Quem corre mais?

 


Chamava “Pulixa” ao meu tio João, o irmão mais velho do meu pai. Era uma senha entre mim e ele. E enervava-me a questão que, invariavelmente, me faziam:

– Porque é que lhe chamas “Polícia”?

– Não é Polícia, é Pulixa! – Irritava-me que deturpassem o meu escolhido nome!

Mas ainda mais especial para mim eram as suas estórias!!! Acredito que muitas teriam saído de alguma tradição oral, mas outras tenho a certeza de que fora ele a inventá-las. O colorido que lhe dava, os pormenores que ajuntava, o modo como fazia crescer a narração permitiam que o destinatário vivesse uma experiência única. Ele fazia-me mudar de mundo, quando me contava uma estória! E ia semeando em mim valores e ternura.

Às vezes tudo se desenrolava junto à nossa lareira ou, com melhor tempo, sentados num tronco bamboelante, à porta de casa, ou na eira. Muito frequentemente era em casa da Tininha…

 – Ó Pulixa, conta-me uma estória!

– E então qual queres? – Tinha um menú e tudo.

– Quero a da raposa e dos sapos! – Escolhia.

– Mas tu nem gostas de sapos.

– Ai, pois não, Pulixa. São tão feios... e têm coxo. Mas gosto dessa estória!

– Vá, pronto, então vamos a ela. Era uma vez dois sapos, irmãos gemelgos. Eram iguaizinhos, iguaizinhos em tudo. Os pais eram muito ricos e davam-lhes tudo o que eles queriam. Quando cresceram, resolveram viver os dois ao pé de uma terra. A terra era comprida e tinha um castanheiro numa ponta e outro na outra. Por debaixo de cada um dos castanheiros os sapos tinham uma toca. Numa viviam de Verão e na outra viviam de Inverno. Eram duas casas bem mobiladas e de luxo. Mas uma coisa que lhes custava muito era a viagem de um lado para o outro, quando mudava a estação. Aí pelos meados da Primavera e do Outono lá iam eles de malas aviadas. Já lhes custava andar, quando mais terem que levar as bagagens! Não levavam. Bô, eles eram fidalgos. Chamavam uma lebre ou um coelho à jeira para lhes levar as tendas e depois davam-lhe uma boa gorjeta.

– O que é uma gorjeta, Pulixa?

–  Ora, é dinheiro!

– E eles tinham dinheiro?!

– Bô, os lafraus eram ricos, tu que pensas? Gastavam à grande! Um belo dia – era de Verão – estavam os dois sentados em casa a conversar, cada um em seu sofá, muito confortáveis. Eles eram espertos e entendidos em tudo. Ora calhou de estarem a falar sobre uma raposa que vivia por aqueles lados, era uma gabarolas e desprezava os outros animais. Andava sempre a dizer que fugia mais do que todos. Era mentirosa e falsa e por isso ninguém gostava dela. Nisto sentiram rugir na rua e um foi espreitar por um goritinho. Ai, até parece mentira! diz um deles. Olha é a tal raposa que anda ali fora! Diz-lhe o outro: Deixa-te estar aí, bem sossegadinho, que eu já lhe vou pregar uma partida! E o sapo saiu para a terra. Ora o dono da terra tinha-a andado a lavrar havia pouco tempo e o sapo, coitadinho, via-se mal para saltar os terrões, que eram muito grandes e duros. A cada passo ou era um pedaço de terra que lhe entrava para a gola do vento e ele tinha de espirrar. Ora era um argueiro que lhe entrava o para o olho e via mal... Lá ia tossindo e andando até chegar perto da raposa.

«Ora a raposa andava a caçar grilos. Nisto vira-se e vê o sapo, aos tombos, no meio dos terrões, todo atrapalhadinho e põe-se a rir dele e a abanar a cabeça: Ó pobrezinho, ó montão, ó belouro! O sapo, muito sério, perguntou-lhe: Coitado, eu?! Tu que estás para aí a dizer? E ela: Tu deves ser bem triste, nem consegues andar a direito. Ao menos eu de um pulo ando tanto como tu andas numa semana! O sapo, todo enraivado, disse-lhe: Ora essa! Olha que me estás a ofender! E logo um corredor tão valente como eu sou! A raposa então ainda se riu mais alto: Tu?! Ó inocente, ‘inda te fintas nisso? Mas o sapo, sempre muito sério, respondeu-lhe: Pois corro, corro muito e por’i bem mais do que tu. Até era capaz de fazer uma aposta contigo! Diz-lhe ela: Ai Jasus! Estás tontinho de todo! Enquanto eu chegasse à ponta desta lavrada tu nem dois passos davas! E o sapo, continuava a fazer-se zangado: Ó valha-te Deus, raposa! Quanto tu davas para fugir como eu. Vamos mesmo fazer a corrida! Pronto – disse a raposa – põe-te lá preparado e vamos à corrida! Mas o sapo desculpou-se: Bem, bem, hoje não é bom dia. Estou um bocado cansado de uma viagem que fiz. Fui a França visitar uns primos e cheguei há uns minutos. Como podes calcular isto não foi brincadeira: ter de atravessar França e Espanha até entrar em Portugal. Mas marcamos para daqui a dois ou três dias! 

