José e o cavalinho de baloiço


O dia tinha-lhe corrido tão mal que, quando tropeçou num objeto duro e caiu, achou que as franjas do dia reuniam ainda alguma palavra muito áspera para sobre ele desferir. Embateu na bancada de trabalho, que se deslocou e, ato contínuo, soou um estalo de madeira a partir-se. O som chegou aos seus ouvidos, pontiagudo e frio, abafando os ruídos metálicos da cidade que tinha despedido o sol para o seu descanso e se apossava da noite morna de primavera. Um pressentimento mau percorreu o seu corpo. Levantou-se, em sobressalto, para verificar à luz da candeia. Era no tempo em que as chamas das candeias lançavam agoiros sinistros no ambiente e logo uma dor dardejou o seu peito, ao constatar que se partira a peça com que ele ia terminar o cavalinho de baloiço. Foi como se toda a noite lhe fechasse a esperança de conseguir a sobrevivência para os próximos dias! A custo sacudiu a noite para apanhar os dois pedaços de madeira que colocou em cima da bancada de trabalho. Depois inclinou-se sobre eles e começou a chorar copiosamente, sem saber o que ia fazer no dia seguinte. Na sua mente passavam cenas do dia terrível que vivera.

Logo cedo viera Malaquias, o usurário judeu, parente afastado de uns parentes seus, que havia quatro anos o recebera nas terras inóspitas do Egito e o explorara no aluguer daquele espaço exíguo e miserável que agora tencionava vender. Fora no tempo duro da fuga, em que tivera de se agarrar a qualquer aceno de ajuda. José teria preferido ir viver para o campo, uma vida frugal e livre, onde o Menino pudesse correr e brincar naquela liberdade transbordante que o caracterizava e onde a sua Mãe pudesse mover-se tranquila e espontânea. Porém um sentimento de gratidão para com Malaquias ou aquele temor de magoar quem lhe estendera uma mão na época da maior aflição, tinha-o prendido à odiosa Alexandria, putrefacta de vícios e poluição.

– Conseguiste já encontrar outro espaço? – perguntara-lhe Malaquias, frio e distante.

– Amigo, o trabalho mal me deixa sair da oficina…

– Tens tido muito trabalho, então?!

A insinuação calou José, porque os rendimentos do trabalho, tão árduo e extenuante, se lhe sumiam naquele aluguer exorbitante que o sufocava e mal lhe dava para as despesas domésticas. O que valia eram as habilidades de Maria que, com alguns trabalhos manuais, conseguia obter mantimentos e fazia do pouco que angariavam um milagre de multiplicação! E, muitas vezes, ainda dava para partilhar com os mais pobres do que eles.

Mas Malaquias ia com outro propósito, pois nunca lhe interessara a sobrevivência daquele lar de amor.

– Consegui comprador. – Despediu com secura.

José parabenizou-o, timidamente, sem descortinar se para si a notícia era boa ou má. Mas o sorriso morrera-lhe completamente no rosto quando soube que o comprador exigia que a casa lhe fosse entregue dali a dois dias. E mais, Malaquias queria partir no dia seguinte e vinha buscar o pagamento do aluguer desse mês, que ainda nem tinha terminado.

José ficara estarrecido a procurar o som daqueles dois olhinhos coruscantes de ambição, antes de se afastar para ir buscar o lenço-cofre que estava à guarda de Maria. Trouxe-o, em silêncio, e contou as moedas devagar, trasladando-as com os dedos calejados desde o lenço até à ávida mão de Malaquias, como se estivesse a contar histórias de muita luta e suor. Faltava uma moeda. José achou que ele iria ceder, mas Malaquias, com a sua frieza capitalista, fechou assim o negócio:

– Entregas depois ao comprador. 

E fez-lhe assinar um documento de compromisso. Enquanto José assinava o documento, Malaquias percorria o olhar pela oficina e detetou, com ar sarcástico, as peças do cavalinho que iam ganhando forma.

– Que raio de trabalho é este?! – Apontou.

– É um cavalinho de baloiço...

Quando José lhe entregou o documento, Malaquias despediu-se nestes termos:

– Com um cavalinho assim, tens forma de correr o mundo!

