A Mãe d'Água

A saída de casa àquela hora tinha de ser arrancada a muito esforço. Era uma luta violentar as pálpebras coladas e sacudir o sono modorrento da madrugada. Mas agora esmigalhar o pó do caminho, onde os rastos do dia anterior tinham fossilizado na frescura, e depois molhar os pés na erva ainda húmida, acabada de sair do banho do orvalho, era uma delícia. O sol estava prestes a nascer, e por cima dos montes do nascente, o céu parecia ferido com a chaga de um clarão. O melhor de tudo era assistir ao parto do sol, saciar-se de todo seu esplendor, sem ele ferir e com uma frescura que nenhum réptil teria forças para enfrentar.  Levava um casaquito pelos ombros, mas os meus braços, em “couro de pita”, tiritavam sob o fresco matinal. A passarada estonteava com violentos chilreios que chamavam o sol e, já no souto, o som suave das folhas secas, que pavimentavam o chão, acabavam de acordar todos os sentidos. A tiracolo pendia um saco onde levava um livro e um guardanapo a envolver o mata-bicho: duas fatias do pão que a minha mãe cozera na véspera, com manteiga e presunto.

Era raro, àquela hora, encontrar gente pela borda do povo, o caminho mais curto que escolhia seguir: uma tiradinha até ao souto dá Caldeira e depois era contornar a casa do tio Arlindo e a da tia Lurdinhas. Os rebanhos há muito tinham saído para os montes e a harmonia dos sons só foi quebrada pelo galarote, que subitamente desferiu um agudo canto ao raio de sol que acabava de lhe entrar pelo ralo da capoeira. Ato contínuo, assaltam-me uns latidos despropositados, que o rafeiro da tia Lurdinhas, de corpo lingrinhas, mas muito ativo de língua, tinha sempre de exibir quando pressentia passos de estranhos. Passava ainda pela casa dos ciganos, que há muito tinham feito vida na Espanha, e ali nem bulia uma mosca.

Naquele cruzamento, junto à casa da Maria Alexandra, ouvia os chocalhos de uma manada que passava na estrada, rumo ao lameiro. Seria da Jacinta? Espreitei, na esperança de a poder saudar. Nada! Eram as vacas do tio Luís e ia o meu primo Bilo a acompanhá-las. Não me viu nem eu dei sinal de mim, pois compenetrei-me na missão que me estava incumbida, entendendo que não me podia demorar. Olhei o nascente. O sol já pusera uns raios para fora dos montes e não tardava a estender os tentáculos de fogo sobre tudo. Abracei o caminho para dar cabo dos restantes metros que me separavam do meu destino.

No último troço do caminho ia matutando, com orgulho, na missão que levava: abrir a Mãe d’Água. O tio Nuno, o Presidente da Junta e o responsável por tal operação, não estava na aldeia nesses dias e, quando ele não estava, a minha tia Tininha pedia-me para o fazer, com a permissão do meu pai. Nem sei se tinha sido eu a oferecer-me. Mas que gozo me dava ir abrir a Mãe d’Água! Como era gozoso pensar que, àquela hora, toda a povoação estava suspensa, à espera de um simples gesto das minhas mãos: rodar a torneira de passagem do enorme reservatório que a montanha tinha enchido durante a noite.

A grandeza dos montes da serra da Coroa e a força da água pediam a colaboração das minhas pequenas mãos para mitigar a sede das plantas, dos animais e das pessoas da minha aldeia. O poder daquele líquido milagroso, só esperava a anuência de um gesto meu para dessedentar toda a aldeia! Mas o meu sentimento era também de humildade perante a preciosidade da água e a alegria que ela proporcionava, relevadas nesses tempos de escassez.

A Mãe d´Água era um reservatório enorme, embutido no solo, na encosta de um lameiro ao cimo da povoação. O sinal da sua existência era dado por uma pequena casinha branca, qual iceberg de um submerso segredo.

Porque nos estios mais secos a água escasseava, era necessário deixar encher o reservatório, em horas mortas, para depois o abrir e dar a possibilidade a todos os habitantes da aldeia, por igual, de recolherem o precioso líquido.

