O dia da malha
O dia da malha era sempre uma festa! Na véspera, pela tardinha, o Restolhas vinha para a nossa eira a fim de assentar a malhadeira. Como me dava gosto assistir a tal operação. O vir gente de fora já anima uma pessoa, mas havia um outro motivo pelo qual me era tão caro aquele acontecimento. É que eu adquirira uma grande admiração por aquela maquineta! E eram as rodinhas que me atraíam. Aquelas rodinhas, todas entrelaçadas pelas correias, que ao girar, desenfreadamente, produziam tantos acontecimentos de uma só vez. (…)
Ali ficava
eu, rente ao castanheiro, de tronco ancho, presa nas galhas que, daninhas,
rebentavam do sopé e, tímida como era, só quase no fim do trabalho me
aproximava matreira e calculista de polegar chupado, face caída e olhos
esbugalhados.
O Restolhas,
atarefado, ralhava ao filho, um matulão de bentas antipáticas e corpo roliço. O
meu pai ia ajudando e atendendo às necessidades:
– É preciso
cavar mais?... Olhe, Sor Chico, vou ali buscar uma pá, sempre tira melhor a
terra...
– Não, não
merece a pena, já vai estando...!
Ao lado, as medas a abarrotar de molhos de cereal,
erguiam-se como montanhas reluzentes. Amanhã por aquela hora... adeus medas! O
trator puxava agora a malhadeira para cima dos calços que já estavam assentes.
E eu a ver. Os calços, ajustados nas pequenas covas a que a enxada extraíra
conteúdo, recebiam os parafusos que se arrolhavam entre as rodas suportes. A
malhadeira ficava bem imobilizada e segura para o trabalho do dia seguinte. Ah!
Quanto aquilo demorava aos meus olhos! Eu lá andava a espreitar o trator, pela
frente, cheio de poeira e de moinha,
frutos de uma carrada de malhas em que já tinha participado.
À malhadeira
ia-me chegando impaciente. Arre, que
nunca mais acabavam! Como me rendia aquele tempo! (…) O meu pai descobria-me,
meia encolhida, meia atenta e deitava-me, de rompante:
– Garota, vai
lá dizer à mãe que já acabámos.
E também o
Restolhas, só então reparava em mim:
– Atão, nem nos vieste ajudar?!
Eu fazia um
gesto com os ombros e escorria-me pela ladeira, à frente dele, a berrar em tudo
quanto era canto:
– Mãe! Ó mãe!
Mãe...
Quando a mãe
respondia com o seu característico “Úúú...” lá dos quintais, atrás da casa, era
outra batalha ganha. Depois da breve merenda, o Restolhas e o filho partiam nos
roncos do trator, deixando atrás uma nuvem de poeira. Mal via os estranhos
virarem costas, com dois pulos de novo me agarrava à ladeira. Podia agora,
finalmente, ter as minhas intimidades com a malhadeira. (…) Nessa noite havia
de sonhar com ela e, quem sabe, meter-me dentro dela, para ver como seria lá
por dentro.
Manhã
radiosa, o dia da malha chegou finalmente! O chilrear sonoro dos passarinhos,
mesmo à borda da janela fazia-se já ouvir e uma claridade suave que se
infiltrava nos buracos a persiana, convidava a erguer.
Que dia lindo
devia estar! Tão azul surgiu quando a janela descerrou o céu por cima das
montanhas. O sol estava a nascer e tudo era já um rumor muito dinâmico...
Lá fora já
estava tudo organizado. Quando chegava à cozinha deparava-me com uma quantidade
de tachos grandes, potes enormes e panelas invulgares que a minha mãe tinha ido
desencovar não sei a que armários.
Antes de
nascer o sol já o meu pai andara a tratar de pôr tudo a postos: as vergas de
vime, que o meu irmão diligenciara, as espalhadouras, os sacos para o pão, que
a minha mãe andara, havia semanas, a remendar. A vozearia ia-se enriquecendo.