E saiu, secamente, sem um olhar de fraternidade. José acariciara as peças do cavalinho que o funcionário de um alto dignitário lhe tinha encomendado para a criança deste, enquanto lhe dissera: 

– Só um carpinteiro que tem uma criança de quatro anos é capaz de fazer um cavalinho bem feito. 

José tinha recrutado Jesus para planearem juntos o cavalinho. E, feito arquiteto, o Menino vinha inspecionar todos os dias a sua obra. A imagem da sua encantadora criança, com olhos cor de mel e aquele sorriso que era vital não deixar apagar dos seus lábios, fê-lo erguer das lágrimas que encharcavam a mão. Estava exausto, depois de três noites mal dormidas, para acabar as obras que tinha encomendadas, mas já organizara a noite para, depois de um rápido descanso, acabar essa e mais duas que poderiam obter-lhe, não apenas a conclusão do pagamento do aluguer, como também a incerteza que o acompanharia na procura de um outro teto que queria longe da infernal Alexandria. Pensava mesmo mudar-se para um ambiente rural e talvez fazer-se agricultor e já tinha um plano apalavrado com um dos seus clientes que prometera ajudá-lo.

Mas este percalço inusitado atirava os seus projetos para um vórtice de incertezas. Como poderia terminar as três encomendas em aberto, mesmo trabalhando afincadamente como se estivesse a estrear as forças saídas de uma noite de sono maduro? É que aquela peça que se partira, demorava muito, muito a elaborar-se. Sentia-se desfalecer e as pálpebras, a que não consentira sossego havia muitas horas, estavam a trair-lhe as esperanças. Afigurava-se-lhe que não iria conseguir! Quem sabe talvez tivesse de mendigar outra vez um estábulo de animais para não deixar os seus tesouros ao relento. Mas ali não era Belém e metia-lhe medo aquele ambiente selvagem, onde os estrangeiros eram olhados com desconfiança, senão muitas vezes com puro ódio. Não podia pensar nisso!!! 

Estava quase a deixar-se cair na armadilha daquela voz sedutora que o desespero lança sobre as esperanças, em horas derradeiras. Que o desespero às vezes é tão fácil ser escolhido, para substituir as pretensas fragilidades e justificar a acédia! Sabia que Deus lhe entregara um sonho, sempre se lhe afigurara grande demais para a sua imensa fragilidade, mas confiara n’Ele. Agora tudo à sua volta o sufocava e o silêncio de Deus parecia deixá-lo à mercê das suas forças. Quis erguer as mãos, mas elas pesavam tanto que caiam ao chão, derrotadas. Os braços despregavam-se-lhe do torso e, como se fossem líquidos, derramavam-se com as suas lágrimas, fazendo lama com o serrim que cobria o pavimento. 

José, cego de dor, ergueu os olhos, vazados pelas lágrimas, e a claridade da candeia trazia-lhe a imagem de uma floresta singular, na qual as árvores eram providas de ramos, ora retos, ora recurvados e estes com vários tipos de curvatura, toda muito regular. Impulsivamente quis pegar na serra e cortar um ramo curvo que avistava, depois de calcular mentalmente todas as medidas que tinha empregue na peça que se partira, mas os braços e as mãos jaziam no chão inanimados. Mas era a sua oportunidade!

