A marca do Amado
Grava-me como selo em teu coração, como selo no teu braço, porque forte como a morte é o amor, implacável como o abismo é a paixão; os seus ardores são chamas de fogo, são labaredas divinas. Nem as águas caudalosas conseguirão apagar o fogo do amor, nem as torrentes o podem submergir. Se alguém desse toda a riqueza de sua casa para comprar o amor, seria ainda tratado com desprezo.
(Cant 8, 6-7)
No tempo em que estas palavras foram escritas talvez não fosse
tão comum marcar a pele com tatuagens, pelo menos voluntariamente. Os escravos
podiam receber uma marca indelével na pele, para serem reconhecidos como
propriedade dos seus senhores. Lembramo-nos das marcas dos prisioneiros de
campos de concentração. E vivemos num mundo cheio de marcas. As marcas
comerciais que se nos colam aos olhos, até com risco de nos cegarem, os
hematomas, fruto da violência ou dos desastres…
No tempo da esposa do cântico dos cânticos a tatuagem não se
fazia com a ligeireza de um adorno, ou um chamariz para dar nas vistas. A amada
refere a tatuagem como sinal de um amor perene, uma marca que vai mais além da
pele e é cravada no interior, naquela cavidade recôndita onde tem origem o
amor. Num coração muito mais que físico.
Numa primeira impressão, dá ideia que este texto poderia ser
colocado nos ardores de uma novela, ou de um romance, mas a Santa Igreja não
hesitou colocar parte desta passagem na Liturgia das Horas, na celebração do Comum
das Virgens, um ambiente de celebração de mulheres que se entregaram na plenitude
do seu ser a Cristo, dedicando-lhe a vida, a vontade e o ser. Querendo viver
n'Ele e com Ele, assumem por Ele um amor apaixonado. É esta a marca dos
místicos, marca única e intransmissível, num ser que se afirma como de Deus e
em cujo corpo se pode ler o próprio Evangelho de Deus.
Na catequese aprendemos que alguns dos sacramentos imprimem
caráter. E este caráter sempre o imaginei como uma tatuagem na alma. Um
batizado é-o para sempre, um sacerdote é-o para sempre.
Em várias passagens da bíblia, o próprio Deus fala destas marcas
de amor. Uma das mais significativas está em Isaías 49, 16: "Eis que Eu
gravei a tua imagem na palma das minhas mãos." As mãos são o local do
nosso corpo onde o sentido do tato está mais aceso. As próprias mãos são
submetidas a muita atividade. Uma ferida aí provoca sempre uma dor exacerbada.
O próprio Jesus arrosta com as feridas da crucificação e faz
questão de as mostrar no seu corpo glorioso, durante as aparições posteriores à
sua ressurreição. As marcas ou estigmas de Jesus, sempre presentes nas
esculturas e na iconografia, fazem parte da mensagem de amor de um Deus ferido.
Vejo-as como fendas ou orifícios por onde se pode “assaltar” o Templo Santo, o
Corpo do Senhor.
Alguns santos, ao longo da história, foram também gravados com
os estigmas da paixão de Jesus e tal adorno não significa senão um amor imenso,
uma identificação amante para com o Divino Crucificado. Também Alzira Sobrinho
gravou no seu corpo, com um ferro em brasa, sinais que lhe recordassem:
"Alzira é do Senhor!" Ela sentiu uma necessidade imperiosa de se
identificar com o seu Jesus Crucificado através de cinco chagas acesas no seu
corpo: quatro foram feridas na carne (no peito e nos braços), mas a quinta
chaga era a aliança que lhe foi colocada no dedo, para lhe recordar a união
mística com Jesus. A aliança era considerada por Alzira a sua mais dolorosa
chaga. E, afinal, esta era uma dor não física!
As marcas do amor são feridas. Qualquer poeta o admite. Camões o
cantou num soneto. Mas nos místicos esta realidade adquire uma outra
ressonância. É uma dor que acorda no céu, uma agonia que se esgota num profundo
gozo.
Todos nós somos portadores de feridas e vulnerabilidades, mas
não podem ser estas a condicionar a nossa caminhada, nem a justificar inércia
ou malvadez. A este propósito apraz-me trazer à reflexão o que o Papa Leão XIV
refere na encíclica Magnifica Humanitas:
“Tudo o que se apresenta como “limiteˮ
– incapacidade, doença, velhice, sofrimento,
vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a
corrigir, e não como um espaço onde o humano amadurece e se abre à relação. Em
vez disso, devemos recordar que o humano não floresce apesar dos limites, mas,
muitas vezes, através dos limites. (…) É precisamente na nossa limitação que
encontram espaço a compaixão, a sincera preocupação perante as necessidades dos
outros, a generosidade que surpreende mesmo no meio da escuridão e do fracasso,
a experiência espiritual e a adoração de Deus.” (MH 118 e 119)
E
rezo:
Meu Jesus, fere-me de amor. Fere-me
de amor, Jesus! E que eu possa odorizar este amor na discrição dos meus gestos
genuínos e puros.
Marca o meu coração com a lembrança
do teu nome dulcíssimo, e nos meus lábios não florirá senão a alegria que te
proclama, as palavras de bênção que desejas pronunciar desde mim.
Que não precise de me evidenciar para
que todos percebam que te pertenço; que não tenha de gritar para que todos
ouçam desde mim as tuas palavras; que não tenha de me disfarçar, para esconder
a fragilidade que é perdoada pela tua misericórdia.
Que eu seja a brisa suave que se
apaga e te proclama, o pequeno sulco por onde a tua água dá de beber à
multidão.
Irmã Maria José
Oliveira, sfrjs



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