Cheguei ao meu destino. Mal rodei a chave da porta de metal, pintada de verde, e senti ranger os gonzos, emperrados pela ferrugem, um ar de frescura húmida acariciou-me a face. O tanque cúbico afundava-se para lá de um patamar. Mal o via, um instinto de vertigem protegia-me da aproximação. Eu bem avaliava o risco daquela operação. E vinham-me à cabeça as recomendações da Tininha. Se eu caísse no poço… bem, era melhor nem pensar. Mas aquela impressão de a água estar gelada fazia-me voltar a cabeça e concentrar-me na missão que ali me trazia. Espreitar pouco e satisfazer apenas a curiosidade sobre o nível da água. Quanto tempo duraria?! Cada casa da aldeia tinha já cântaros e baldes preparados para encher. O tio Nuno bem recomendava, no final das missas de Domingo, que a água da rede era apenas para um restrito consumo doméstico. Regar hortas e fazer faxinas estava proibido. O uso da água era também um teste à solidariedade mútua da aldeia.

Do lado direito de quem entra abria um alçapão, para descer até à célebre torneira de passagem que era o objetivo da minha missão. Para a alcançar usava a escadinha que consistia nuns ferros incrustados na parede.

Quase sempre um medo me percorria a espinha antes de iniciar a descida, o de que algum sapo se encontrasse junto às condutas. Era raro, mas tudo podia acontecer. Espreitei, de cima. Pois nesse dia lá estava um marmanjo, postado não muito longe da torneira! Atirei um salto para trás, com o coração aos pulos.

Quase sempre, quando tinha o azar de encontrar o túnel habitado por um sapo, este respeitava a minha entrada e não tardava em se retirar.  Bastava esperar cerca de um minuto, fazer algum estrépito com os pés e, já num último recurso, carregar o animal com pequenitas pedras ou terrões. Rapidamente tinha o espaço desimpedido e a missão era cumprida. Mas o daquele dia, pareceu nem se mexer. Primeiro pensei que estivesse morto, ou até que o tivesse confundido com um monte de excrementos. Mas aquele arfar do papo, num reparo mais atento, não deixava margem para dúvidas. Tinha mexido. Retirei-me horrorizada e fui buscar o pau que sempre me acompanhava. Bati com ele, repetidamente, no bordo do alçapão e dali a nada voltei a espreitar. Nada! O fulano nem se tinha desviado um milímetro da sua assapação! Parecia apresentar-se muito seguro de si, como se aquele espaço lhe pertencesse. Nesta segunda entrevista visual apercebi-me que era um animal medonho. Até a cor era um pouco diferente do habitual, mais para o esverdeado.  Não que eu me detivesse a admirar a beleza desses batráquios repelentes, segundo na altura era o meu entendimento, pois nem a galhardia do sapo Cocas, a dinâmica e espirituosa vedeta dos Marretas, que eu tanto admirava nesse tempo, aligeirava um pingo ao horror que sentia no encontro com um batráquio assim.  Mas aquele sapo era diferente. Talvez aquela postura imperial, pertencesse a uma casta especial do reino dos sapos.

Resolvi sair, porque sentia que até o ar se envenenava naquele respirar comum. E pus-me a pensar num plano que obrigasse o batráquio teimoso a recolher ao covil, que nem fazia ideia onde poderia ser. Dali a nada voltei a espreitar cuidadosamente. Aquele volume, amorfo e feio, continuava ali especado sem dar mostras de tédio.

Fiquei amuada, à espera que o animal saísse dali. Não saía. E na minha desesperação, gritei:

– Sai daí!

E, mal o disse, umas vozes interiores começaram a inquietar-me. O sapo falava, numa voz cavernosa e arranhada, como a das rãs quando coaxam nas poças:

– E por que tenho eu de sair daqui?

– Porque este lugar não é teu.

– E quem és tu para me dizer que o sítio onde nasci e cresci não é meu?!

– Serás da terra, terás uma toca. Mas então vai para a toca, desanda daí. Este edifício foi construído pelos seres humanos, para uma necessidade muito concreta: deixar encher o depósito da água! Não foi para acolher sapos intromissores!

– Olha quem me vem falar de intromissão!!! Usurpadores é o que vós sois, os seres humanos que vos achais o centro do universo. Que ilusão! Fica sabendo, minha menina, que não te dou trinta anos que não descubras a interdependência que te une a cada criatura desta terra. Mesmo aos sapos. E que não estejas a chorar pela extinção de espécies em massa.

– Olarila! Bem se vê que és um sapo muito culto.

– E tu és uma menininha mimada, cheia de medos estúpidos.

