perscrutava.
Nem sequer lhe ocorreu que o mesmo Deus estaria ali na brancura daquela Hóstia
que o Padre ostentava num enlevo imenso. Fosse para se desculpar, fosse para
pedir clemência, deu aquela resposta num murmúrio, numa queixa, numa repreensão
– como se pudesse repreender Deus por lhe ligar a hora tão imprópria:
– Estou na
Missa.
E, porque o
silêncio na nave do templo, adjuvado por uma boa acústica, ampliava o mínimo
ruído, esta frase ecoou até ao extremo, chegando aos ouvidos mais longínquos
dos que adoravam a sacrossanta Hóstia ostentada pelas mãos do padre Sérgio. A
umas poucas de cabeças não teve o fervor capacidade de refrear a curiosidade e
voltaram-se, instintivamente, para o que informara estar na Missa, como se o
não soubessem, como se estar na Missa fosse novidade para elas. Não! A
novidade, novidadezinha era o beato do senhor Floriano, um homem tão pio, tão
modelar, tão da confiança do Padre ter tido o descaramento absoluto de atender
um telemóvel na hora da elevação. Viesse agora cá o Padre a chamar a atenção
sobre ninharias que os fiéis, tão desculpavelmente cometem, como chegar uns
minutos atrasados, como colocar moedas no lampadário na hora da leitura do
Evangelho, como bichanar que o padre cortou o cabelo, no momento em que ele
está a iniciar a homilia, seguir com o olhar ou até comentar a farpela de uma
beldade, que entra na igreja com ares de atriz de cinema. O que é tudo isso
comparado com o execrável abuso de um atendimento do telemóvel? E milhares de
vezes culpável por ser na hora menos recomendável?! Esquecer-se de desligar o
telemóvel a qualquer um escapa, e um toque fugidio a qualquer um acontece, mas
atender?! Oh céus! Em quem se pode confiar?! Quem poderá servir de modelo para
o bom comportamento na Missa?! Não é por certo este senhor Floriano que fica já
com um cadastro devastador naquelas cabeças que não toleram quem as supere!
Ora o senhor
Floriano sentiu o peso de todo o templo, como se este desabasse sobre si.
Depressa premiu o botão vermelho para não admitir réplica, não fosse Deus
entabular com ele algum discurso teológico que o fizesse abstrair do momento
denso e sagrado que estava a decorrer. Mas era tarde para os juízes que o
observavam, mau grado ele logo se arrepender, mal o fez, de ter desligado o
telemóvel. Mas já irremediavelmente. Devia ter tido a delicadeza de perguntar a
Deus o motivo do telefonema, pensou. Tarde demais! Foi precipitação absoluta
aquela intimidação dos olhares, porque para ele o seu ato era perfeitamente
legítimo e obrigatório: ter atendido. Afinal era Deus que lhe tinha ligado!
Meteu atabalhoadamente o telemóvel no bolso e lá pôde comprovar que uns quantos
olhares de lado o alvejavam de um modo fulminante. Sentiu-se desconfortável,
tanto mais quanto viu o Padre segurar no cálice e lançar-lhe, com uma clara
expressão facial, um aviso sério.
O senhor
Floriano encolheu-se e desejou ter ali um buraco para se esconder. Não havia
nenhum!
No momento
da paz, com os votos regulamentares, ainda ouviu uns zunzuns que nem conseguiu
interpretar, mas que terminavam na palavra telemóvel. Sentia-se brutalmente
censurado e, ao mesmo tempo, injustiçado. Afinal fora Deus que lhe ligara! As
pessoas é que não entendiam isso, pois não tinham visto, como ele, o nome DEUS
no visor! Ele não era daqueles descarados que, sob o céu aberto, atendem um
telemóvel e ainda por cima no momento mais respeitável da elevação, nem como
aquele que uma vez viu em Fátima, bem junto do aglomerado de gente, mesmo nas
barbas da capelinha das aparições, com o terço numa mão e na outra o telemóvel
encostado ao ouvido a falar descaradamente. Isso sim que era abuso! Mas ele não
era desses.