Eu ia, amiúde, ao cimo das escadas para averiguar cada tumulto. Um dos
primeiros que chegara tinha sido o Restolhas. Vinha afogueado, mesmo sob o
fresco matinal, em cima do trator que roncava com muito entusiasmo. De um salto
punha-se no chão e tratava de tirar as correias das caixas para as colocar nos
respetivos postos. O trator, volta atrás, volta à frente, lá se punha também no
sítio, segundo a medida da correia largouça que fazia o casamento entre o trator
e a malhadeira. (…)
A minha mãe
dera-me uma folguinha e eu aproveitava para ir dar uma volta à eira, até porque
sentia que a malha já tinha começado. O meu pai distribuíra as tarefas harmoniosamente.
Conhecendo cada qual, sabia as suas aptidões, face às tarefas que era preciso
desenvolver, para que todas saíssem o melhor possível. Ao mesmo tempo ia
acudindo a pequenas necessidades que iam surgindo.
Era uma
bonita história que ali estava a acontecer. Não digo fácil. Cada um tinha as
notas do seu esforço estampadas no rosto e, pelo dia adiante, teria de as
reescrever. O tio Augusto, o João de Carralcova e o António Jorge ficavam nas
medas. Enormes construções de palha torrada, com a espiga farta de pão, em molhos
que tinham chegado de terras distantes pelos longos e extenuantes dias de acarreja. A meda do centeio era sempre a
torre de menagem mais alta. A do trigo, menos corpulenta, ficava para o fim.
Molho a molho, como se fossem pedras de uma construção, a malhadeira ia-as
engolindo. Mal caíam de cima, o Mochena cortava-lhes a verga de palha com que
estavam atados e o Gilberto tratava de ir empurrando a palha pela ranhura, lá no
alto da malhadeira. Quantas vezes tive vontade de vislumbrar o panorama lá por
cima... mas esse era um espaço vedado para mim. A escadinha que servia para os
homens subirem, era retirada, quando a malhadeira estava só e não havia outro
acesso a que pudesse recorrer.
Depois de a
palha ser engolida por aquele abismo, a malhadeira dava um valente urro, não
sei se de consolo pela saborosa deglutição, se de aflição por engasgamento. Às
vezes também empapava, diziam os homens, e lá tinha que ir o Restolhas a dar a
sua mezinha, enquanto o pessoal
folgava um pouco. Que mistério aconteceria ali dentro? Não sabia. Mas, logo a
seguir, surgia uma enxurrada de palha, desde uma abertura situada no lado
oposto onde ficava o trator, misteriosamente ornada com uma cortina de tecido
escuro e grosseiro. Parecia que a palha aparecia gloriosa, muito clara, desde os
antros do mistério, como de um palco, caindo graciosamente em cascata, pela
grade oblíqua onde as moças apoiavam o braço para a receber.
Achava graça
às raparigas que levavam sempre uns lenços muito bem atados aos queixos e uns
óculos de sol enormes. Só se lhes via a ponta do nariz, cheia de poeira fina,
um rico pó aloirado que combinava com as suas faces trigueiras. De vez em
quando deixavam espreitar os dentes risonhos ante uma piada – que muitas devia
haver por ali – ou uma palavra galanteadora do vergueiro que esperava. A Minda,
a Regina, a Dilma e a Maria dá Pedra lá se iam revezando, enquanto os rapazes
iam e vinham. Com um enorme vime, comprido e resistente, é que eles efetuavam
tão pesada lide. Nesse dia estavam como vergueiros o Luís dos Caetanos, o Barrigote,
o Perfil e o José Urbino. O melhor momento seria, sem dúvida, aquele em que
aguardavam, de vime estendido no chão, que a palha lhes fosse delicadamente
fornecida pelas moças, a braçadas, até que a quantidade fosse digna dos seus
músculos cheios. Iam sempre tão carregados que quase nem se viam, debaixo do
montão de palha. Pareciam ouriços aloirados, andando sobre pernas de homens. Ao
chegarem ao palheiro seria impossível descrever a sensação de alívio. Para o
fim do dia é que não devia ser nada fácil, já com as forças esgotadas, e quando
a construção já estivesse mais alta, subir a escada para levar a palha ao
Chiribi que era o grande arquiteto e escultor de tão artística construção. O
sopé cilíndrico, era encimado pela palha em forma de telhado, brandamente
cónico, o qual rematava com um crucho
muito pontiagudo. O Chiribi tinha proa, em rendilhar bem aquele crucho e dar um remate digno à sua obra!