– Tu és horrível!

– Em que escala de critérios?!

– Sai daí, ou vou chamar o meu pai que te agarra numa perna e te manda para o outro lado do mundo.

– Coitadinha da medricas! Vai chamar o paizinho, vai!!! Vejam lá o medo que um sapinho inofensivo lhe provoca!

– Tu és um saparrão, feio e armado em bom!

– Não estou armado em nada. Tenho a minha dignidade! E não são os teus conceitos distorcidos e tendenciosos que a diminuem um milímetro que seja.

– Então vai-te daí, que a povoação toda esta à espera da água.

– Não te impeço de abrir a torneira. Está a trinta centímetros de mim. Tens boa margem de manobra.

– Mas metes-me nojo. Não te posso ver!

– Minha linda! Ainda hás-de lidar pela vida fora, com nojos maiores e engoles, de biquinho calado.

E o sapo, de seguida, parecia falar para si próprio: “Bolas! Sempre se leva com cada uma! Anda uma pessoa na sua vidinha, não faz mal a ninguém e vem uma fulana a teimar que temos de nos esconder para fazer uma tarefa da vida dela. E eu não a impeço de nada, que se note…”

O Batráquio ficou nas suas queixas e eu fiquei nas minhas, até que apareceu o meu pai.

Mas neste entretempo, eu nem imaginava o rebuliço que ia por aquela aldeia fora. Não fazia ideia, por exemplo, que a Alzira dá Pedra nessa manhã não tinha água para fazer as sopas para o pai velhinho, nem o café para o trapalhão do Cornélio que à noite, com um pontapé inadvertido no cântaro, havia derramado o precioso líquido pelo pavimento da cozinha. Em cada casa havia sempre uma reserva de água para as emergências.

Enquanto a coitada se mexia a ir encher um cântaro à nascente da Costa, longe como tudo da sua casa, pelo caminho contava a uma vizinha que a interpelara:

– Olha, aproveitei para dar uma boa esfrega ao chão, que também já estava a precisar.

– Ao menos! – concordava a vizinha que tinha estado a ouvir as lamúrias da Alzira. – E então o teu home foi sem comer?

– Lá foi cavar batatas, ao ser de dia, e levou com ele o mata-bicho para o comer ao pé dum nascente qualquer.

– Mas uma coisinha quente, logo à por manhã, sempre compõe o estômago…

– E que lhe quer?! A culpa foi dele que tombou o cântaro… Agora o meu pai é que está ali à espera das sopinhas. O leite não lho leva o estômago e para coisas duras os poucos dentes não ajudam… E hoje a água nunca mais vem. Ele não se me cala e eu fui ali a encher o cântaro.

Não podia prever a zaragata que, junto ao bebedouro dó Canto, se desencadeou entre o tio Jaime e a Lianor, à conta de as vacas encontrarem o tanque vazio, à saída do curral:

– As coitadinhas a morrer de sede e o tanque com um serruchinho de água no fundo cheio de terra e lumiacos.

– A esta hora já deviam ter aberto a água…

Mas a maior sinistrada foi a Tila que nesse dia queria ir à festa de Travanca e combinara com o primo, de Prada, que estivesse à porta de casa às nove da manhã, para a levar. Ainda em trajes menores, com os cabelos a rodear uns rolos que comprara na semana passada em Vinhais, suplicava à mãe:

– Ó mãezinha, por piedade, vá-me à fonte dá Carcele buscar um cântaro de água.

– Estava cheio o cântaro!

– Estava. Estava para lavar a cabeça, mas agora quero lavar o resto do corpo e água que viste! Hoje nunca mais abrem a água da rede…

– Tu nem me digas que estouraste a água toda na cabeça! Valha-te Deus, mulher, que ainda lavas os poucos miolos que tens! E a pressa?! Ainda tens mais de duas horas…

– Ó mãe, duas horas depressa passam…

 Apesar de a mãe lhe ralhar que dissipara toda a água que ela tinha ali de prevenção para o urgente da vida da casa, a Tila havia de se lamuriar todo o dia da pressão da sua higiene matinal, porque ninguém entende o tempo nem a quantidade de água que uma rapariga casadoira precisa para se aperaltar convenientemente, quando vai a uma festa!

E o mais que por aquela aldeia fora haveria só por causa de um sapo que não se mexia do sítio e de uma menina que emperrara nos seus medos.

