sem tocas nem ninhos

Jesus respondeu-lhe: «As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça». Lc 9, 58

 A minha alma: Ó Jesus, será que a tua mãe ouviu estas palavras? Acredito que teria ficado despedaçada de dor. Ela que te gerou no seu seio, que fez do seu Corpo um palácio para a tua majestade, que com José procurou um teto para o teu nascimento em templo de animais, ela que com José correu para o Egito a fim de que fosses salvo da fúria de um rei medonho! Ela abrigou-te sempre. Mesmo quando saíste de casa e o teu Corpo só tinha o abrigo de cada dia. Ela seguiu-te, como mãe extremosa, talvez para saber se em cada noite, terias um teto onde abrigar os teus segredos, se a tua cabeça teria uma almofada onde reclinar os pensamentos. Mas sim, até num barco dormias numa almofada (Cfr. Mc 4, 38). Até quando subias ao monte para passar a noite em oração tinhas um olhar amoroso por teto. O do Pai celeste. Mas se estas palavras fossem uma queixa, tu sabias que a tua Mãe nunca te deixaria ao relento…

Jesus: Disseste bem, a minha Mãe nunca me deixaria ao relento. Mas foi com ela que aprendi a viver assim, livre de armaduras e de prisões, livre para o mundo, livre até para o Universo, para o cosmos. Porque nem a minha Mãe, nem o meu pai tinham tocas ou ninhos. Eles eram fruto de um desejo do meu Pai celeste, eram cordas que se punham a vibrar só pela sua mão, eram missões ambulantes, gestos de ternura de um Deus que ama o mundo. Eles levaram-me em si e consigo, enquanto eu precisava de amparo e agora levo eu o mundo que precisa de mim, sem tocas nem ninhos.

Se nem esta terra pára no seu corcel doido de movimento! Todo o cosmos é um movimento sem gradeamentos que o constrinjam. Mesmo a força da gravidade é apenas o abraço que tudo faz dançar em sintonia. Eu não posso parar. O meu Pai trabalha continuamente e eu também trabalho (Jo 5, 17).

Não posso ter ninhos. A minha missão é voar a ver o sol e a acende-lo com o meu olhar. Assegurar-me que ele arde na sua fogueira vivificante, assistir ao parto da chuva e molhar o ar que trespassa os seres humanos. A minha missão é abandonar à atmosfera a minha respiração para que o mundo aspire. Não posso ter tocas. O meu desejo é partir, não para ir me embora, mas para chegar na hora em que alguém esteja a chamar por mim. O meu desígnio é tocar as cordas do tempo que emitem a vibração dos gritos dos seres, o canto da criação, o gemido que a faz desejar a libertação.

A minha alma: Essas tuas palavras são uma provocação à minha diligência e atenção. Ó Jesus, já percebo que posso abrigar-te em mim, como em Maria te dignaste morar. Mas entendo que tenho de ficar livre para te deixar percorrer os espaços que tens de percorrer. Faz-me livre, Senhor, para te acolher como ela. Não te quero a vaguear por esse mundo sem uma toca ou um ninho, por isso vem ao meu coração! Tal como foste engendrado no seio de tua mãe e ela te levou a visitar uma prima distante, te levou para fora de Nazaré até às extremidades da Judeia e para além fronteiras, até ao Egito. Já percebi que és um Deus que não tem descanso e aquele que sonha abrigar-te não pode estar enleado a lugares. Antes de te dizer “vem comigo”, preciso de dizer-te “leva-me contigo”! Consente que te busque e te ache, fora do meu ninho, da minha toca, caminhando pelos prados e pelos montes, pelas estradas do mundo, tocando os com o meu grito, ainda que apavorado por demorar a encontrar-te. Como a esposa do Cântico dos Cânticos (Cfr. Cant 3, 2). Consente que te encontre e te prenda para que, ao levar-te comigo, por onde andares te siga. Não quero ser visitante de um prisioneiro, mas arrastada pelo teu sonho de tocar o mundo com o meu tato, mesmo que amedrontado, porque se tu estiveres comigo será em mim o teu tato a tocar o mundo.

Maria José Diegues de Oliveira, sfrjs

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