Mas tinha também o seu ajudante. Nesse dia era o tio Alfredo da Barreira.
Havia ainda
outra história para contar: que era feito do grão? Lá no meio da malhadeira,
subtraído à espiga cabia-lhe diferente percurso. Era vomitado por uma espécie
de torneiras, que ficavam no lado oposto, mesmo entre a malhadeira e o trator.
À volta do cano que dava para o exterior, umas saliências regulares, que faziam
lembrar dentes, aprisionavam os bocais das sacas que acolhiam o precioso grão.
Havia duas torneiras, se a memória não me falha, e era preciso alguma
coordenação para a tarefa de abrir torneira, meter saca, fechar torneira, tirar
saca... Habitualmente era o próprio Restolhas quem fazia tal operação, ajudado
pelo tio Manuel dó Burguete. Como gostava de ver os homens a apertar as sacas.
Quando alguma estava cheia fechava a respetiva torneira, tirava-a e metia uma
vazia, abrindo a torneira de seguida. À cheia dava dois abanões fortes e firmes
e estrangulava o gargalo com o baraço de sisal. Deixada numa pilha, com outras,
aguardava, como em sala de espera, que duros músculos a erguessem e levassem ao
destino. A nossa tulha, dentro da adega, atrás da casa, não era assim tão
distante da eira, mas... o ir tantas vezes à adega provocava uma sede danada e
não custava nada que um desses visitadores assíduos me chamasse:
– Vai lá
dizer à tua mãe que nos mande um caneco, açúcar e um ovo!
Sabia lá eu
para que eram tais ingredientes. Mas sabiam eles porque logo que lhos
apresentava se sorriam, cúmplices. A pipa, ao fim do dia, decerto estava bem
mais aliviada.
Isto tudo lá
se ia espalhando pelo dia fora. Mas, às duas horas de malha, os estômagos já
faziam a sua reclamação. Achava que a minha mãe precisava de mim e, de um
salto, punha-me na cozinha. Já tinha uma cesta a meio preparar.
– Acaba de
meter na cesta esses salpicões. Vou ali buscar o presunto. Mete também as
malgas e as colheres.
Eu lá metia
as iguarias e as louças nos respetivos sítios. Guardava sempre a fome matinal
dos dias de malha para tomar o café na eira. Assim é que me sabia bem, ao pé de
todos!...
Que algazarra
animada quando o aparecimento da cesta determinava uma pausa no trabalho. O
ruído ensurdecedor das máquinas cessava para dar lugar à vozearia, farfalhuda e
abundante. Todos se juntavam ao redor da cesta promissora que se vazava na
toalha de linho, posta no chão, em cima de uma manta. Outra cesta despejava-se,
cheia de rimas de tigelas e um estardalhaço de talheres. Depois de lavadas as
mãos, o pão passava e mingava e os nacos espalhados faziam tudo para arranjar
um par: ou a rodela de salpicão bem aromático, ou o presunto vermelhinho com a
sua faixa de gordura branca. Habitualmente também havia bacalhau ou frango
frito. O queijo fora comprado pelo meu pai na última feira. Haveria também
iguarias que a dona da casa engendrasse para tratar bem os operários.