França, Espanha e Portugal? A raposa olhava para o sapo muito desconfiada. À Espanha já fora, e sabe Deus para lá chegar. Agora à França? E ainda perguntou ao sapo. Mas tu foste mesmo à França? Claro! Fui a Clermonferran (Clermont-Ferrand), onde se fabricam aquelas espingardas que os caçadores usam. Quando isto ouviu, a raposa até tremeu e ficou a olhar para o sapo, espantada e assustada. Pronto, vamos então fazer a corrida, disse ela. Lá marcaram o dia e a hora. E ela pasmadinha, continuava a olhar para o sapo, quando o via esbarar por um terrão abaixo, e dizia: Tu corredor serás, mas cara disso não tens! Mas apostamos, apostamos... e a quê? Responde-lhe o sapo: O que perder fica de preparar uma jantarada ao outro, e o outro pode convidar quem quiser! Pronto – disse a raposa já a lamber os beiços – combinado! Então cá estarei à hora marcada.

«A raposa foi-se embora, mas sem saber se ia contente, se assustada. Mas o sapo voltou para casa todo contente. Mal entra, diz logo para o irmão: Ei, pá! Agora é que lha havemos de pregar à raposa! O outro, que tinha ficado atrás da porta a ouvir tudo, começou a ralhar-lhe. Ó pá, tu és maluco. Então vais fazer uma aposta daquelas? Estamos perdidos! Mas o outro, que era mais gicho, pôs-se-lhe a contar, por miúdos, a ideia que tivera. Combinaram os dois tudo muito bem e um deles teve de ir para a outra casa, onde passavam o Inverno. Pôs a mochila às costas, levou uma merendinha e saiu logo, senão não chegava a tempo. O coitadinho andou toda essa noite e para o outro dia, por aquela lavrada fora até que lá chegou, tarde e mal, ao fim do dia. Quantos tombinhos deu por aqueles terrões. Chegou cansadinho, todo sujo e suado. Descansou toda a noite e toda a manhã e, por fim tomou um bom banho, vestiu um fatinho e perfumou-se todo. Comeu qualquer coisita e pôs-se à espera, à entrada da toca. Enquanto e não, botava terra por cima dos sapatos, que estavam muito bem engraxadinhos. O sapo que ficou do outro lado fez o mesmo. Preparou-se todo, com um fato igual ao do irmão.

– E eles vestiam-se?

– Eles vestiam-se do alto luxo: uma gorbata, uma camisa às riscas, fato castanho e uns sapatos todos lustrosos, que aquilo era um primor. Pôs-se à espera da raposa e, dali a nada lá apareceu ela. Vinha toda fresca, com umas alparagatas calçadas para fugir melhor. Quando viu o sapo ficou toda admirada: E tu estás pouco pimpão! Estás um prosa! O sapo respondeu-lhe: Eu preparo-me bem para os grandes acontecimentos. E ela, mas olha que te vais sujar todo, nesta lavrada. Não importa. Depois de ganhar a corrida vou ter muito vagar para lavar a roupa, escuso de me apoquentar com o comer, por uns tempos. Ai tu ainda estás fintado que ganhas? – Disse-lhe a raposa – pois já vais ver como se corre! O sapo, todo afoito, disse-lhe: Vamos lá começar e vamos ver quem corre mais! A raposa fez um risco no chão e deu a partida: Um, dois três! e pôs-se a fugir, a fugir o mais que podia por aquela lavrada fora. O sapanho deu dois ou três pulos para que ela visse e voltou para trás a rir-se da raposa. Enquanto e não, ia embuligando os pés no borralho para sujar os sapatos.

«A raposa pegou a fugir com uma gana que até ferrungava. Num instante pôs-se na ponta da terra. Mal se viu lá gritou: Roucoucou que já cá ‘stou! E o outro sapo que já lá estava à espera disse-lhe assim, muito alto: E eu também primeiro do que tu! e fazia-se de cansado. A argilosa ficou abismada: Ah! Pois olha que não te dava já aqui! Eu nem te vi pelo caminho! E o sapo a desculpar-se: Porque eu fujo muito rápido e como sou tão pequeno e, ainda por cima, da cor da terra, confundo-me, no meio dela. E a raposa, burrinha, fintava-se: Bem, realmente é verdade. Então vamos outra vez para além! Agora não me ganhas tu! Deu a partida e botou-se a fugir, a fugir. O sapo deu dois ou três pulos e voltou para trás. Sentou-se na raiz do castanheiro e ficou à espera todo consolado. A argilosa chegou à ponta da terra e disse: Roucoucou que já cá estou! E eu também, primeiro do que tu! disse o outro sapanho a fazer-se de cansado. Enquanto e não até tinha molhado a testa para fazer que suava. Ah! Já aqui?! Olha que eu estou admirada contigo! És mesmo tu! Pois corredor serás, mas cara disso não tens. E o sapo respondeu-lhe: Pois sou um grande corredor. Já te tinha dito! Ando sempre a ganhar corridas. Tu que pensas! Agora o que já sujei foi os meus sapatinhos e o fundo das calças! E a raposa com pena: Realmente, eram bem lindos. Eu bem te avisei. Fizesses como eu. Vá, agora o que for mais depressa daqui para além e dalém para aqui é o que ganha a aposta! Combinado, disse o sapo.

