As Tendas do Tabor
«Mestre, como é bom estarmos
aqui! Façamos três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
(Lc 9, 33b)
Eu sei, Jesus, que Tu ouviste
esta minha palavra como muitas outras que me saem de uma espontaneidade tosca e
aparentemente leviana. Posso ser primário mas creio que não sou leviano.
Prometia-te três tendas, sem me assegurar dos recursos para levar a cabo
tal tarefa. De facto aqui não temos ganchos, nem estacas, nem cordas… nem
toldo. Mas tu sabes (que sabes tudo!) que o que te disse não é um mero
exercício retórico. Desejo mesmo ficar aqui e guardar-te com os teus dois
companheiros. Como se guarda um tesouro, como se protege um amado.
Eu entendo muito pouco acerca
do que dizeis. Sou um homem em bruto. Mas preciso de tempo para que a minha
inteligência perscrute o mistério. É tudo denso para a minha capacidade tão
incipiente! Apresso-me a prometer-te três tendas, como para acautelar que tudo
acabe rapidamente e eu não vá a tempo de entrar dentro do mistério. Tenho
verdadeira urgência em que não se desfaça esta manifestação que acabei de
receber e que pressinto me vai fazer falta para toda a vida. Temo deixá-la ao
relento. Desejo guardar-vos em algum lugar, de modo que este momento não me
escape e se prolongue para me dar espaço de o captar, de mergulhar nele.
Tenho para mim que vou
conseguir levar a cabo a tarefa de construtor de tendas (mais tarde, quando me
encontrar com Paulo e souber que ele é fabricante de tendas, ainda terei mais
capacidade).
Há muito colmo nesta nuvem que nos envolve. Além disso, eu tenho experiência
com a espuma das ondas e posso calafetar todas as fugas do ambiente que nos
envolve.
Agarramos num troço da paisagem e cobrimos com ela o nosso teto, para que todas
as imagens que vemos se situem dentro deste espaço que as decifra.
Eu quero muito abrigar este momento que temo evapore pela insensibilidade do
firmamento, quero conservar este calor límpido, como não vi nenhum outro. O
calor das chamas é denso e o do sol é volúvel. Este é arejado e respirável.
Quero acarinhar este diálogo, não posso pensar que se escape no desvario do
vento. Ele não lhe dará valor algum. Quero que se desenvolva como num útero de
carinho e são para isso as três tendas, não menos que três porque a verdadeira
hospitalidade precisa de uma repetição e de uma afirmação reiterada. Recordo o
patriarca Abraão e os três visitantes que o honraram. Quero ter esta
hospitalidade que me parece a mais fundamental da minha vida. Porque só aqui o
encontro e só a experiência com Deus nos diz para onde caminhamos. Eu sei que
me vais levar outra vez para baixo, que me pedes para carregar esta experiência
rumo ao mundo concreto onde convivem o bom e o mau que caracteriza a natureza
humana, mas deixas-me esta experiência como referência de um estado que me há de
situar o sentido.
Podes pensar, Tu e outros que
me ouçam, que eu disse esta frase: “Senhor, como é bom estarmos aqui! Se
quiseres farei três tendas!” num excesso de zelo adulador, porque nem me referi
em deixar-nos a mim e a Tiago e João ao relento, sem pensar na nossa
acomodação. Mas de facto há um núcleo onde ainda eu não consigo habitar. Nem
Tiago, nem João. Nós temos de nos agarrar a este núcleo para o acarinhar dentro
de nós. Por isso, te peço, humildemente, Senhor, (tu sabes que sim, tu sabes
tudo!): Aceitas que, como a Tua Mãe, possamos acarinhar-te dentro de nós?! Ser
nós mesmos as tendas?!
Ir.
Maria José Oliveira, sfrjs



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