Forçou-se a reagir. E logo deu por si a louvar a Deus porque a peça se partira, não permitindo que uma obra mal feita saísse das suas mãos. Um cavalinho de baloiço precisa de ter uma base robusta, para aguentar com os sonhos de um menino. Antes partir-se ali do que defraudar a euforia de uma criança feliz. E a oração movia-se-lhe por dentro, a manar de uma fonte que afinal tinha, dentro, ainda que não soubesse aonde: “Vê, Senhor, como sou pobre e incapaz. Tenho mantido a tua família neste deserto de aridez e de descrença com tanta dificuldade e agora tudo se abate sobre mim! Socorre-me, Deus de Israel!” A oração vinha-lhe de um imenso amor que lhe ardia no peito. Era, muito mais que sentimento, uma força imensa, maior que ele próprio, capaz de fazer erguer o mundo. Mas nada ainda parecia erguer-se. Deitou-se ele e rojou o corpo pelo chão à procura dos seus braços até que eles aderissem de novo às clavículas vazias. Deu voltas até que os braços regressassem ao seu lugar. Depois procurou as mãos. Encontrou a direita e comprimiu-a entre o coto vazio e o pé da bancada até conseguir que ela se soldasse ao pulso. Fez a mesma operação para a mão esquerda, agora com mais facilidade. Puxou da serra e galgou a árvore para serrar o ramo. Descascou-o e, depois de uma desbastação rápida com um formão, foi só aplicar a lixa. Pensou que o ramo estava verde e poderia empenar, mas não! Sentia-o com uma textura seca. Fez pressão sobre ele a ver se partia. Resistiu. Era uma peça segura e fazia par com a outra já aplicada. Estava pronta para completar o cavalinho de baloiço! Colocou o primeiro prego na posição certa e segurou o martelo, mas quando deu a primeira pancada, a cabeça do martelo desfez-se e pulverizou o prego. José ficou com o cabo do martelo na mão e sem o prego. Meu Deus! Agora que tinha a peça certa não poderia aplica-la?! Olhou a oficina em busca de um objeto duro com que pudesse pressionar os pregos. Encontrou a plaina e com ela bateu no segundo prego. De imediato a plaina se desintegrou e o prego se evaporou. Num assomo de teimosia, José foi buscar uma pedra, mas também a pedra se esfumou e fez desaparecer o terceiro prego. Ai, não havia uma consistência em nada? Já tinha medo que as suas mãos se desfizessem, novamente. 

Nisto começou a ouvir trotes de cavalos, parecendo-lhe uma parada militar. José tinha um trauma com a aproximação de soldados, por causa da memória indelével da matança dos inocentes. Mas assomou ao postigo, com o coração em sobressalto pelo seu Menino e reparou que não eram os Romanos nem qualquer exército do antigo Egito, que tivesse ressuscitado. Era apenas um cavalo e um cavaleiro, ambos enormes e medonhos. Tinham parado à frente da oficina. O cavaleiro tinha uma coroa empoleirada na cabeça sinistra. No seu rosto o turbilhão de barbas fazia naufragar um esgar de sofrimento e as sobrancelhas hirsutas eram um redemoinho voraz onde perigavam os olhos. O homem medonho puxou de uma espada e brandiu-a com aquela ferocidade dos guerreiros insensíveis e José todo tremeu. Mas no instante seguinte a espada murchou lentamente, recurvando-se até se derramar, como tinha acontecido aos seus próprios braços. E, logo de seguida, o próprio homem ia caindo aos bocados, com os seus adereços, a começar pela coroa. Depois foi o cavalo que se foi partindo como se fosse de madeira. Atrás desta cena movia-se uma espécie de cortejo fúnebre. “O rei Herodes morreu!”, dizia um refrão, cadenciado entre o som de tambores dolentes.

Depois surgiu um coro de anjos, como o daquela noite em Belém, pairando acima dos soldados, eclipsando-os numa claridade etérea. Um canto subtil, sob uma melodia inexprimível a lábios humanos, chegava aos ouvidos de José: “Meu filho, sai do Egito e vai para a terra de Israel”.

No mesmo instante que percebia estas palavras, José ouviu um estrondo e logo a seguir um choro distante de criança. E acordou em sobressalto, vendo que, à sua frente, Jesus se contorcia de dor agarrado a um dedo que sangrava. Correu para ele:

– Filho, o que fizeste?

– Estava a terminar o cavalinho. – deixou escapar do meio das lágrimas.

De facto o martelo jazia ali, afinal firme, junto à peça de madeira inerte e inteira e um dedo de Jesus sangrava com um golpe pontiagudo. José tomou o Menino nos braços e beijou-lhe o dedo, sugando as gotas de sangue, que escorriam ao mesmo ritmo que as suas próprias lágrimas, e estreitou-o contra si num abraço todo recamado de ternura. Maria entrou sobressaltada. 

– O que aconteceu?! – Perguntou.

Jesus disse, abraçado ao pai:

– Estava a terminar o cavalinho e o martelo levou o prego para a minha mão.

Maria aproximou-se e José entregou-lhe o filho amado. Mas mal Maria pegou na mão do seu filho nada viu nela de preocupante. José verificava, maravilhado, que o dedo de Jesus estava curado. Maria olhava os dois, sem compreender nada, mas tudo guardando no seu coração. Jesus, já com as lágrimas enxutas e no meio de um sorriso, disse a José:

– Abba, foi o teu beijo que curou o dói-dói que o prego fez na minha mão. 