– Que rico
salpicão. A tia Aucinda percebe! – dizia qualquer um.
– Há dois
anos ganhou o 5º lugar na feira do fumeiro. – dizia eu, toda vaidosa, para
confirmar o elogio à minha mãe.
(…) A minha
mãe chamava-me do caminho. Toca a ir ver e acudir à sua emergência.
– Anda cá
ajudar-me a trazer o café e as sopas.
– Quer que
ajude? – Disponibilizava-se a Minda.
– Ah! Não é
preciso – dizia eu antes que a minha mãe respondesse, exultando ao ver a minha
amiga Fatinha surgir. – Já vem ali a Fatinha.
Descia a
ladeira e comentava, numa de boas vindas:
– Hoje vieste
tarde, Fatinha!
Ela dava a
desculpa de que tinha tido ainda que ajudar a mãe em alguns afazeres.
– Então agora
vens-me ajudar a mim a ir buscar o café.
E lá íamos
todas contentes. Com a Fatinha, a malha ganhava outra alegria. Havia dias que
eu a convidara.
– Uma marmita
de café com leite e outra de café preto, para quem não gostar de leite. Vá,
cada uma leva a sua, mas não deixeis arramar
nada. A panela das sopas levo-a eu, senão ainda vos escaldais. – Providenciava
a minha mãe.
A
distribuição deste remate do mata-bicho era árdua e só já quase quando todo o
pessoal rugia nos goles finais à sua malga é que eu e a Fatinha podíamos prover
ao nosso abastecimento, que era obrigatório ser na eira, claro! Ainda nós
estávamos a meio da tarefa, já haviam recomeçado os urros da malhadeira. Era
tempo de arrumar tudo e... toca para a cozinha a lavar a louça e ver o que é
que a mãe precisava para a confeção do almoço. Geralmente a minha tia Gracinda
vinha ajudar a minha mãe, ou a Tininha ou a tia Amélia ou ainda, se elas não
pudessem, qualquer vizinha amiga vinha dar uma mãozinha. Na véspera a minha mãe
tinha matado um galarote e umas poucas de pitas, deixando uma estria de penas
no cortinheiro atrás da casa onde
tinha ido despejar a água.
Para quem
ficava na eira, do mata-bicho ao almoço era, regra geral, a etapa mais difícil
de suportar. O sol furibundo atacava impiedosamente e a poeira abundante aderia
prontamente aos corpos húmidos de suor. As carecas dos homens ganhavam, pouco a
pouco o bónus de uma cabeleira fina e loirinha. (…)
Eu e a
Fatinha celebrávamos a malha à nossa maneira. Mais perto do almoço sabíamos que
na cozinha era exigida a nossa presença. (…)
Por ordem do
meu pai, já admoestado pela minha mãe, a malhadeira parara. Que alívio no ar!
Libertavam-se, como do cálice verde a corola da flor se espreguiça, os vários
sons, até aí oprimidos. Os dos seres humanos e os da própria natureza. Até se
estranhava um chilrear discreto e os mútuos afagos das folhas do castanheiro
ante uma levíssima brisa, bem por cima de mim. Enquanto o pessoal se juntava,
aproveitava para descontrair os braços que vinham derreados com o peso das
cestas.
Não tardavam
nada a vir todos, pela eira fora, entapetada de flores de castanheiros, como
abelhinhas para o jardim ao estender a manta ampla, sobre a qual fora colocada
a alva toalha de linho. Esta começava a florir em pratos e demais louças.
Primeiro os apetrechos, depois o que verdadeiramente interessava. O caldo, uma
canja de massa estrelinha, com o típico ovo esfarelado e umas poucas de sopas
de trigo a nadar à superfície, cheirava que era um regalo. E tudo apetecia às
fomes espremidas por uma manhã longa e fatigante. Eu segurava um jarro de água
que ia despejando nas mãos que a requeriam e a Fatinha uma toalha escura que
não tardou a redobrar o seu escuro. Alguns pouco molhavam as manápulas, apesar
de eu insistir e acabavam por abandonar muito do seu adorno no pobre tecido.