No fim da
missa lá levou com uma revoada de protestos dos mais próximos, porque bem sabia
que muitos não teriam à-vontade para lho dizer na cara. Bem pior foi quando um
dos acólitos o chamou à sacristia, que o Senhor Padre queria falar com ele.
Mau, mau, mau… chamado a tribunal?!
– Senhor
Floriano, desde que vim para esta paróquia sempre o considerei um modelo de
cristão e de paroquiano, e aliás, até várias vezes o tenho apresentado assim,
perante algumas pessoas, como exemplo, como modelo de bom comportamento. O que
encontro hoje? Este homem cai no terrível vício que tanto me tenho esforçado
por debelar: atende um telemóvel na missa! Senhor Floriano, pode-me explicar o
que lhe deu naquele momento, naquele preciso momento, impossível de interromper
com o toque de um telemóvel, quando mais com um atendimento a céu aberto?!
Percebe onde eu o censuro amargamente? Não é tanto por se esquecer de desligar
o aparelho… pronto, qualquer um se esquece. Mas atender!!! Francamente! Como
vou daqui para a frente poder chamar a atenção de alguém?!
O senhor
Floriano tinha estado em silêncio, enquanto o Padre falava, à medida que se ia
desparamentando. Mas sabe Deus com que sacrifício para se conter.
– Senhor
Padre, em tudo o que diz tem razão, mas há algo que não sabe e que vai tremer
quanto eu lho disser.
O padre
pareceu impacientar-se, enquanto colocava a túnica na cruzeta e fechava o
armário.
– Ora diga
lá então.
O senhor
Floriano, calmamente, tirou o telemóvel do bolso e procurou a lista de chamadas
recebidas. Tudo na frente dos olhos arregalados do padre que viu surgir o nome
divino, inefável e impronunciável, DEUS!
– Diga-me
lá, senhor Padre Sérgio, o que faria no meu lugar?
Olhou o
Padre que, por um manifesto esgar de pasmo, encorajou o Senhor Floriano na sua
apologia:
– Eu até
acho que fiz pouco, pois desliguei logo, por respeitos humanos ou o que quer
que seja. Disto é que eu me devo confessar. Agora ter atendido, não senhor
Padre! Tinha de atender! Não se diz que deve obedecer-se antes a Deus do que aos
homens?! Pois aí tem!
O Padre
Sérgio recompôs-se e, enquanto dobrava o cíngulo, tentou fazer um raciocínio
lógico:
– Meu caro
amigo, deve haver aqui alguma coisa que não está no lugar. O senhor não tinha
este número aqui gravado?
– De Deus?!
Acha que teria?!
– Podia ser
de outra pessoa e até enganar-se ao escrever. Às vezes acontece. Porque estes
não são os métodos normais de Deus comunicar com o ser humano…
– Pois não
sejam, mas hoje foram. E, se quer que lhe diga, acho que estou a perder
demasiado tempo e o que tenho a fazer é devolver a chamada…
– Pois bem,
devolva lá!
– Não me
diga que está interessado em ouvir o que Deus me quer dizer?!
O Padre
ficou horrorizado:
– Por quem
me toma, senhor Floriano. Deixo-lhe toda a privacidade do mundo. Agora que isto
me deixa perplexo, deixa. E, já agora, se me considerar digno de me esclarecer,
queira perguntar então a Deus o que devo fazer. Muito lhe agradecerei esse
favor.
E virou-se
para a comoda da sacristia, colocando o cíngulo na gaveta respetiva.
– Muito bem,
senhor Padre, ligo mesmo aqui na sua frente.
O padre
voltou-se e esperou, impaciente, enquanto o Senhor Floriano premiu o botão
apropriado, possibilitando ao padre bisbilhotar qual a operadora de Deus. Não
se coibiu de rir à socapa, convencido como estava que ali havia algo que não
batia certo.
O senhor
Floriano deixou uns segundos largos o telemóvel colado ao ouvido e quando o
tirou disse:
– Não
atende.
– Estranho!!!
Primeiro ligou e agora não atende.
– Bom,
senhor Padre, se me dá licença tenho de ir que a minha filha já deve estar
preocupada com a minha demora…
– Também
saio já.