Um dia, muito mais tarde, quando lhe pregaram as mãos e os pés, Jesus recordar-se-ia do beijo do seu Abba. José acariciou-lhe a fronte e beijou-a, com ternura. Entretanto procurou a peça da base do cavalinho, segurou-a e disse ao seu Menino:

– Foi o teu amor, que curou a base do cavalinho?!

– Não Abba, tu estavas a colhê-la de uma árvore, quando eu entrei!

E apontou-lhe a outra extremidade da bancada onde jaziam os dois pedaços de madeira da peça partida. Só então José se lembrou que aquela peça fora ele próprio que a partira, ao experimentar a sua consistência e depois fizera outra, a que ele supunha ter colhido da árvore no seu sonho. O cansaço fora tanto que se esquecera completamente. Também reparou que uma das pernas da bancada estava rachada e percebeu que fora esse o único sinistro proveniente da sua queda. Sorriu muito para Jesus e disse-lhe:

– Peço-te que fiques aqui para me ver terminar o cavalinho de baloiço, e para seres tu o primeiro a experimenta-lo. Um dia hei-de fazer assim um para ti!

Mas Jesus correu para a mãe, fazendo-a sentar e aninhou-se no seu colo. Segurando-se aos seus braços, fazia-lhe dançar o regaço, num embalo rítmico, vertendo riso e melodia. E Maria, sentada num degrau, correspondia, dançante e menina, transbordando de alegria para os olhos deliciados de José.

Pelo olhar que Jesus lhe lançava, José percebia que era como se lhe dissesse: “Não Abba, eu não preciso de um cavalinho de baloiço, de madeira. Quando me sento no colo da mãezinha, sinto o embalo da terra que dança e me faz dançar no seu movimento, aspiro o perfume a espigas de um país longínquo e o da flor das romãzeiras que se erguem num jardim de fortaleza. Escuto os segredos das folhas da videira e provo os cachos maduros que no outono, generosam o delicioso vinho. Aspiro o odor dos lírios e canto com as aves a sua primavera.”

José lia-lhe tudo isto nos olhos e não sabia de onde trazia ele aquela linguagem tão distante, como se a vivesse nesse presente e sabia que se referia aos campos de Israel. Jesus afagava a testa da sua mãe e dizia-lhe, ainda pelo olhar: “Também sinto nos olhos de minha mãe a cor de um fruto que dá óleo”. E José percebia que ele se referia aos olivais do seu azeite abundante e teve saudades da terra de Israel. 

Depois Jesus levantou-se, abruptamente, do colo de Maria e veio lançar-se nos braços de José, soprando sobre o sorriso deste, afagando-o na testa, e afastando-lhe os cabelos numa carícia, como se lhe dissesse: "E na tua respiração, Abba, os meus cabelos esvoaçam, com um hálito ao mel dos campos, que todas as abelhas laboram, como se galopasse para um futuro lindo".

Estava a nascer o sol e um raio entrava pelo postigo e incendiava-se no brilho dos olhos de Jesus. José, abraçado ao Menino, sentia incandescer o alento dentro de si. Olhou para Maria e disse-lhe:

– Maria, vamos partir para a nossa terra saudosa! 

Maria permaneceu embasbacada de espanto, enquanto Jesus se lhe voltava a aninhar no regaço, e confirmava: 

– Sim vamos, porque o meu Pai chamou!

José pegou no martelo, sabendo que o que um artista precisa não é da habilidade das suas ferramentas, mas que possa contar com as características que lhe são próprias. Do martelo ele só queria agora que se mantivesse duro e firme, para os últimos pregos, a fim de instalar a base recurva de uma floresta de milagre. Percebia que dos braços de um homem ou de uma mulher Deus pode fazer todas as ferramentas da terra e todas as obras de bondade. E desta vez os seus braços não caíram, e o martelo não se esfumou.

Maria estava ainda especada a olhá-lo, sem compreender, até que José lhe disse:

– Maria, enquanto eu termino o cavalinho e vou entrega-lo, com as outras encomendas, por favor acaba de arrumar as nossas coisas.

– Mas para onde vamos afinal, José?!

– Podemos partir para a terra de Israel: Herodes morreu!

E Maria, com um sorriso que fazia dançar o serrim da oficina, foi aprontar a bagagem, pois sabia que José era o homem dos sonhos.

Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs


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