Felizmente trouxera duas toalhas. Muitos até a cara lavavam.
– Bota, bota,
que quero esfregar bem os focinhos... – Ordenava um qualquer.
(…) As moças
já se haviam libertado das suas vendas de lenços e óculos de mistério e, com
gestos bem mais delicados, aceitavam o sabonete e no fim passavam a mão molhada
pelo rosto umas quantas vezes, julgando-se beldades insuperáveis.
Já a minha
mãe abastecia as tigelas e já muitos se precipitavam sobre elas exibindo umas
fomes devoradoras. (…)
Eu ia
oferecer uma pinguita ao grupo onde o tio Henrique lançava uma caçoada ao
Chiribi:
– Olha se o
palheiro fosse uma garrafa de vinho!
– Lembra-me
que alguns não estragavam tanta palha, por lá, na segada.
E a conversa
mantinha-se dentro do tema, enquanto eu conseguia entornar uma gotinha ao
encher o copo do Chiribi:
– Alto! –
exclamava ele, erguendo o copo que batia no gargalo da garrafa. Depois
virando-se para o companheiro: - Pinga boa tem o Chor.
– Ah! Por
acaso já ouvi dizer. Parece que teve sorte com as uvas, no ano passado.
– O dar com
uvas boas é tudo. Queria ver este ano se o meu genro me descobria um sítio onde
as uvas fossem boas. Tenho ido lá para os lados de Mirandela...
– Isto de
uvas é preciso cuidado. A gente não se pode logo iludir e muito menos
comprometer à primeira. Sabe o que aconteceu o ano passado ao Fernandinho de
Quintela? Foi ver umas uvas; mostraram-lhe umas bárbaras, lá lhe deram um galelo bom; o homem comprometeu-se e no
fim teve de trazer para casa uma murraça que não prestava para nada...
E eu já tinha
dado a volta aos trabalhadores que se dispunham em magotes, mais ou menos
dispersos, à sombra do castanheiro onde, na véspera eu me enrodilhara. Agora
andava a recolher tigelas, enquanto a Fatinha distribuía pratos e talheres. A
minha mãe esperava que cada um se chegasse ao seu posto de distribuição.
O fluir dos
rumores era, agora, mais homogéneo, dilatado, de vez em quando, por uma voz ou
gargalhada fora da rédea. (…)
Mas, de
repente, algo veio agitar o ritmo das conversas que pululavam entre grupos e
grupelhos. Um par de rafeiros de pelo enlameado e ar desgrenhado irrompia
descaradamente por ali fora, num à-vontade desconcertante, com as línguas
vermelhas pendentes, arfando e olhando os malhadores, sem qualquer recato ou
timidez. Ao mesmo tempo a sua presença provocou uma retração imediata, aos que
mais de perto assistiam à sua passagem.
– Ena pá, que
cheirete! – Dizia uma estridente voz feminina.
– De quem
serão os cães?! – Concordava outra.
– Parece-me
que são da Marquinhas dó Canto. – Informava a terceira.
Com efeito
aparecia, logo de seguida, a Marquinhas, muito afogueada, de sacha ao ombro,
com umas galochas subidas, cheias de lama seca, abastecida de pó, àquela hora
do verão, e saudava, com animação:
– Deus nos dê
boas tardes e bom proveito.
O meu pai que
chegava, só agora, com o Restolhas, convidava:
– Ó
Marquinhas, olha que chegaste mesmo na hora certa. Agarra num prato e bota lá
do que vires.
– Ah! Não,
muito obrigada. Venho de Cerdedo, de abrir umas poças e encontrei o Chicheiro,
ali na estrada. Vinha chamar o meu pai para que fosse a casa, mas parece que
não o vejo por aqui. – Informou ela, olhando para todos os lados. Depois
completou a informação: – É que queremos vender um nobelo.