E foi buscar
o casaco que vestiu enquanto seguia o bom Floriano. Já lá fora depararam-se
ambos com um pedinte que se sentava diariamente à porta da igreja, na hora da
Eucaristia. Levantava-se agora e, certamente, se dirigia a um local mais
recatado para fazer o balanço da esmolaria dessa hora. E foi então que o senhor
Floriano levou a mão à testa, enquanto se virava para o Padre Sérgio, de boca
aberta.
O Padre
temeu pela saúde do homem que, entretanto, exclamou:
– Já sei
quem é Deus!
– Ora essa!
Antes não sabia?! Nunca sabemos cabalmente nesta terra, é certo, mas… –
Retrucou o Padre que já se preparava para fazer uma nova homilia.
– Não é
isso, senhor Padre. Já sei quem foi o tal Deus que me ligou.
O padre,
cada vez mais surpreso, esperou a revelação.
– O Deus que
lhe ligou no meio da missa?! Então afinal não era mesmo Deus?! Bem me parecia!
– Era, era,
pois não sabe o Senhor Padre que olhar para um pobre é ver a Deus?! Pois este
foi um miserável homem que uma vez encontrei no hospital, a acompanhar a esposa
cancerosa. Ela tinha de fazer uma série de exames no dia seguinte, eram de
longe, campónios, sem saber nada de cidade, sem ter onde ficar, se calhar sem
ter dinheiro para um alojamento... Era de meter dó! Calhou que eu estava ali
com a minha esposa. Foi pouco antes de ela falecer. Ao ver aquela miséria
socorri-os. Ficaram em minha casa e no dia seguinte levei-os outra vez ao
hospital e não os larguei enquanto não se despacharam. E disse-lhes que, quando
precisassem de voltar, que me contactassem novamente para eu os ajudar. Ora
acontece que não perguntei o nome ao homem nem à mulher e, mais tarde, quando
gravei o número dele no meu telemóvel – deu-mo num papelinho sem nome – chamei-lhe
Deus, porque me lembrei que é como diz Jesus no Evangelho: “tudo aquilo que
fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fareis"[1].
O Padre estava
sem réplica.
– Oh, senhor
Floriano, isso é… - começou por gaguejar.
– Não diga
nada, senhor Padre. Prometi a Jesus não contar isso a ninguém, mas agora já
falhei…
– Volte a
ligar a Deus, senhor Floriano. – Sorriu o Padre.
O homem
voltou a ligar e, como novamente o telefonema foi para a caixa do correio, o Padre
sugeriu:
– Vamos ao
hospital onde o encontrou. Certamente é lá que ele está. E vai-me permitir que
eu o ajude a ajudar Deus!
Os olhos do
senhor Floriano estavam húmidos, mas sorriu. Os do Padre também não estavam
muito enxutos e brilhavam de comoção. Parecia-lhe que ia entrar numa outra
faculdade de teologia para fazer o estágio da caridade fraterna.
Maria José Diegues de Oliveira



Querida Ir. Maria José: já o sabia, mas agora rendo-me ainda mais pela sua veia literária, pelo enquadramento das suas lições de vida, pela poesia que escreve. O meu fraterno abraço. Força e obrigado por nos lembrar que não vemos Deus, mas sentimo-lo em todos os momentos. Ah! gostei da crítica didática às Beatas, que muitas vezes criticam, sem saber que estão a pecar.
ResponderExcluirDomingos Bainha (Moçambique)
Querida Irmã Maria José, desde que a conheço, tem sido uma luz no meu Caminho. E acabo de ler esta " parábola " tão simples e tão rica em sabedoria sobre onde podemos realmente, encontrar Deus.!
ResponderExcluirBem haja pela partilha e que Deus a ajude para que continue a ser assim, como é! 💖
Querida Irmã Maria José, desde que a conheço, tem sido uma luz no meu Caminho. E acabo de ler esta" parábola " tão simples e tão rica em sabedoria sobre onde podemos realmente, encontrar Deus!
ResponderExcluirBem haja pela partilha e que Deus a ajudepara que continue a ser assim, como é! 💖
M. Fátima Costa Vaz ( Bragança)
Fantástico! Este conto me prendeu do começo ao fim! Parabéns talentosa prima! Adriana.
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