«Voltaram a pegar à corrida! A raposa chega à ponta e diz: Roucoucou que já cá ‘stou! E o sapo, como de costume, respondeu: E eu também, primeiro do que tu! E a fazer-se muito triste, ainda lhe disse: Mas agora vi-me mal, porque até caí no meio dos terrões. Agora é que acabei de me sujar todo! É que, enquanto a raposa tinha ido e vindo, andara a embuligar-se todo na terra. E a raposa, até com pena dele: Ai coitado! E não te feriste? Quase nada, já estou pronto para a corrida, outra vez! Lá deram a partida e a raposa, a ver se ganhava aquela, pegou-lhe com quanta força tinha. Mas no meio da terra estava um calhau enorme e ela vai, entropeça e malha no chão aos tombos. Coitada feriu-se num pé e teve que ir o resto da lavrada a manquelitar, até à ponta. Chegou lá e já nem disse: Roucoucou que já cá estou! O sapo viu-a assim e disse: Ao tempo que estou à tua espera. Desta vez demoraste mais e vens a mancar. Que te assucedeu? Ai, caí! Dei um tombo tamanho que me ia matando, disse-lhe a raposa. E o sapo, de malandro, ainda lhe perguntou: Então, ‘inda queres fugir outra vez?! E ela: Ai, não, não! Já não posso fugir mais. Até me custa a andar. Pronto ganhaste tu. Então para quando é que fica o jantar?! E o sapo, que também tinha bom coração respondeu-lhe: Bem, como estás tão mal da manqueira, fica para o mês que vem! Agora vais para casa e tomas sentido que não é bem fazer pouco dos outros, nem julgar-te mais do que eles. Curas a perna e depois é que tratas do banquete. E lá marcaram o dia e a hora.

«A coitadinha da argilosa fez como o sapo lhe tinha dito e tomou sentido que não era bem julgar-se mais do que os outros. Depois andou que tempos a caçar coelhos, pitas, perdigotos e ainda por cima quase a morrer de fome. Depois os outros animais faziam pouco dela e ela até chorava. Um dia quase levou com uma tranca quando ia a assaltar uma capoeira e a dona deu por ela. De outra vez ia levando um tiro de uma espingarda de Clairmont-Ferrand. E outro dia até foi mordida na ponta do rabo por um cão, e tudo! 

– Coitadinha! – Deixava eu escapar.

– Bem, com tantas canseiras, no dia marcado estava tudo pronto. À horinha lá se apresentaram os sapos com a famelga toda e mais os convidados. Vinha um montão de sapos, por ali fora, aos pulos e os animais diziam para a raposa: Ó cagarolas! Olha deixares-te passar por estes montões que não andam nada! Foi bem feita para que não te andasses sempre a gabar! E a raposa, muito triste, prometia que nunca mais se iria gabar.

«Os sapos, lá tiraram a tripa da miséria, naquele dia. Fizeram o banquete no meio da lavrada e deixaram tudo estrumado. Ali havia de tudo: pratos sem nada, copos de boca abaixo, potes de cu p’ró ar, carros cozidos, palha assada...

– Tanta coisa! E eles comiam disso, Pulixa?! – Perguntava eu, desconfiada.

– Comiam tudo, mas como comiam pouquinho quase não se via baixa na mesa. Nisto a raposa estava babadinha, porque ninguém lhe dizia para comer, até que se pôs a reparar para os dois sapos que eram iguaizinhos. Vira-se para eles e diz-lhes assim: Ah seus ladrões, que me enganastes! E os sapos responderam-lhe: É para que vejas que o mais importante não é fugir muito, nem andar-se por aí a gabar, mas é usar a cabeça quando é preciso.

«No fim fizeram as pazes! Quando terminou o banquete deixaram muito comer à raposa e outro deixaram-no para os outros animais. A raposa ficou mais contente e dali para a frente já não se andava a gabar, tornou-se mais agradável e até ajudava os outros. E, pronto, acabou-se a conta.

– Ai, que engraçada! E agora...

– Agora mais nada! Já te chega de contas. Amanhã conto-te mais.

– Ó Pulixa, só mais uma, anda lá! É para acabar...

– Ai que aborrecidinha és! Olha que agora é só esta mesmo. Bem, era uma vez…


Maria José Oliveira, sfrjs, in Brisas de Terra

 

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