– Já foi para
baixo. – Esclareceu o meu pai. – Não sei quem lhe deu o recado, mas ele há
bocadinho veio-me dizer que ia.
– Foi ele que
o viu passar, na praça. – Esclareceu o Frechecho.
– Diz-lhe lá
que venha ainda, para cima, almoçar aqui. – Continuava o meu pai.
– Bô! A esta hora, a minha mãe também já o
deve ter feito.
Fazia ela
menção de se retirar, sem que os cães tivessem dado tréguas aos comensais.
– Tu donde
trazes os cães. Até tombam com o cheiro! – Barafustava o Luís que até já havia
mudado de sítio por causa da impertinência dos animais.
– Olha, esses
gandulos foram-se-me ali para o
Rigueiro, embuligaram-se naquelas
poças, cheias de lumiacos, e depois engarraram-se com o cão do Casaquinhas.
Andava lá o Bilo e sobou-os.
Morderam-se, esgarrabunharam-se
todos, e chorincaram... que me vi
aflita para os apartar. Não sei o que havia por lá, mas vieram a apestar como boubelas.
Um dos
malhadores, batia os pés no chão com força, debaixo de si, para espantar um dos
cães, mais atrevidote.
– Vai-te,
vai-te! Ó Marquinhas emponta-me lá o
cão!
– Anda lá,
Doninha! – Ordenava a Marquinhas, com voz imperiosa. Depois amenizando-a. – E
eu vou-me também. Até logo, se Deus quiser. Bom almoço e boa malha.
– Muito
obrigado. Até logo! – Respondiam uns quantos, entre dentes.
Recado dado e
já se via a Marquinhas a descer a ladeira com os cães muito irrequietos em
redor dela, a farejar em tudo quanto era canto. Logo que a Marquinhas
desapareceu na curva do caminho, um outro ruído, bem sonoro, veio ondular, mais
vigorosamente, as surpresas já instaladas. Era a sereia dos bombeiros, ao
longe, na sua urgência de choro inconsolável.
O tio Augusto
foi o primeiro a constatar:
– Olha... os
bombeiros!
Mal o disse,
todos olharam para o troço de estrada que dali se avistava e esperaram para ver
a pressa de um carro tanque, no seu grito de desespero.
– Onde irão?
– Esta hora é
a pior para fogos.
– Cá para mim
é em Santa Cruz. Daqui não se vê bem, por causa dos castanheiros, mas ali para
os lados da adega, vê-se uma nuvem de fumo a subir. E é para os lados de Santa
Cruz, ou então de Fresulfe. – Era o Frechecho quem dava tal informação.
As conversas
parece que tinham convergido todas, mais ou menos, nesse momento e nos que se
seguiram, para o tema que tão ferozmente se apresentava. Algumas não sei para
onde derivavam, mas ali, ao pé do meu pai, uns velhotes, enquanto lambiam os
ossos do frango guisado, trouxeram, a pouco e pouco, a trágica história de um
dia já distante. Foi o Chiribi quem começou:
– Sempre que
vejo passar os bombeiros ou me dão notícias de fogos, lembro-me logo daquele,
aquela vez em casa do Pelote. Já lá vai um bom par de anos.
– Ui, ui!
Também ainda me lembro. Isso é que foi tragédia! Coitado do homem... –
Confirmava o tio Henrique.
– Também sou
desse tempo. Faço parte do vosso batalhão. Teria eu os meus desassete anos, ou
por aí. E andávamos numa malha, como hoje. – Acrescentava o meu pai.
– Assim, tal
e qual como hoje?! – Duvidava o meu irmão.
– Bem assim,
assim, não. Naquele tempo não havia malhadeiras. Era com malhos, mas...