Havia cerca de um minuto que eu tinha ido fiscalizar as imediações da torneira de passagem, constatando a teimosia do bicho que ainda não desmobilizara. O sol já medrava no horizonte e eu estava a desesperar, quando senti uma súbita voz masculina por detrás de mim. O meu corpo ficou petrificado antes de verificar, aliviada, que era o meu pai que aparecia, depois de ter ido regar os lameiros da Chãira e comprovara, em várias casas do seu percurso, com lamúrias e interrogações, que a água ainda não fora aberta.

– Tu que estás a fazer aí parada, garota?!

– Ai, paizinho!

– Sim, que estiveste a fazer até agora?! Saímos de casa ao mesmo tempo e, por esse povo fora, está tudo à espera da água…

A cara zangada dele mal escondia o seu alívio. Viria certamente a temer que eu tivesse caído no depósito da água.

– Está lá dentro um sapo. – Justifiquei, a medo.

– Aonde? No depósito? – Esboçou um sorriso que me relaxou.

– Não. Ao pé da torneira…

– Um sapo?! Oh valha-te Deus, mulher! Olha, por causa de um sapo, ficavas aqui toda a manhã... Roda daqui embora, que o tio Arnaldo deve estar lindo! À tua espera, mortinho por ir abrir as poças da Vidoeira. Vai lá ter com ele, a Vale de Mano, que eu vou abrir a água.

E o meu pai entrou na mãe d’ água. Dei uns passos até à borda do lameiro, devagar, esperando para ver se, à saída, o meu pai traria o sapo pendurado por uma perna para o atirar para o meio do Souto dá Caldeira e ouvir o característico "Pahaá" dele a rebentar no chão, com a força da queda. Mas, quando saiu, o meu pai não trazia sapo nenhum.  Avistou-me, ainda encolhida na minha vergonha, e disse.

– Mas tu que sapo viste? Eu não encontrei nada! Aquilo foi algum calhau que tu confundiste com um sapo! Olha a tua responsabilidade!!! Vá, vai lá, não percas mais tempo!

Achei que não valia a pena argumentar. Muito menos contar ao meu pai que o sapo até tinha falado. Olhai o desalmado do animal que assim me tinha traído, recolhendo ao covil, mal ouvira a voz do meu pai! Não era burro, não!

E lá fui substituir o tio Arnaldo, na guarda das nossas vacas, ao lameiro de Vale de Mano. Ele já estava no cimo do lameiro, com a sacha ao ombro, preparado para rodar para a Vidoeira, mal me visse assomar ao fundo. Ainda percebi uma ou outra palavra do seu arrazoado de murmúrios, que a brisa esvaía, com promessa de engrossarem à hora do almoço.

– Tem que ir uma pessoa pela hora do calor, por aí acima, porque estes fedelhos, não são capazes de madrugar…

Mal ele sabia ainda a verdadeira causa da minha demora, que censuraria com outro vigor. As vacas espraiavam-se ao longo do espaço verde, muito concentradas no seu pastar. Subi até àquela fraga que se erguia no meio do lameiro e, sob a sombra dos cinco carvalhos, abri a sacola para saborear o meu manjar.

Hoje sento-me diante da belíssima imagem do Sagrado Coração de Jesus da igreja de Paçó de Vinhais e permaneço em contemplação daqueles olhos divinos que trespassam os meus medos, os meus recuos e as minhas indecisões. O dedo da imagem aponta o coração ferido, e lembro-me da Mãe d’Água. Reservatório de Misericórdia e de Graça, que os meus gestos e palavras podem fazer abrir para o mundo.

Olho, contemplo, sorrio enlevada em gratidão, e rezo assim: “Todas as minhas fontes estão em ti!” (Sl 86)

Maria José Diegues de Oliveira


#sagradocoracaodejesus #eucaristia #agua #pacodevinhais

 

Comentários

  1. " Reservatório de Misericórdia e de Graça , que os meus gestos e palavras podem fazer abrir para o mundo..."
    Que Verdade Irmã! Podemos fazer tanto...ou tão pouco!
    Beijinhos grandes ❤

    ResponderExcluir
  2. Olá prima, sou filha do seu tio Domingos. Que lindo seu conto, creio que temos uma escritora na família!! Essas histórias me aproximam de uma parte de minha história que não conheço, me aquece o coração! Parabéns! Beijinhos

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas