As Tendas do Tabor

 

Diz Pedro a Jesus:

«Mestre, como é bom estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». (Lc 9, 33b)

Eu sei, Jesus, que Tu ouviste esta minha palavra como muitas outras que me saem de uma espontaneidade tosca e aparentemente leviana. Posso ser primário mas creio que não sou leviano. Prometia-te três tendas, sem me assegurar dos recursos para levar a cabo tal tarefa. De facto aqui não temos ganchos, nem estacas, nem cordas… nem toldo. Mas tu sabes (que sabes tudo!) que o que te disse não é um mero exercício retórico. Desejo mesmo ficar aqui e guardar-te com os teus dois companheiros. Como se guarda um tesouro, como se protege um amado.

Eu entendo muito pouco acerca do que dizeis. Sou um homem em bruto. Mas preciso de tempo para que a minha inteligência perscrute o mistério. É tudo denso para a minha capacidade tão incipiente! Apresso-me a prometer-te três tendas, como para acautelar que tudo acabe rapidamente e eu não vá a tempo de entrar dentro do mistério. Tenho verdadeira urgência em que não se desfaça esta manifestação que acabei de receber e que pressinto me vai fazer falta para toda a vida. Temo deixá-la ao relento. Desejo guardar-vos em algum lugar, de modo que este momento não me escape e se prolongue para me dar espaço de o captar, de mergulhar nele.

Tenho para mim que vou conseguir levar a cabo a tarefa de construtor de tendas (mais tarde, quando me encontrar com Paulo e souber que ele é fabricante de tendas, ainda terei mais capacidade).
Há muito colmo nesta nuvem que nos envolve. Além disso, eu tenho experiência com a espuma das ondas e posso calafetar todas as fugas do ambiente que nos envolve.
Agarramos num troço da paisagem e cobrimos com ela o nosso teto, para que todas as imagens que vemos se situem dentro deste espaço que as decifra.
Eu quero muito abrigar este momento que temo evapore pela insensibilidade do firmamento, quero conservar este calor límpido, como não vi nenhum outro. O calor das chamas é denso e o do sol é volúvel. Este é arejado e respirável.
Quero acarinhar este diálogo, não posso pensar que se escape no desvario do vento. Ele não lhe dará valor algum. Quero que se desenvolva como num útero de carinho e são para isso as três tendas, não menos que três porque a verdadeira hospitalidade precisa de uma repetição e de uma afirmação reiterada. Recordo o patriarca Abraão e os três visitantes que o honraram. Quero ter esta hospitalidade que me parece a mais fundamental da minha vida. Porque só aqui o encontro e só a experiência com Deus nos diz para onde caminhamos. Eu sei que me vais levar outra vez para baixo, que me pedes para carregar esta experiência rumo ao mundo concreto onde convivem o bom e o mau que caracteriza a natureza humana, mas deixas-me esta experiência como referência de um estado que me há de situar o sentido.

Podes pensar, Tu e outros que me ouçam, que eu disse esta frase: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres farei três tendas!” num excesso de zelo adulador, porque nem me referi em deixar-nos a mim e a Tiago e João ao relento, sem pensar na nossa acomodação. Mas de facto há um núcleo onde ainda eu não consigo habitar. Nem Tiago, nem João. Nós temos de nos agarrar a este núcleo para o acarinhar dentro de nós. Por isso, te peço, humildemente, Senhor, (tu sabes que sim, tu sabes tudo!): Aceitas que, como a Tua Mãe, possamos acarinhar-te dentro de nós?! Ser nós mesmos as tendas?!

Ir. Maria José Oliveira, sfrjs

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