– Com
malhos?! – Estranhava a Dilma, que se interessara pelo assunto.
– Sim. Tu
nunca viste nenhum malho?! Estou a ver que não... Já não é do teu tempo. –
Constatava o Chiribi.
– Pois não.
Nem sei o que isso é.
– O malho era
uma mangueira de castanheiro, assim um cabo lisinho e depois um pertigo, que
era uma moca mais pesada. Mas do cabo para o pertigo tinha uma coisa de
cabedal, mole, para o pertigo abanar… e depois bater. – Explicava o meu pai. –
Abriam-se os molhos de pão e estendiam-se pela eira fora. Depois estava uma
fileira de homens de um lado e outra do outro. Primeiro batiam os de um lado e
depois batiam os outros, do outro lado. Quando batiam os deste lado os dalém
faziam marcha atrás. Depois paravam para as mulheres virarem a palha. E iam
andando. As mulheres é que tinham que estender e virar a palha, às canadinhas,
pela eira fora, com a espiga para cima. Aquelas eiradas tinham que ficar bem
compostinhas e depois também eram elas que iam juntar a palha.
– Depois
havia os vergueiros, como hoje, que a levavam para o palheiro. – Completava o
Chiribi.
– O tio Chico
já nessa altura fazia palheiros? – Perguntava-lhe a moça.
– Já, já. Mas
nessa altura ainda andava a aprender.
– E o grão?!
– Perguntava o meu irmão.
– O grão
tinha de se apartar depois, dos coanhos,
com peneiras e contra o vento…(…)
– E levar as
sacas para a tulha era outra profissão como a de hoje. – Ria o Frechecho que,
com o tio Manuel e o Toneco, passara a manhã a carregar sacas.
O Chiribi
voltava aos malhos:
– Quanto
maiores fossem as malhas, mais malhos havia, pois claro. Dizia-se assim: olha a
malha de fulano teve tantos malhos.
Era assim que se sabia se eram grandes ou pequenas as malhas.(…)
O Barrigote
gritava do caminho:
– Ei,
rapazes, daqui é que se vê a fumareira! Cuidado com o fogo! Deve ser bem
grande.
– Coitado de
quem o amargar! Que Nosso Senhor nos acuda! – Exclamava o meu pai.
Ao tio
Henrique voltava a lembrança do dia distante:
– Parece-me
que andávamos ali na eira dos Ferreiros, quando foi o tal fogo na casa do
Pelote! Também era uma malha boa a dos Ferreiros!
– Era, era. E
foi por volta desta hora. Também estávamos no tacho...
– Até foi o
meu pai, Deus o tenha em bom descanso, que foi lá a chamar gente e mandou o
Escabelado a tocar o sino. – Ajuntava o Chiribi.
– Mas quem
era esse Pelote?! – perguntava o Zé Urbino. – Nunca ouvi falar nele.
– Pois tu já
não o conheceste. Ele nem era de cá. A mulher, sim, que era de cá, era da
família dos Morais dó Souto... – Explicava o tio Henrique.
– Era tia da
Bernarda! – Desempatava o Ciribi.
O meu pai
continuava:
– Depois de
se dar aquela tragédia o homem foi-se de cá. Lá voltou para a terra dele com a
filha mais velha...
– Ele era dos
lados de Mogadouro. A esta altura já deve ter morrido. Era mais velho do que
eu. – Adjuvava o Chiribi. – E olha que a garota também há bons anos que a não
vejo. Lembro-me de a ter avistado uma vez que veio cá visitar os primos... já
há muito.
– Mas afinal
o que aconteceu? – Perguntava o meu irmão, já impaciente, que não via
desenvolvimento ao enredo.
– Olha,
morreu-lhe a mulher e o filho mais novo! – Despachou o tio Henrique.
