sem tocas nem ninhos
Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os
seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Lc 9, 58Jesus: Disseste bem, a minha Mãe nunca
me deixaria ao relento. Mas foi com ela que aprendi a viver assim, livre de
armaduras e de prisões, livre para o mundo, livre até para o Universo, para o
cosmos. Porque nem a minha Mãe, nem o meu pai tinham tocas ou ninhos. Eles eram
fruto de um desejo do meu Pai celeste, eram cordas que se punham a vibrar só
pela sua mão, eram missões ambulantes, gestos de ternura de um Deus que ama o
mundo. Eles levaram-me em si e consigo, enquanto eu precisava de amparo e agora
levo eu o mundo que precisa de mim, sem tocas nem ninhos.
Se nem esta terra pára no seu corcel doido de movimento!
Todo o cosmos é um movimento sem gradeamentos que o constrinjam. Mesmo a força
da gravidade é apenas o abraço que tudo faz dançar em sintonia. Eu não posso
parar. O meu Pai trabalha continuamente e eu também trabalho (Jo 5, 17).
Não posso ter ninhos. A minha missão é voar a ver o sol
e a acende-lo com o meu olhar. Assegurar-me que ele arde na sua fogueira
vivificante, assistir ao parto da chuva e molhar o ar que trespassa os seres
humanos. A minha missão é abandonar à atmosfera a minha respiração para que o
mundo aspire. Não posso ter tocas. O meu desejo é partir, não para ir me
embora, mas para chegar na hora em que alguém esteja a chamar por mim. O meu
desígnio é tocar as cordas do tempo que emitem a vibração dos gritos dos seres,
o canto da criação, o gemido que a faz desejar a libertação.
A minha alma: Essas tuas palavras são uma
provocação à minha diligência e atenção. Ó Jesus, já percebo que posso abrigar-te
em mim, como em Maria te dignaste morar. Mas entendo que tenho de ficar livre
para te deixar percorrer os espaços que tens de percorrer. Faz-me livre, Senhor,
para te acolher como ela. Não te quero a vaguear por esse mundo sem uma toca ou
um ninho, por isso vem ao meu coração! Tal como foste engendrado no seio de tua
mãe e ela te levou a visitar uma prima distante, te levou para fora de Nazaré
até às extremidades da Judeia e para além fronteiras, até ao Egito. Já percebi
que és um Deus que não tem descanso e aquele que sonha abrigar-te não pode
estar enleado a lugares. Antes de te dizer “vem comigo”, preciso de dizer-te “leva-me
contigo”! Consente que te busque e te ache, fora do meu ninho, da minha toca,
caminhando pelos prados e pelos montes, pelas estradas do mundo, tocando os com o meu grito, ainda que apavorado
por demorar a encontrar-te. Como a esposa do Cântico dos Cânticos (Cfr. Cant 3, 2). Consente que
te encontre e te prenda para que, ao levar-te comigo, por onde andares te siga.
Não quero ser visitante de um prisioneiro, mas arrastada pelo teu sonho de
tocar o mundo com o meu tato, mesmo que amedrontado, porque se tu estiveres
comigo será em mim o teu tato a tocar o mundo.
Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs


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