O Chiribi
esclareceu melhor:
– Quer dizer,
o garotinho estava dentro de casa. Morreu todo carbonizadinho. A mulher quando
deu conta que a casa estava a arder veio a fugir, a fugir, como uma maluquinha,
a pensar que o ia salvar.
– Olha o amor
de uma mãe por um filho! – Contemplava o meu pai.
– Meteu-se
fogo adentro... Depois lá veio a gente a acudir, ainda a conseguiram tirar
viva, mas depois, passados uns dias, morreu...
– Ainda durou
para aí duas semanas, que eu dou fé
de a minha mãe a ter ido ver. Coitadinha... quanto sofreu no corpo e na alma.
Aquilo deviam ser dores tremendas.
– E então o
Pelote não estava lá? – Perguntou a Regina.
– Não! Nem
estava no povo. Parece que tinha ido a uma festa, com a filha, a um povo
qualquer. Agora tu avalia bem a dor deste homem. Teria a filha os seus cinco
anos. E ficar sem a mulher, sem o filho, sem a casa...
– E então
quem deu pelo fogo?
– Ah! Aquilo
deu-se logo conta, os vizinhos... Mas alampiou-se
logo tudo, de repente. E depois é que veio a mulher a gritar, a gritar...
Depois tocaram o sino e toda a gente foi lá a ajudar a apagar.
– Mas então
ainda ardeu muito!
– Pois ardeu.
Eu, cá p’ra mim, a mulher estava a fazer a janta. Aquilo lá saiu à horta ou a
outra coisa, o fogo alastrou e devorou tudo num instante.
– A casa era
antiga e a hora ajudava. Foi tudo ao consoante.
– E não
vieram os bombeiros?! – Perguntei eu não me conseguindo já conter.
– Bô, bombeiros! Naquela altura como é que
vinham os bombeiros?
– E onde
estavam os bombeiros?
– E onde
havia telefone para os chamar? Os bombeiros eram o povo que se mexia...
A história
deixara-me tão absorta que foi preciso um solavanco da minha mãe para me
aperceber que o almoço tinha acabado.
– Vá,
ajuda-me cá a juntar os pratos.
Vamos lá. Mas
a malha não começava logo. Alguns aproveitavam para ir a casa tratar de algum
assunto urgente, como o pai da Marquinhas, outros deitavam-se um pouco, mesmo
ali à sombra fresca dos castanheiros, outros ainda preguiçavam relaxados em
conversas miudinhas ou ouvindo apenas o que à volta se passava, de palhinha na
boca a palitar os dentes.
Para mim,
agora era a etapa mais complicada: lavar a louça... e que louça! E depois
arrumar tudo com a ajuda da Fatinha e a orientação da minha mãe. De qualquer
modo, o dia ia decrescendo a pouco e pouco e a malha já não duraria assim
tanto. Faltava só a meda do trigo e já não era toda. Talvez aí pelas cinco ou
seis da tarde tudo estivesse pronto. Ainda havia, no entanto, outra coisa bem
interessante: a mudança da malhadeira da nossa para a eira do tio Henrique que
era mesmo ao lado da nossa. Ah! Isso tinha de ver.
Ao fim da
tarde, quando o sol se estava a pôr, fiquei um pouco olhando o horizonte,
progressivamente ensombrado pelo crepúsculo. Além, tocando o céu e a montanha
ao mesmo tempo, uma neblina avermelhada espreguiçava-se num testemunho cruel...
O meu pai passava na varanda e olhava também, sem quase me ver, comentando para
si mesmo a evidência:
– Deve ter
havido um valente fogo...
Coitado do
Pelote! A imagem dele no céu e as cinzas da criança e da mulher chorando uma
mágoa distante. Teriam eles tido, alguma vez, uma malha como a nossa?!
Maria José Diegues de Oliveira, in Brisas da Terra



Que linda história! Uma grande pena meu pai não estar aqui para poder lê-la. Obrigada, prima, por trazer um pouquinho da história da família para nossas vidas!
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